terça-feira, 1 de maio de 2018

XXVIII Meia Maratona dos Bravos: Missão comprida ou cumprida?

Faz hoje dois anos que fui acompanhar o N. na primeira vez que fez a Meia Maratona dos Bravos. Sendo uma das pessoas que muito prezo como amigo, e sendo alguém que muito admiro pela sua tenacidade e perseverança, muito me orgulhou a sua participação, numa expressão daquele sentimento bom que nos invade quando ficamos contentes por alguém. Nessa altura, achava que estaria distante o dia em que faria uma meia maratona. A ideia de correr mais de dois ou três quilómetros seguidos, sem altos e baixos, tinha o seu quê de inverosímil. No fundo, a perpetuação de uma "carreira" desportiva medíocre, à parte uns anos de voleibol com relativo sucesso.

Faz hoje um ano que enfiei na cabeça que faria a Meia Maratona dos Bravos, após ter feito a Caminhada dos Bravos (com alguma dificuldade no final, admita-se, um ano depois). No ano que fiz a caminhada, aprendi a admirar todos que iam passando, uns devorando metros, outros degustando com paciência cada centímetro. Decidi, pelo caminho, que no ano seguinte lá estaria. Sem certezas no que me estava a meter. Continuava, nessa altura, a nunca ter corrido mais de sete quilómetros seguidos.

Dando sentido ao conceito de procrastinação, fui treinando qb. O trabalho não ajuda, admita-se. Mas, sem dúvida, podia ter feito mais. O N., que se foi convertendo no meu mestre, ia dando dicas. Não as ter seguido todas foi o meu pecado. Uma delas, numa frase simples, ficou e fez a diferença: "Se quiseres ganhar resistência, tens que correr mais, nem que seja num ritmo mais baixo". Filipe encaixou e, no Sábado seguinte, passou os dez quilómetros, algures em Outubro, deixando de correr, a partir daí, para a aplicação do telemóvel. Passou a correr para si. Por si.

E, ainda que com défice de treino, as coisas foram acontecendo. Tempos a melhorar, distâncias a aumentar e a auto-eficácia a aumentar. Pelo caminho, ia partilhando no Facebook as corridas e partilhava com toda a gente o meu objectivo: "Em Maio, vou fazer a Meia Maratona!". Vaidade? Não. Criar um compromisso e obrigar-me a não falhar as expectativas que criei. Funcionou.

Em Fevereiro, no Dia dos Namorados, e pela primeira vez, passei a barreira dos vinte quilómetros, num tempo que nunca pensei ser possível. E, diga-se, um orgulho que começava a aparecer, fruto da consciência do trabalho que foi sendo feito.

Aproximou-se o dia. Filipe fica doente, o trabalho aumenta e o treino começou a falhar. O excesso de confiança, outro inimigo, teve uma ou outra vitória, admita-se. "Está a chover... hoje não corro!" Clássico...

Chega o dia. 1 de Maio de 2018. O dia em que procuraria cumprir o compromisso que estabeleci um ano antes.

Aquecimento. Gente a aquecer a um ritmo que nunca atingirei na vida, digo à simpática A., que me acompanha até à meta. Explica-me uma série de procedimentos de preparação de outros participantes. Levar um gel qualquer, pelos vistos, ajuda. Vejo o P. F. com a sua banana e percebo que me esqueci de trazer tal fruto para a partida. Era essa a minha preparação e consegui falhar.

Gente à partida. Muita gente. Coloco-me no final do pelotão, sabendo que esse seria o meu lugar até São Mateus. Como sempre, além do objectivo de terminar, o principal, levava um tempo na mente. Leva-se sempre, mesmo que não se admita. Nem sequer era ambicioso. Simplesmente, melhorar ligeiramente o que tinha feito, quando fiz o percurso da prova no dia 25 de Abril, depois de ter corrido a um ritmo, para mim, fantástico mais dez quilómetros, a 23 de Abril. O N., diligentemente, percebendo a burrice, enviou logo uma sms com recomendações. Seguidas à risca, nomeadamente no evitar correr muito. Ao não correr puto, desde aí, cumpri...

Buzina. Arranca-se, quando ainda estava a preparar o telemóvel com a aplicação que fez o favor de dar os tempos errados ao longo da prova e de aumentar a prova em mais de um quilómetro. Vamos! Ritmo tranquilo. Palavras de apoio que sabem bem de quem devora a estrada, enquanto nós ainda estamos a pôr a mesa.

