quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

sábado, 13 de janeiro de 2018

E aí nos Açores não está sempre a chover?

E isso aí na ilha tem centros comerciais? Não. E McDonald's? Não. E trânsito, agitação? Não. E discotecas? Uma. E se quiseres pegar no carro e conduzir umas dezenas de quilómetros? Não pego. E se quiseres arejar as ideias para longe de casa? Não posso (posso arejá-las a poucos metros de casa num qualquer miradouro ou paisagem). Como é que consegues viver aí, ainda para mais quando está sempre a chover?! Não compreendo, a sério que não compreendo! Como? Assim:


Um luxo e um privilégio, numa foto captada hoje, no Inverno açoriano. 

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Lugares esquecidos: Fábrica da Pronicol/ELA

Há uns tempos, o desejo pelo registo e exploração dos lugares esquecidos levou-me, na melhor das companhias, a um dos abandonados da cidade de Angra.

O destino foi a antiga fábrica da Pronicol, unidade de transformação de produtos lácteos, há muito em decadência à entrada oriental da cidade de Angra e que encerra, ainda, muitos aspectos interessantes para o registo fotográfico.

Abandonada há vários anos, em 2005 já se encontrava em estado de total decadência, continua sem destino definido, falhados projectos e ideias para a sua ocupação e reconversão.

Sei pouco sobre a fábrica e a sua história, e não consegui arranjar fotos da altura em que laborava. Ensina-me o solícito J. F. que a fábrica já laborava na década de 80, chamando-se ELA (Empresa de Lacticínios dos Açores). Em 1994 foi comprada pela Pronicol, cujas letras se vêem numa das fotos, e terá sido abandonada, aquando da construção da nova fábrica.

















E se fosse possível, pela força da memória, do pensamento livre e da criatividade, devolver a dignidade a um edifício abandonado há anos a fio?

É esse o desafio a que me proponho, com a esperada ajuda de muitas pessoas. Cenas dos próximos episódios numa internet perto de si.

domingo, 7 de janeiro de 2018

As vantagens de ficarmos em último...

Primeiro, não temos que olhar para trás a ver se alguém nos apanha, o que nos torna ainda mais rápidos, mesmo muito mais rápidos. Menos lentos, vá. Caracóis hiperactivos, pronto.

Segundo, recebemos mais palmas de quem está na meta, num misto de simpatia e empatia. 

Terceiro, podemos fazer aquela piada do "fiquei em primeiro! A sério? Sim, a contar do fim".

Mesmo, assim, mesmo com todas estas vantagens inexcedíveis, gostei mais quando fiquei em penúltimo. Nunca passei daí, diga-se.

(Para os mais atentos, na primeira foto, estou à beira de levar uma volta de avanço do queniano que está de vermelho...)




O que se aprendeu, hoje, com a Mariana... - LXXXIX

Que o Bob Dylan tem toda a razão quando diz que os tempos estão a mudar, numa canção que a virtuosa Nina Simone recriou com brilhantismo, uns anos depois.

Que o prazo de validade para acharmos graça a algumas coisas é curto e que a contagem decrescente já começou.

Que é muito ternurenta a forma como rapazes e raparigas de oito anos podem ter uma amizade verdadeira, sublimando as diferenças entre os géneros. Que nunca percam essa capacidade que tantos adultos já esqueceram, perdidos em si mesmos, amordaçados pelos estereótipos.

Que, ao contrário do que proclamam os profetas da desgraça da parentalidade dos dias de hoje, é possível sentirmos orgulho das nossas crianças e das outras que, com elas convivendo, nos deixam, ainda que de forma diferente, orgulhosos também.

Ontem foi dia do M., amigo de sempre da Mariana, vir cá a casa. Numa combinação bem urdida pelos dois, daquelas que os pais vão sabendo aos pouquinhos, a reboque do receio de um sonoro "não!" trair as expectativas criadas e alimentadas pelos petizes, combinou-se que o M., além de jantar connosco, dormiria cá em casa, para dar tempo a que se realizasse a contento todo o rol de coisas que haviam pensado para o tempo em conjunto. Não. Aos oito anos de idade não há noção que o tempo não chega para tudo.

Pelo caminho,  iniciou-se a realização comunitária das pizzas para o jantar, num chão da cozinha que empalideceu, tal a quantidade de farinha que foi voando entre a banca e os pequenos chefes e entre os pequenos chefes.



Pais da Mariana - Podemos comer na mesinha da sala... vocês põem a mesa enquanto nós orientamos o resto das pizzas.

Obedientes os M.&M. foram reunindo os utensílios para pôr a mesa, plenos da autonomia que, sadiamente, têm.

Uns minutos sem vir à sala, e, eis senão quando, está posta uma mesa para dois. Dois pratos, dois copos, dois talheres e dois guardanapos, com o sumo já colocado em cada copo.

Pais de Mariana (num ingénuo uníssono, enquanto levavam as pizzas que cada pequeno fez para si para a sala) - Faltam mais dois pratos...

M&M - (troca de olhares e longo silêncio)

Pai de Mariana (a adivinhar a resposta, ao mesmo tempo que lhe achava piada e se sentia confundido por ela) - Então a mesa é só para vocês jantarem?

Mariana (em modo cara de pau) - Hmmm... Sim.

M. (em modo cara de pau) - (Longo aceno afirmativo).

Passam uns segundos, aqueles que os pais necessitam para digerir a surpresa e as situações em que são desarmados por aqueles que têm quase trinta anos a menos.

Pai de Mariana (em modo saída airosa, com base numa qualquer piada forçada, algo que faz vezes demais) - Querem que ponha uma vela acesa, não?

M. - Não... espera pode ser!

Mariana - Era fixe.

Pai de Mariana recolhe à cozinha. E por lá ficou. Seguro da amizade daqueles dois e de que o M. é um miúdo fixe. E que daqui a uns anos está condenado a uma úlcera nervosa. E, sim. Ficou pela cozinha a jantar.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Um hospital moribundo na Cidade Património

O antigo Hospital de Angra continua moribundo, sem que ninguém, sequer, o ligue a uma qualquer máquina que o reabilite.

As janelas têm vista privilegiada para o esquecimento e para o abandono da memória. Dizia, hoje, o C. P. "e tu nunca trabalhaste ali..." num misto de nostalgia e revolta. Faz bem em estar revoltado. Faz mal quem não se responsabiliza pela memória colectiva de todos os que habitaram um espaço de sofrimento mas, acima de tudo, de abnegação, de vida e de alegria.

Dizia a pequena S., pouco depois, quando me apanhou a ver as fotos que tirei no telemóvel:

S. - Isto é estúpido. O Hospital podia trabalhar mais tempo. Eu nasci lá, sabes... Quem deixa fazer isto é totó.

Tem razão, a pequena S., do alto dos seus oito anos.






segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

O que se aprendeu, hoje, com a Mariana... - LXXXVIII***

Que a Princesa está a trilhar muito bem os caminhos da educação emocional.

Que, para ela, ao contrário de muitos adultos, as emoções fazem todas falta.

Que, para ela, ao contrário de muitos adultos, não há emoções boas e emoções más, ainda que algumas sejam mais agradáveis do que outras, à primeira vista.

Que a Princesa já percebe que as emoções são todas equipamento de série e não uma espécie de tuning que podemos, ou não, colocar.

Que, como já se foi percebendo, tem bom gosto e rejeita alterações desnecessárias àquilo que é fundamental.


Que um Fiat Uno deve ser facilmente reconhecível como um Fiat Uno. Como aquele que tinha a tia A. S.* tinha e que voava por Lisboa. Vá, andava.

A Princesa acompanhou o seu pai a uma viagem à aldeia da sua avó materna.

Vários reencontros saborosos com família e amigos, da mocidade deste vosso escriba, uma visita à casa da aldeia (para "trazer brinquedos do pai") e uma passagem pelo local onde o avô paterno tem a última morada**.

Aquele misto de emoções para o pai da Mariana.

Viagem de carro de volta para a mais bela cidade do mundo, depois de uma aventura na apanha de fruta do nosso pomar, nas imediações da árvore da vida.

Pai da Mariana - Como é que sentiste no cemitério?

Mariana - Foi estranho e confuso. E tu ficaste triste?

Pai da Mariana - Sim. É natural, compreendes?

Mariana - Sim.

Pai da Mariana - Achas que era possível viver sem tristeza?

Mariana - Não. Não seria bom.

Pai da Mariana - Porquê?

Mariana - Porque a tristeza faz falta.

Pai da Mariana - Para quê?

Mariana - Para pensarmos sobre os nossos erros, por exemplo.

Pai da Mariana - Sabias que há adultos que preferiam viver sem a tristeza?

Mariana - A sério? Que burros.


* Ainda que esse tivesse um acessório extra... uma cana, à medida, para segurar a tampa da mala.

** Onde os dois passaram, pelo menos durante algum tempo, a partilhar um segredo de um gesto pleno de significado de que foram co-autores.

*** A caminho dos 100. Aceitam-se encomendas do livro. (kidding)

O que se aprendeu, hoje, com a Mariana... - LXXXVII

Hoje foi o dia seguinte à passagem de ano, muito bem passada em casa da C. e do J., tios de coração da Mariana.

Hoje foi o dia em que foi preciso recuperar da forma divertida e bem guarnecida de itens do foro alimentício e do domínio da produção de bebidas espirituosas, que permitiu que um punhado de pessoas tivessem dado um contributo generoso à indústria nacional. De nada, Centeno.

Em família, vimos o ET que estava gravado, à espera do dia ideal, na box do cabo.

                               

Em família, gostamos do ET. Os pais da Mariana apreciaram a sua emoção espontânea quando o alienígena voltou à vida, quando já se formava uma lágrima, veementemente negada, no canto do olho da Princesa.

Em família procurou-se discutir o filme.

Pai da Mariana - Gostaste do filme?

Mariana - Sim.

Pai da Mariana - Este filme, na tua opinião, é sobre quê, Mariana?

Mariana - Sobre amor.

Aprendeu-se, mais uma vez, que as pequenas Princesas estão atentas. 

Que percebem a linguagem do amor, na sua pureza e genuinidade.

Que a Princesa continua, do alto dos seus oito anos, a crescer bem. Por fora mas, acima de tudo, por dentro. Ali para o lado esquerdo do peito, em particular. 

Que, para além de dominar a pequena e a grande circulação do sistema circulatório, que já aprendeu no Estudo do Meio*, a pequena é entendida nas coisas do coração, aquele que, metaforicamente, nos permite sentir. 


* O que obrigou o seu pai a ir ler o livro para saber o que são...

Ilhéus


Resiliência. A principal característica do açoriano. Há 38 anos esta terra tremeu como ninguém pensava que tremesse. O abalo, o Sismo d'Oitenta.

Há 38 anos, da tragédia, emergiu a força de um povo, numa altura muito diferente da actual, na qual a escassez de recursos foi proporcional à coragem, resiliência e superação dos terceirenses.

Que não nos falte nenhuma destas características, na desejável ausência da tragédia, para a defesa da nossa terra, é um dos meus desejos para o novo ano.


2018: aqui vamos nós...

Feliz Ano Novo. Que 2018 comece pequenino e que, todos nós, o consigamos fazer crescer e prosperar, com resiliência, paixão, compaixão, amor e crença. Sobretudo em nós.Só depende de nós.


Esta foto foi captada, sem filtros, naquela que chamei, numa publicação anterior, a árvore da vida. A árvore da vida, onde ficarão sempre memórias e pessoas (do meu pai aos meus avós) fica num terreno de família. Foi sempre um sobreiro altaneiro, bonito e frondoso que nos abraçava com cada ramo e que nos protegia com a sua solidez. Que nos transmitia a segurança de estar sempre ali, daquela forma boa que as árvores, e algumas pessoas, conseguem. Foi sendo morta, com malícia e num movimento vazio de sentimentos, por alguém que a foi envenenando e cortando, com minúcia, as suas raizes. A árvore da vida vai morrer. Mas ensina-nos, como se vê nesta foto, que há esperança. Se ela ainda luta, como podemos nós sequer pensar em não o fazer?

Que em 2018 aprendamos com a (minha) árvore da vida. E que vivamos a vida, como ela nesta foto, com coragem e com menos filtros. Vamos lá?

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Não se explica. Sente-se.

As laranjas, diz a lenda, eram cultivadas pelas ninfas como veículos da imortalidade. Quem acedesse aos pomos de ouro das laranjas, sublimava a morte e o esquecimento.

Há cidades que encontraram as ninfas, e as suas laranjas, há muito. Provaram e lambuzaram-se com as suas laranjas. Coimbra é Coimbra. As ninfas estarão, com certeza, orgulhosas.


Não se explica, sente-se.