Enfrentar os primeiros quilómetros, aqueles que mais temia. Ao sair da Serreta, mais sofrimento que esperava, mesmo a um ritmo tranquilo. E dores. Correr com tantas dores, nunca me tinha acontecido. Algures na descida entre a Serreta e as Doze, dores aumentam. Luzes vermelhas por todo o lado. "E se desistes?". Mais à frente, algures pelos sete quilómetros, as luzes vermelhas foram substituídas por um ensurdecedor "Deixa isto! Desiste! Como é que vais aguentar até final com dores?!". Procurar uma posição para o pé mais confortável. "Hei-de chegar, nem que seja a passo". Tento o passo, para recuperar. Mais dores a passo, do que a correr. Siga. Recuperar nas descidas deixou de ser opção. As dores eram maiores e a aplicação lá ia dizendo que o tempo médio por quilómetro deixava muito a desejar.

Correr sozinho tanto tempo, sabendo que ficaremos em último, ou perto disso, e que acabamos de perder a hipótese de cumprir o tempo almejado, é um desafio. Sobretudo mental. Enfrentá-lo é a solução. "Se acabares, já estás de parabéns!". Acedemos ao estímulo, mas, no fundo, as palavras não ressoam como deveriam, proporcionais à bondade de quem as emite.

Passa por mim, o Senhor Pamplona, um jovem e um exemplo. Poucas foram as pessoas que, estando a ver a prova, não foram presenteadas por ele com uma palavra ou uma graça. "Estava há que tempos a ver se o apanhava". Respondo "a partir de agora, sou é que nunca mais o apanho!". Como se sabia, tal foi o que aconteceu.

"Desiste!" Lá ia aparecendo o pensamento, naquilo que o J. M., num belo texto que li algures pelo Facebook, chamou de Gasparzinho. Dores misturadas com a frustração de não conseguir, de forma alguma, cumprir o tempo que queria e, no fundo, estar condenado a um desempenho medíocre. "Hei-de chegar! (pleno de determinação) Será que sou o último? (pleno de cagufo)". Ninguém gosta de chegar em último, admita-se. E, garanto, eu, que nunca passei de penúltimo nas provas de corrida que entrei. Sabemos ao que vamos, mas...

Pelas Cinco Ribeiras, ali pela Tasca do Dinis, cheiro a galinha frita. Misto de fome e de arrependimento por toda a galinha frita e afins que não recusei nos últimos meses. Oito quilos a mais em relação ao tinha definido. Já falei de excesso de confiança, certo?

Na descida em São Bartolomeu, paragem técnica. Tentar ajeitar a sapatilha para suportar as dores. Misto de frustração e arrependimento por não ter comprado sapatilhas melhores. As dicas do N. nunca falham.

Siga. A nossa dimensão mental é extraordinária, quando queremos. A superação é uma capacidade que, por vezes, nos esquecemos que temos. Siga. Está quase. (Porra, nunca mais chega a placa dos 17,5 km...).

A senhora brasileira da aplicação vai dando nota das misérias. Frustração misturada com irritação. Logo hoje, tinha que correr com dores! Siga, Filipe. Está quase. Está o caraças!, responde a mesma pessoa alta e de barba.

Chanoca. Negrito. Nova paragem técnica. Ajeitar a sapatilha e ver se dói menos. Ao fundo, as subidas finais de São Mateus. À frente, há quem já não corra, só caminhe. Assomo de Homem de Neanderthal: "Nem penses que vais subir para a Igreja a passo, ouviste?!". Resposta de homem crescido: "Vou, vou. Mereço isso." Boa escolha.

Placa dos 20 km. Que se lixem as dores. Orgulho em não ter desistido. Vamos buscar os tipos da frente. Já está. Primeira paragem de autocarro à direita passada, ao pé do Bravio. Já vejo a segunda lá ao fundo. Vejo, à entrada do campo, a Célia e a Mariana, que corre para me acompanhar. "Força, pai!". Que se lixem as dores físicas. Entram as dores de alma. "Que vergonha para a tua filha chegares quase em último".