O que se aprendeu, hoje, com a Mariana... - LXXXVI


No relato de hoje, a Mariana contou com ajuda de outros petizes, as primas L. e C. e de um amigo, o D..

Sala cheia no Dia de Natal. Em todos os ângulos da divisão vislumbravam-se os pacotes, brinquedos e restos de papel de embrulho, rasgados, com ânimo e vigor, num movimento alimentado pela curiosidade das pequenas. Como tão facilmente acontece, o número de presentes das Princesas foi proporcional à sua ansiedade, na fase prévia à sua abertura, e da sua alegria, após um festival de luz e som do papel de embrulho e dos laços pelo atmosfera. Resultado, overdose de brinquedos alimentada pelo anseio dos pais e avós de corresponder àquilo que as Princesas esperavam e de lhes proporcionar alegria e, através das ofertas, veículos para boas sensações. Segundo resultado, atenção dividida por demasiadas coisas e poucos brinquedos verdadeiramente desfrutados. Shame on us.

O D., filho do N. e da A. (a nossa irmã-sem-ter-sido-parida-pela-avó-da-Mariana), chegou estremunhado da viagem de carro e só despertou, verdadeiramente, quando tinha que ir embora. Provou que é um miúdo porreiro, óbvio.

Pelo caminho, naquele corropio entre pais que querem que a criança venha embora e criança que quer adiar ao máximo a ida para o carro, os petizes descobriram, no meio da sala uma cadeira. Uma singela cadeira, daquelas de escritório, com a extraordinária potencialidade de girar. Simples. Girava, num misto de helicóptero que não levantava do chão e carro com um problema na direcção só virando para um dos lados, conseguindo transportar num círculo repetitivo dois petizes, ao mesmo tempo, enquanto os outros empurravam. Chegou para entreter quatro crianças durante muitos minutos, pulverizando o número de minutos que qualquer um dos brinquedos ganhos tinha ocupado, desde a noite anterior.


Aprendeu-se, com a Mariana e os seus companheiros natalícios, que os adultos tendem a complicar aquilo que é simples.

Que a alegria genuína de uma criança não depende da conta bancária, nem dos euros que nos saem do bolso no mês de Dezembro.

Que os miúdos são miúdos e que os adultos são adultos e que os últimos olham para uma cadeira como uma simples cadeira. Totós.

Que aprendemos pouco quando lemos o Principezinho. Quem não leu é totó, já agora.

domingo, 24 de dezembro de 2017

O que se aprendeu, hoje, com a Mariana... - LXXXV

Que a época natalícia é pródiga na lembrança de (boas) memórias de Natais passados em família.

Que as avós e os avôs são peritos atentos na arte de (des)encaminhar petizes e que conhecem como ninguém as portas travessas da parentalidade.

Que o Menino Jesus, na casa da avó D., se chamará sempre Jesus.

Que é uma fortuna poder passar mais um Natal com a minha família e que a Mariana tem uma colecção de avós, bisavós, tios e primas de qualidade superior.

Que quem não está continua, contudo, a fazer falta. Que, mesmo não estando, tem lugar algures na mesa imaginária, onde o machado não corta nem o pensamento, nem o amor.

O Pai da Mariana teve uma carreira religiosa curta e deixou a prática religiosa após a Primeira Comunhão, para grande tristeza da senhora sua mãe. Foi para a catequese, aquilo que um jogador chamado Porfírio foi para o futebol ou Rick Astley para a música. Uma eterna esperança.

Num dos primeiros Natais que a Princesa já arranhava umas palavras, alguém, que não pode ser identificado por questões de segurança, ter-lhe-á ensinado que o menino que ora estava deitado, ora estava estendido nas palhas do presépio, se chamada "Menino Toninho". Face a tal, sempre que a Princesa via um presépio dizia, a plenos pulmões, que estava ali o Toninho.

Chegados a Coimbra, para a saborosa passagem da quadra natalícia, eis que a Mariana entra na casa da avó D., vê a sua colecção de presépios...

Mariana - Olha tantos Meninos Toninhos!
Avó D. - Menino quê?!

Mais rápida do que o Dr. House, a Avó D. diagnosticou o autor do ensinamento da Princesa, a quem dirigiu um olhar reprovador daqueles que as avós conseguem fazer, enquanto congeminam a resposta. Sim. Uma avó a sério nunca deixa alguém sem resposta.

Passou um dia e eis que a história de hoje chega ao fim.

Estava o autor destas linhas a chegar, discretamente, perto de uma certa colecção de presépios de uma certa avó, de uma certa Princesa....

Avó D. (com a princesa no seu colo, enquanto apontava para os diferentes presépios) - Mariana, menino Jesus, ouviste? Menino Jesus! Não é Toninho...

Avós 1 - Resto do Mundo 0

Já agora, um bom Natal a todos que por aqui passam. Que seja uma quadra feliz e que festejemos o nascimento de Menino. Jesus ou Toninho, consoante a atenção das avós.

Ensaio sobre a cegueira

Há que ouvir os especialistas. Atender à sua opinião. Aprender com os seus ensinamentos. Valorizar quando as Frentes e as pessoas falam sobre aquilo que sabem. Estes tipos sabem do que falam. Sai um honoris causa em cegueira para a FLA.

domingo, 17 de dezembro de 2017

Noite feliz em Angra do Heroísmo, a jóia dos Açores


O que se aprendeu, hoje, com a Mariana... - LXXXIV

Que a Mariana está atenta ao que se passa à volta dela e que a resposta, quando é rápida de mais, tende a enfermar de grandes lacunas no acerto e no rigor. Até em pequenas Princesas de oito anos.

Que, nalgumas alturas, aquilo que aprendemos com ela é, simplesmente, rir a bandeiras despregadas em conjunto com as pessoas que gostamos.

Que, rir em família, em ambiente de partilha, comunhão e amizade, sabe bem melhor.

Que a família está muito para além de simples laços de sangue e que a Mariana tens umas tias, tios e primos terceirenses à altura.

Que o pai da Princesa faz, mesmo, uns gins do caraças!

Contexto: jantar de Natal de parte da nossa família terceirense, em casa de uma das tias da Mariana, a L..

Como típico jantar de Natal que se preze, houve troca de prendas e tudo a que tivemos direito, até um sacrifício de um pequeno suíno, ali para os lados da Grota do Medo.

À chegada progressiva de tias e tios, a Mariana ia cumprimentando quem ia entrando.

Tia C. - Mariana, a prenda que comprámos para ti é muito fixe. É uma coisa que gostamos todos muito! É tão fixe que os adultos vão todos querer usá-la e jogar com ela! Consegues adivinhar o que é?

Mariana (com um ar que eu não vi, mas imagino) - Vocês deram-me uma garrafa de gin?!

Não. Deram um jogo bem divertido, devidamente experimentado ontem à noite. Por petizes e graúdos. E por graúdos do tamanho de petizes.

Bom Natal junto da(s) vossa(s) família(s).


quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

A minha proposta para o novo logótipo da IURD

A propósito das recentes notícias vindas a público sobre a Igreja Universal do Reino de Deus e as adopções que promovia de crianças que teria, estranhamente, a seu cargo, achei-me na obrigação de contribuir, pro bono, com um novo logótipo para a referida empresa. A imagem corporativa é um valor de mercado e deve, naturalmente, exprimir a missão da entidade. Aguardo o agradecimento do bispo Macedo.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

O que se aprendeu, hoje, com a Mariana... - LXXXIII

Ao octagésimo segundo relato desta saga* aprendeu-se, novamente, que a Princesa tem poderes.

Que consegue ter um coração gigante que desafia um Oceano. E que lhe ganha por capote, como se dizia antigamente.

Que uma viagem surpresa dos avós, do avô e da bisavó para o seu aniversário, demonstra que o coração está bem desenvolvido e que valeu a pena a Princesa ter comido muito ao longo dos anos. Que quem está longe está bem viva no seu coração.

Que o avô que não veio continua no seu coração, mesmo que sem nunca o ter conhecido. As perguntas recorrentes demonstram-no e a satisfação de receber uma nova foto dele provam-no. Que quem ela nunca conheceu, também cabe num coração enorme que só pode orgulhar.

Que a batalha continua, para sublimar um Oceano.

Que ficámos todos, os de cá e os "lá de fora" mais revigorados nessa luta.


* Mantém-se o objectivo de chegar ao centésimo relato para construir um livro para a Princesa...

É fugir, senhores, é fugir!

Num raríssimo, e irónico, volte-face da história, a senhora da Raríssimas passou a utente da instituição que terá gerido conjuntamente com o herdeiro da parada, com base num paradigma alimentado a gambas e motores germânicos.

É que, pelo que vejo e leio, a senhora só pode ter contraído lepra, varíola ou peste bubónica, entre hoje e ontem, tendo em conta a quantidade de pessoas ilustres que dela fogem como o mafarrico foge da cruz.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

O que se aprendeu, hoje, com a Mariana... - LXXXII

Que, nalgumas coisas, ser pai de uma Princesa é mais complexo que ser pai de um Príncipe.

Que, por muito que brinquemos com o assunto, temos medo daquilo que não controlamos. Futuros putos borbulhentos na puberdade entram nessa definição.

Que o medo nos faz antecipar até aquilo que não faz sentido. Nenhum, mesmo.

Que, mais uma vez, em casa de ferreiro não há espetos de ferro, só de pau oco.

Que o M. e o B. são só miúdos e que são muito porreiros, daqueles que dá gosto que façam parte da vida da Princesa.

Um destes dias, a Princesa teve uma demonstração de basquetebol. Como se diz pela Terceira, a Mariana e os colegas foram todos prezados participar numa exibição do seu escalão de formação, no intervalo do jogo de basquetebol dos grandes.

Após o intervalo, a Mariana ia aparecendo e desaparecendo na bancada, enquanto brincava com os amigos.

Chegados a casa, o pai pergunta, naquele modo que os pais têm em que conseguem ser só uns chatos. O Pai da Mariana tem muito momentos desses.

Pai de Mariana - Gostaste de ir ao jogo?

Mariana - Sim.

Pai de Mariana - E gostaste de brincar no pavilhão com os amigos?

Mariana - Sim.

Pai de Mariana - E brincaram a quê?

Mariana - Não te posso dizer. É segredo.

Pai de Mariana (em pensamento, ligando o complicómetro parental de protector de Princesas*, à velocidade da luz...) - Segredo?! Se ela não conta os jogos com os rapazes, não pode ser coisa boa! Estou lixado com isto. Já?!

Pai da Mariana (a falar "à pai") - Conta lá!

Mariana - Pronto... eu conto...

Pai da Mariana - Sim...

Mariana - Estávamos a jogar à patinagem no gelo...

Pai da Mariana (em pensamento) - És um idiota! Ufff...

Pai da Mariana (em modo cara de pau) - Muito bem! Fizeram bem... deve ter sido divertido!


* Como se ela precisasse...

terça-feira, 28 de novembro de 2017

O que se aprendeu, hoje, com a Mariana... - LXXXI

Que a escola, em todo o seu esplendor, começa a implicar que a Princesa traga para casa desafios, que vão muito além dos corriqueiros trabalhos de casa. A discussão do sistema reprodutor é um deles.

Que, apesar disso, pode haver momentos divertidos em tais desafios. Pelo menos, por enquanto.

Que a aprendizagem daquilo que significa ser homem e pai de uma Princesa continua, sendo de registar progressos.

Que, realmente, a nobre arte de ser alquimista da alma, termina à porta de casa. Que ser psicólogo em casa própria nunca funciona.

Que, felizmente, não estamos sozinhos na luta.

Há uns tempos, era a Princesa ainda mais pequena, Filipe deparou-se, muito mais cedo do que esperava/temia, numa viagem de carro, com a mais sacramental das perguntas.

Princesa - Pai?

Pai da Princesa - Sim?

Princesa - Como é que fazem os bebés?

(longo silêncio...) Pai da Princesa - Tens que perguntar à mãe, ela depois explica-te... (sim, shame on Filipe).

Como sempre, o evitamento revelou a sua perversa eficácia no curto-prazo.

De lá para cá, a Princesa cresce, as perguntas vão acontecendo e os pais têm desempenhado a sua função, com menos evitamento paternal das questões difíceis. Realmente, tudo se aprende (sim, com as filhas que não são nossas, é bem mais fácil...).

Hoje, o M., amigo inseparável da Mariana veio jantar connosco. Falando da escola, à refeição, enunciaram-se os sistemas do corpo humano que os petizes estão a estudar no Estudo do Meio. A conversa foi parar ao sistema reprodutor, aquele que está a ser trabalhado com o professor J..

Aí, durante a conversa, foi possível perceber, com muito menos constrangimento do que aquele que se sentiu na conversa anterior, que os bebés nascem através da junção do ovário com o espermabogotozóide. E, que algures, no sistema reprodutor das senhoras existem as Trombas do Pinóquio.