Entrada no Campo de Jogos. Pessoas a receberem medalhas nos pódios, enquando recebo a melhor medalha que podia haver, aquela que mitiga qualquer dor de alma. "Para mim, é como se tivesses chegado em primeiro", diz a Mariana, enquanto tento acelerar até final. Desaparecem as dores de alma. O N. bate palmas. Espero não o ter desiludido.



Meta à vista. Acelero, qual caracol hiperactivo. Terminou. Dói-me tudo. Digo uma asneira. Aparece quem me coloque uma medalha de participação. Dão-me os parabéns que sinto que não mereço, pela miséria de tempo que fiz e por não ter conseguido atingir os meus objectivos. Cumprimento o senhor que consegui ultrapassar que chega algum tempo depois de mim. Foi, sem saber, um companheiro durante vinte quilómetros, até o passar.


Tiro a sapatilha, após coxear. Olho para o pé inchado, massajo-o e ouço as palavras de estímulo da Célia. E dou por mim a pensar qual é o objectivo desta coisa de correr, pelo menos para mim (mas desconfio que não serei o único). Não é pelo pódio. Esse é só para para alguns e nunca será para mim. Um tipo que começa a correr a sério, em Outubro do ano passado, não pode almejar pódios ou marcas. É pela superação. Pela forma como aprendemos coisas, ao correr, que aplicamos no quotidiano. Mais um quilómetro. Mais rápido. Aguentar as dores. Não desistir quando era isso que seria mais fácil fazer.

Saio do estádio com as duas medalhas ao peito. A de participação e aquela da expressão do orgulho da Mariana, certo que as mereci. Não pela marca, muito menos pela posição que nem sei qual é. Segundo ou terceiro, a contar do fim. Mereci porque me superei, porque não sucumbi ao Gasparzinho durante dois terços da prova e porque cumpri o que tinha prometido. Fiz a minha primeira Meia Maratona e corri mais do que algum dia tinha corrido na vida. Superei-me. Missão muito mais comprida do que esperava. Missão, também, cumprida.

Até para o ano.

domingo, 29 de abril de 2018

O que se aprendeu, hoje, com a Mariana... - C

A Mariana tem a sorte de ter muitos tias e tios. A natureza, e o amor dos seus avós, deu-lhe alguns, a vida multiplicou esse número por vários algarismos.

Aqui pela Terceira, dando sentido ao verdadeiro significado da palavra família, tem encontrado tios e tias de muita qualidade. A A. é uma delas, daquelas que, quase desde o primeiro momento da nossa saga insular, se constituiu como figura de referência, como alicerce, simplesmente sendo quem é. Não é para todos.

Esta história passa-se à saída da casa da A.. Nas imediações da casa está uma placa na parece que homenageia um dos seus familiares, numa iniciativa da Junta de Freguesia.

Mariana - O que é aquilo?

A. - É uma placa sobre o meu tio.

Mariana - Porque é que fizeram isso?

A. - As pessoas gostavam dele. Houve muita gente que ele ajudou e havia muita gente que gostava dele. Por causa disso, fizeram esta homenagem.

Mariana - Há muitas pessoas que fazem coisas boas e não têm nada disso.

Disse-nos, depois a A., que, em tantos adultos que já tinham visto a placa, ninguém a tinha comentado com tamanho acerto.

Aprendeu-se que há mais vida além daquilo que é aparente.

Que há quem seja justamente homenageado e quem passe uma vida inteira sem o devido reconhecimento.

Que uma Princesa de oito anos pode ter uma escala de valores melhor definida que muitos adultos.

Que há coisas (aparentemente) pequeninas que orgulham pais e tias.


Que, não havendo placa cá em casa, há outras formas de salientar as coisas que importam. Este ciclo de 100 textos, que hoje encerro, é a minha forma de assinalar, para memória futura, muito daquilo que uma Princesa pode encerrar dentro de si e que a parentalidade implica.

Que é, mesmo, verdade que quem faz um cesto, faz um cento. Ainda bem.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

O que se aprendeu, hoje, com a Mariana... - XCIX

Que uma pequena de oito anos consegue dar lições a grande parte daqueles que nos representam na casa da democracia, mesmo sem saber o que é um subsídio de insularidade, uma ajuda de custo ou a diferença entre "morada habitual" e "morada exclusiva".

Que uma Princesa de oito anos consegue definir conceitos complicados melhor do que muitas pessoas experientes e experimentadas.

Que, no fundo, a Mariana podia ser Presidente do Governo Regional dos Açores uma porrada de anos.