Não. Não houve perguntas sobre como é que os espermatobogotozóide se encontra com o ovário, corrigido, mais tarde, para óvulo pelos dois. Chegarão perguntas, em catadupa, num futuro próximo.

Deixado o M. em casa, percebemos, como seria de esperar, que o crescimento dos petizes coloca perguntas a todos os pais que não são opcionais. De resposta aberta e não de escolha múltipla. Aliás, a parentalidade é uma permanente questão aberta e, nunca, uma pergunta de escolha múltipla.

Pergunta-nos, a mãe, do M., a simpática S., depois de lhe contarmos que existe um Pinóquio mal encarado em todas as mulheres, algures na barriga.

Mãe do M. - Já agora, eles perguntaram mais alguma coisa, além disso, para me preparar?...

Pai da Mariana - Ainda não chegaram à dinâmica da coisa.

Todos (em pensamento) - Uff...

Hoje, ainda, não.

domingo, 26 de novembro de 2017

O que se aprendeu, hoje, com a Mariana... - LXXX

Hoje, cá em casa, acompanhou-se o jogo entre a Académica e o (ler alto) Porto (ler baixinho) B. Jogo interessante, em que a equipa mais interessante das duas conseguiu uma vitória in extremis, no último lance do jogo.

Hoje, cá em casa, sofreu-se a bom sofrer.

A mãe da Mariana saiu de casa, durante o jogo. Algures, pela segunda parte, a Princesa juntou-se ao seu pai, no aconchego do sofá, com a melhor equipa do mundo em vantagem. Foi, a partir daí, o melhor jogo da Académica que vi, fosse qual fosse o resultado.

Entretanto, a mãe da Princesa regressou. Entretanto, o (ler alto) Porto (ler baixinho) B, num tributo à injustiça, empatou o desafio*, levando a um aumento exponencial da tensão que se vivia no sofá cá de casa.

Os ventos da fortuna e da justiça trouxeram o empate, no último sopro do jogo, num lance pleno de abnegação de uma equipa que, hoje, orgulhou.

O pai da Princesa saltou e gritou com a Princesa ao colo ("Pai, estás a magoar as minhas costelas!"), sob o olhar benfazejo da Mãe da Princesa que celebrou o golo com parcimónia. 

Princesa (com um ar de irritação que orgulha qualquer pai) - Mãe! 

De supetão, ergue-se do sofá do sofrimento e dirige-se à mãe que se empoleirava numa mesa para acabar a segunda versão da árvore de Natal (a Mãe da Princesa leva o Natal muito a sério).

Mãe - O que se passa?!

Princesa - Não festejaste o golo como devias! Festejaste menos do que devias! Tens que festejar como nós.

Mal sabia ela que, durante a tarde, a senhora sua mãe tinha instalado uma aplicação no telemóvel para poder acompanhar o jogo que ia decorrendo em casa, onde sofriam, na esperança, dois cérebros temporariamente irracionais.

Hoje aprendeu-se que, por muito difícil que seja a tarefa de educar futebolisticamente uma Princesa, vale a pena o esforço.

Hoje aprendeu-se que, cá por casa, posso dormir descansado, rodeado de pessoas de bom gosto e de bom coração. Ainda que na Segunda Divisão.



* O que levou a um crédito de alguns euros para a Princesa. Cada palavrão vale 50 cêntimos. Sim. Ela não se coíbe de os cobrar, com a agilidade de um cobrador do fraque. Não. Não foi a melhor ideia que tive na vida, dada a incontrolabilidade do vernáculo em jogos de futebol.

sábado, 25 de novembro de 2017

O que se aprendeu, hoje, com a Mariana... - LXXIX

Que a espécie papis babadus aparece, cá em casa, de vez em quando.

Que é demasiado fácil que a Princesa provoque o seu aparecimento.

Que, quando Filipe se transforma em papis babadus, ocorre um estado de insanidade temporária que o impede de ver as coisas como elas são, além daquilo que ele gostava que fosse.

Que os pais são muito pouco resistentes às suas princesas. Mesmo. E que, quando se transformam em papis babadus, são tão manobráveis como um carro com direcção assistida, daqueles bons que têm um botão para que a direcção se torne ainda mais fácil de usar.

Que as mães atentas e competentes usam a cabeça nas alturas certas, sem escorregarem na baba dos seus congéneres parentais.

Que é bom passar por isto tudo.

Que, lá no fundo, a Princesa está a crescer todos os dias e que o esforço de a acompanhar, sem escorregar na baba, existe, dia após dia.


Este relato tem três actos, que compreendem o esplendor da Princesa, o advento do papis babadus e a sua, pouco surpreendente, derrota face à clarividência de uma mãe que, felizmente, está sempre atenta aos pormenores, com a minúcia de uma neurocirurgiã parental.

O pai da Mariana possui poucos talentos. Pentear princesas não é um deles. Digamos que está para essa arte como o Quintino Aires está para o bom senso. Aliás, as tentativas anteriores de pentear a Princesa ou de lhe fazer um tótó na cabeça já levaram a gritos pela mãe para terminar a tarefa, mesmo quando o pai se está a esforçar para levá-la a contento. E, quando a mãe não está, já houve pedidos para que sejam "as senhoras do ATL", a fazer-lhe o tótó, antes da escola. Sim. O pai obedece.

A mãe da Princesa ausentou-se para outra ilha, lá para o Grupo Oriental*, o que levou a que a habitual rotina matinal cá de casa fosse alterada. Sobraram todos os preparativos matinais para uma Princesa e um pai.

Algures pela manhã, aparece uma inusitada pergunta.

Princesa: Pai, podes pentear-me hoje?

Pai: Hmm?! Sim, claro.

Princesa: Pai, sabes uma coisa?

Pai: Sim...

Princesa: Estás a magoar-me um pouco, mas não há problema. Estás a pentear-me muito melhor do que a mãe me penteou ontem.

Pai (em pensamento): Boa, Pai! Finalmente aprendeste a não torturar a garota com a escova.

Princesa: Mas, por favor, deixas-me acabar sozinha... eu já sou grande.

Pai: Claro, claro.

Finalizada a rotina matinal, ala para o carro. Às primeiras curvas, ali algures pelo Bairro de Santa Luzia, a princesa dispara.

Princesa: Ainda bem que não tens ido para fora como a mãe e ficas comigo...

Pai (em pensamento, com o cérebro embebido em baba): Boa, Pai!

Umas valentes horas depois, Filipe conta à Mãe da Princesa os episódios, num misto de surpresa e baba.

Pai da Princesa: Porque achas que ela disse estas coisas?

Mãe da Princesa (em modo reality check): Óbvio. Vai-te pedir alguma coisa, em breve.

Pai da Princesa (em pensamento): Tenho saudades do papis babadus**.


* Para os continentais, quem é que consegue identificar as ilhas do Grupo Oriental dos Açores, sem questionar o Dr. Google?

** Ainda não pediu nada... Sim. É gajo para acontecer. Não. Não volteou a pedir para a pentear.

domingo, 19 de novembro de 2017

O que se aprendeu, hoje, com a Mariana... - LXXVIII

Que, na senda do que foi escrito aqui e aqui, há coisas que estão a mudar.

Que, afinal, as "Marias Rapaz" gostam de andar de saia e botas "fashion".

Que o guarda-roupa de uma "Princesa Maria Rapaz" pode fazer sucesso junto das outras princesas, mormente daquelas que fazem anos.

Que a Princesa tem uma perspicácia e criatividade digna de registo e que a velocidade de raciocínio aumenta à velocidade da luz. Ou de um unicórnio no meio do arco-íris.

Que é difícil acompanhar um unicórnio no meio do arco-íris nos dias mais esquisitos e sombrios. Que, contudo, temos que ser mais rápidos que eles. Se custa...

A Princesa, na lufa-lufa da sua vida social agitada, foi a um aniversário da Princesa M., colega de escola. Com uma estranha resignação, vestiu-se com uma saia e umas botas que tem, onde constam um unicórnio e um arco-íris. Fica linda, numa opinião imparcial.

Deixada pela mãe, coube ao pai ir buscá-la no final da celebração.

A P., mãe da aniversariante, por entre elogios que deixaram o Pai da Mariana orgulhoso, conta que as botas da Mariana fizeram sucesso.

Que, após o jogo de bowling, o unicórnio e o arco-íris voaram de mão em mão, para gáudio das meninas que adoraram a decoração das botas da Princesa. Acrescentou que, enquanto brincavam com as suas botas, uma Princesa descalça lançou a sua tirada do dia:

Princesa - Quem me dera que estivesse aqui a minha mãe... dizia-lhe "hashtag: mãe elas levaram as minhas botas"!


Priceless.

Sim. As botas vieram com ela.

O que se aprendeu, hoje, com a Mariana... - LXXVII

Por estas semanas enfrentámos, cá em casa, um pequeno tumulto com dois inimigos muito bem identificados para a Princesa: a saia e o vestido. A Princesa tem muito orgulho no seu estatuto de Maria Rapaz e defende-o com unhas e dentes. Ou, no caso vertente, com calças de ganga e calças de fato-de-treino.

Procurou-se, com sucesso limitado, alargar o guarda-roupa da Princesa. O tumulto aumentou de tom, fazendo com que a oposição a Robert Mugabe no Zimbabué pareça um conjunto de meninos. Muito novos e inofensivos.

Pelo caminho, a insistência, persistência e paciência, com muito pouca ciência, dos seus pais compensou. Nas últimas semanas, a vergonha tem levado uma coça e a Princesa vai percebendo que pode ser uma Maria Rapaz de saia. Ou de vestido.

Um destes dias, num daqueles momentos de conversa que o quotidiano faz esquecer, surgiu mais uma das pérolas da Princesa (que estes escritos ajudam a não esquecer...).

Mariana - Tu gostas de unicórnios?

Pai de Mariana - Sim. Sabes quem é que gosta muito de unicórnios e fadas?

Mariana - Não.

Pai de Mariana - A mãe. Ela gosta de tudo o que tem a ver com fantasia.

Mariana - Sabes, pai... *.

Pai de Mariana - Sim.

Mariana - Eu até gosto um bocadinho de fadas e princesas... (pausa introspectiva) ...eu não sei o que se passa... acho que estou a mudar!

Aprendeu-se com a Mariana que as Marias-Rapaz deste mundo podem gostar de "coisas de menina". E que a plasticidade e volatilidade de uma Princesa de 7 anos tem tanto de belo, como, admitamos, de assustador, exigindo muito dos progenitores. Mais ainda. Venha esse desafio.

* Há uns tempos, a Princesa disse ao seu progenitor "Já tenho sete anos, papá. A partir de agora vou chamar-te só pai". Tem cumprido. (Porra.)

sábado, 18 de novembro de 2017

Lugares esquecidos: Hospital de Angra do Heroísmo

A memória em ruína num hospital abandonado (há tempo demais) em plena cidade Património.

Uma ferida na cidade mais bonita dos Açores, infectada sem antibiótico à vista.

Um abandono que dói a todos aqueles cujas memórias também passam por ali.




O que se aprendeu, hoje, com a Mariana... - LXXVI

Que a sua avó materna tem, mesmo, sempre razão.

Que quando Filipe era petiz e ouvia "quando chegares cá, e fores pai, vais ver" a avó da Mariana tinha toda a razão.

Que quando Filipe não conseguia entender a estranheza com que os pais lidavam com os jogos de computador, consolas e afins, isso só era uma expressão da sua imaturidade. Ainda que o seu pai fosse um craque num jogo chamado Duck Hunt... E, diga-se, o avô da Mariana não se safava mal no Tetris.

Que há saltos que se dão sempre, quando alguém cresce. Que há saltos que quem já cresceu muito, não consegue acompanhar. Por muito que queiram.

A princesa descobriu o Youtube. Aos sete anos o esforço dos pais é uma formiga ao pé de dezenas de pares da princesa na escola e ATL.

A princesa, para desgosto do seu pai descobriu os youtubers. Para desgosto ainda maior, descobriu só os brasileiros. Sem desprimor para os nativos do país de terras de Vera Cruz, são ainda mais chatos.

Filipe não consegue entender aquilo. Filipe não consegue lidar com a sua princesa a falar em brasileiro, numa cadência compassada, aos soluções, entre uma overdose de onomatopeias ao mínimo movimento de uma personagem do Minecraft ou do Roblox. Filipe tenta imitar. A princesa diz que não é parecido. E não é.

A princesa teve um novo gato, a Alice. Pequenina, mexida, curiosa e perspicaz. Como a princesa.

Antes de o receber, Filipe pergunta cheio de medo da resposta, naquela estupidez típica dos pais, se a Princesa prefere brincar com um gatinho novo cá em casa ou ver vídeos de youtubers. Princesa responde que prefere o gatinho. Filipe respira. Acrescenta que prefere as duas coisas. Filipe inspira e inicia a marcha para a hiperventilação. Mas que o gatinho era bem melhor e que os vídeos são menos importantes. Filipe respira, outra vez. Faz-se silêncio a seguir. Filipe tranquiliza-se.

Até à próxima vez em que tem que dar razão à senhora sua mãe. Quando estamos do lado de lá, há coisas que são difíceis de entender.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

O que se aprendeu, hoje, com a Mariana - LXXV

Que há coisas que, de tão simples, não são detectadas pelo olhar chato de um adulto.

Que há um radar impressivo e preciso no olhar de uma princesa de sete anos.

Que o simples distrito de nascimento de uma pessoa, pode ser o tesouro de outra.

Que a princesa, no fundo, é uma grande apoiante da Autonomia dos Açores. Mesmo que não saiba.


A princesa, apesar de crescer no meio do Atlântico, foi nascer à mais bela cidade do mundo, numa decisão tomada pelos seus pais. Só podia.

Na habitual, e saborosa, conversa de final de dia, faz-se o balanço do dia-a-dia, em que os pais, por muito que se inove, repetem a mesma questão.

Pai de Mariana - Como foi o dia hoje, na escola?

Mariana - Bom. *

Pai de Mariana - E aconteceu alguma coisa nova? Houve alguma coisa boa no teu dia?

Mariana (com um sorriso vitorioso) - Sou a única que tem distrito da turma! Sou de Sé Nova, distrito de Coimbra! Mais ninguém tem distrito na turma só eu.**

Resultado de imagem para distrito coimbra

* Resposta habitual da princesa. "Mais ou menos" ou "como é habitual" ficariam no pódio, para sadio desespero dos seus pais.

** Nota de rodapé dedicada aos continentais: nos Açores e Madeira, desde 1975, deixaram de existir distritos, aquando dos primórdios do modelo autonómico insular.

sábado, 3 de setembro de 2016

sábado, 27 de agosto de 2016

Sai (mais) uma medalha de lata para Portugal nos Jogos Olímpicos!

Ouro, prata e bronze. Metais preciosos que premeiam aqueles que ocupam os três primeiros lugares do pódio nas Olímpiadas, de quatro em quatro anos. O bulicio competitivo, a exigência técnica crescente, a gestão emocional da maior das competições tornam, a cada quatro anos, imprevisível a atribuição das três medalhas nas diferentes competições. O que, no fundo, torna (ainda) mais atractivos os Jogos onde o espírito olímpico se exponencia e ganha significado. Já a medalha de lata é tão previsível como a vitória de Usain Bolt, numa corrida do hectómetro, contra qualquer um que leia estas linhas ou que as tenha escrito.
A medalha de lata é para nós, enquanto povo que acompanha (?) os Jogos Olímpicos. Para nós, enquanto povo que, tal como um interruptor, activa a sua suposta cultura desportiva de quatro em quatro anos, não conseguindo disfarçar a ausência da mesma e de deixar de assumir uma ignorância atrevida que se traduz numa exigência cega e num gatilho fácil para opiniões e para teclados hiperactivos.
Mais alto, mais longe, mais forte. É o lema. Devíamos acrescentar “mais justos, mais humildes”, no nosso caso. Mais alto, mais longe, mais forte, mais justos, mais humildes. A ausência de medalhas não traduz a qualidade dos atletas, de forma pura e simples. Traduz a ausência de uma cultura e de uma política desportiva coerente, perene no tempo e que resista a ciclos políticos e devaneios passageiros. E que requer, diga-se, investimento financeiro e, acima de tudo, pensamento estratégico.
Pensemos. A relação com o fenómeno desportivo, nas suas diversas dimensões, que existe no nosso país prima por demasiadas lacunas. A Educação Física (que continua a ser tratada por muitos, de forma redutora, por “aulas de ginástica”…) é vista, normalmente, como um peso no currículo dos alunos, um mal necessário. O Desporto Escolar, a minha escola do desporto, é uma aposta adiada, ainda que me pareça que, na Região, marcamos pontos neste domínio.
Há, em muitos e muitas, uma sobranceria incompreensível em relação ao desporto, como se constituísse uma expressão de segunda categoria face a outras. Sim, muitos destes permitem-se descer do patamar do preconceito e da arrogância para ver os Jogos, fazer partilhas nas redes sociais sobre os desportos tidos como válidos ou socialmente mais valorizados e tornarem-se pseudo-especialistas em desporto. Para, após essa extraordinária metamorfose, e a partir do último instante da cerimónia de encerramento, iniciar uma hibernação e reactivar o arsenal de comentários depreciativos em relação a tudo o que se relacionar com o desporto, nos quatro anos seguintes. Claro. Excepção feita a quando se ganha. Ou o clube de futebol ou a selecção, que só se acompanham quando as vitórias são iminentes.
Confundimos, demasiadas vezes o desporto, enquanto escola de valores e ideais, com o reducionismo do futebol. Mesmo no futebol a relação é, fundamentalmente, com o clube, não com o desporto. Aliás, num país que gira em torno de três eucaliptos, o fenómeno desportivo é, tantas vezes, prostituído pela ânsia de ganhar, de substituir as agruras do quotidiano pela fugaz alegria da vitória. Estádios minimamente cheios quando há vitórias, vazios quando não as há. Estádios, quase sempre, vazios nos clubes mais pequenos, mesmo aqueles dos clubes locais. Cá na terra, por exemplo, quantas pessoas que marcaram presença no Angrense-FC Porto, para a Taça de Portugal, compareceram no jogo seguinte, no Municipal de Angra? Eu, que lá fui, confirmo que poucas. Muito poucas.
Não percebemos os valores inerentes ao desporto, nem a forma como o desporto de alta competição funciona. Tendemos a achar, com a nossa medalha de lata bem lustrosa ao peito, que as medalhas que ganhamos traduzem o desporto nacional. Errado. Dependemos de foras-de-série que, num país diferente, atingiriam um patamar estratosférico ou que, em muitos casos, treinam ou já treinaram em paises estrangeiros (João Sousa, em Barcelona, ou Patrícia Mamona, nos Estados Unidos, por exemplo). Não percebemos que o desporto é uma escola de valores, onde se exponenciam o trabalho, a dedicação, a perseverança, a aprendizagem da frustração, da sã competição, do respeito pelo outro ou da coragem (e não são estes muitos dos valores que queremos educar aos nossos filhos e filhas?...). Não levamos os miúdos a competições desportivas e, muitos, não os acompanhamos nos treinos, nem comparecemos nos momentos competitivos.
Não percebemos, ou nem sequer sabemos ou queremos saber, o que implica o desporto de alta competição, nos dias de hoje. Não sabemos o investimento que existe no fenómeno desportivo nos outros países, achando que devemos ter o mesmo número de medalhas que países de igual ou menor dimensão. Não percebemos que, nos Jogos Olímpicos não se comparam, unicamente, resultados mas, fundamentalmente, processos.
Portugal investirá, no ciclo 2013-2017, um total de 17,7 milhões de euros para todas modalidades e 4,55 milhões de euros para o ano de 2016. Repito para todas as modalidades e para todos os atletas, aqueles que se qualificam e aqueles que não logram a qualificação. A Irlanda, país mais pequeno que nós, investe perto de 40 milhões em quatro anos. Planeou investir 10 milhões de euros por medalha olímpica. Uma ninharia se pensarmos que, por medalha olímpica, a China investe 40 milhões de euros e que, no Reino Unido, um ciclo olímpico implica um investimento de mais de 400 milhões de euros. Resumindo, o investimento numa única modalidade, em muitos países, supera o nosso investimento global. O desporto olímpico é feito de ciclos de quatros anos; já a evolução dos atletas decorre durante décadas, numa maratona de sucessos, obstáculos e pormenores, não numa corrida de 100 metros de duas semanas.
Criticamos os atletas pelo facto de não nos colocarem no topo do medalheiro ou por se “queixarem” das condições que não têm, na sua preparação olímpica. Fazemo-lo, contudo, quando, por vezes, só trabalhamos nas condições ideais ou recusamos desafios pessoais e profissionais, não sabendo lidar com o risco que as mesmas implicam. Criticamos. Exigimos. Lustramos a nossa medalha de lata.
Quantos frequentaram uma competição desportiva, sem ser um jogo de futebol, nos últimos quatro anos? Quantos procuraram um atestado para dispensar os filhos da Educação Física, quando, lá bem no fundo, não há uma razão válida para isso? Quantos acompanharam os clubes locais, seja em que modalidade for? Quantos, sequer, conhecem os jogadores de futebol dos seus clubes ou viram um jogo completo nos últimos quatro anos? Quantos conhecem um herói, sem medalhas ao peito, chamado João Rodrigues, o nosso recordista de Olímpiadas?
Revi-me nos diplomas olímpicos (sim, nos Jogos Olímpicos distribuem-se medalhas de ouro, prata e bronze, ganham-se medalhas de lata e asseguram-se diplomas olímpicos) conquistados, vibrei com a medalha de Telma Monteiro (umas das foras de série que, atrás, referi), acompanhei o esforço dos maratonistas na cauda do pelotão e daqueles que participaram com as nossas cores ao peito. Não ganhar medalhas não é motivo para não lhes agradecer.
Agradeço a todos, à falta de razão concreta para não o fazer. Agradeço por fazerem parte dos melhores do mundo naquilo que fazem, honraria que nunca na minha vida terei nas coisas que, profissionalmente, faço. Agradeço por representarem o meu país, mesmo quando partem para a competição sabendo que o fazem de um ponto de partida mais distante que a grande maioria dos restantes competidores.
Sonho, um dia, em que participamos em quase todas as modalidades, conquistando uma ou outra medalha e dezenas de diplomas olímpicos. Preferia isso, traduziria isso um crescimento na cultura desportiva do país, do que a existência de meia dúzia de foras de série que garantissem medalhas. Essas viriam por acréscimo, no futuro. Essa entidade longínqua pela qual, em tudo e também no desporto, nos recusamos a saber esperar.
Daqui a quatro anos, estaremos em Tóquio. Espero que sem a medalha de lata que, hoje, nos pesa no peito.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Lugares esquecidos: Farol da Ponta dos Rosais, Ilha de São Jorge

O Farol da Ponta dos Rosais, localizado na Ilha de São Jorge, foi inaugurado no primeiro dia de Maio de 1958, sendo na altura considerado como o melhor e tecnologicamente mais avançado estrutura faroleira nacional, aspecto que me já me tinha sido confidenciado pela M.J., simpática colega que, em tempos, já residiu. O projecto inicial foi da autoria de João Lobo Fialho.

Este farol distinguia-se, igualmente, pela sua auto-suficiência de energia e água, dada a distância da povoação mais próxima (Rosais)

Em 1964 foi temporariamente abandonado pelos seus habitantes aquando da crise sísmica dos Rosais e da erupção submarina que então ocorreu nas suas proximidades. Passada a crise, permaneceu habitado até 1 de Janeiro de 1980, sendo então definitivamente evacuado na sequência dos desabamentos de falésias provocados pelo terramoto de 1980 que, igualmente, fustigou a Terceira (provocando danos irreparáveis no Farol da Serreta). Passou a funcionar automaticamente após aquela data, deixando de emitir os seus relâmpagos por intervenção directa do homem em 5 de Julho de 1982. Em substituição do possante farol, no cimo da torre foi instalado um pequeno farolim alimentado a energia solar.

Na primeira foto é possível ver o Farol, e instalações de apoio, em altura de funcionamento pleno. Nas restantes o estado actual que, no fundo, traduz o abandono a que foi votado, apesar de ser um Sítio de Interesse Comunitário, atestado em Directiva Europeia. E de, no fundo, encerrar em si uma parte importante do espólio faroleiro português e açoriano. 












Vista do caminho que conduz ao Farol dos Rosais.

 

Um farol abandonado devia ser algo proibido. O simbolismo especial e bonito do Farol não se compadece com o abandono, ainda que se compadeça com o rigor frio das folhas de excel, com o insensível teclar da calculadora ou com o arrastar das esferas do ábaco. Um farol é, sem dúvida, uma das construções mais bonitas, simbolicamente ricas que existem. A luz, a orientação que fornece, o feixe de vida que abre na escuridão colorido de esperança. Ainda assim, mesmo abandonado, um farol é sempre bonito. A esperança nunca poderá estar em ruínas. 

Fontes: 
https://pt.wikipedia.org/wiki/Farol_da_Ponta_dos_Rosais; 
http://www.amn.pt/DF/Paginas/FaroldosRosais.aspx; 
http://atlanticofarois.blogspot.pt/2012/09/construcao-do-farol-dos-rosais.html;