Que uma resposta simples pode conter mais Abril do que um discurso complexo ou uma declaração aos jornalistas de um alto representante da Nação.

Pai de Mariana (farto de ouvir a palavra transparência na rádio e na televisão) - Mariana, o que quer dizer quando dizemos que uma coisa é transparente?

Mariana - Significa que podemos ver através dessa coisa. Ver o que está do outro lado.

Simples. Devia ser simples.

Pena é que, nos últimos tempos, tenhamos percebido que, ao contrário da definição cristalina da Mariana, tantos e tantas oscilam entre a opacidade da transparência e confusão entre transparência e invisibilidade. Aquilo que é transparente é visível. Tal como a chico-espertice.

25 de Abril (sempre) na data marcada...

25 de Abril. Cravos na lapela. Cravos no púlpito. Cravos na mão, cravos na rua. A horas certas, como dizia o José Mário Branco. Assembleia da República engalanada. As datas lembradas são assim. Impõem-se à memória, ganhando vida própria. Precisamos de esquemas automáticos para organizarmos a informação. Automatizamos lembranças, tornando-as menos conscientes ainda que mais presentes. A memória tem limites. Nós temos limites. A liberdade, não os pode ter.

Lembramos a data, pouco lembramos a liberdade. A conquista. O avanço. A saída das trevas. 25 de Abril sempre. Diz-se nesta data lembrada.

Ouço na rádio, enquanto corro hoje, os discursos na Assembleia da República, na sessão comemorativa. Ouço na rádio as palmas que ecoam pelo hemiciclo. Ouço na TSF a jornalista que descreve o que vê, na casa da democracia, "alguns deputados batem palmas, outros olham à volta a perceber se devem bater palmas". 25 de Abril sempre, pela enésima vez, logo a seguir. A realidade é madrasta às utopias. Cravos impecavelmente na lapela, no púlpito. Fala-se de transparência. De dignidade. De continuar (?) as conquistas de Abril. Daquilo que, sabemos todos, até eles, pouco se pratica.

Diz o povo, aquele que sabe o significado de Abril, que é mais fácil falar, do que fazer. Tem razão. Nos dias normais, mas também nas datas lembradas. Ouço a segunda figura do Estado, assertivamente, vociferar contra qualquer ofensa a quem nos representa. Ouço palmas. Maiores que aquelas que ouvi nos discursos. Ouço gente eticamente irrepreensível, e que se afirma moralmente impoluta, uns das ilhas, outros dos arrabaldes da capital, outros de Lisboa (onde moram quase todos), proclamar valores. Hoje valores de determinado tipo, amanhã de outro.

Fico triste, conjugando dores de alma com as dores nas pernas que sinto, ao passar por Santa Bárbara vindo da Serreta. Lembro Salgueiro Maia. Lembro Melo Antunes. Lembro Zeca. Lembro José Mário Branco. Lembro os Capitães de Abril. Já poucos lembram o que devia ser lembrado, além da dita data lembrada. 25 de Abril sempre? Não, perdoem. 25 de Abril pouco. 25 de Abril (sempre) na data marcada. Que o fosse sempre. Que o seja sempre. Que o façamos sempre.

Hoje, entre a descrição das selfies ridículas na Assembleia e de uma grandolada desafinada (em que nem sequer todos sabiam a letra...), cantada só por alguns, pouco houve 25 de Abril. E, caraças, como o cravo é bonito. Todos os dias. Na mão, no coração, na memória. Na lapela e no púlpito, estou farto. Calculo que não seja o único.

Bom feriado e que, quem como eu tem filhos, ganhe um pouco do dia a ensinar Abril. Aí sim, o feriado fará sentido.

25 de Abril só na data marcada? Nunca mais.


Imagem retirada de http://ardemares.blogspot.pt/2012/02/e-se-eles-tivessem-quebrado-o-vidro.html

sábado, 21 de abril de 2018

O que se aprendeu, hoje, com a Mariana... - XCVIII

Que as palavras que ofendem os adultos podem ser bastante elogiosas quando ditas pela boca de quem tem oito anos.

Que os adultos conseguem ser uns chatos, que se tornam ainda mais quando não percebem que precisam de deixar de ser chatos, nem que seja por um bocadinho.

Que, na parentalidade, a criatividade e o pensamento rápido são sempre bons recursos que o bulício do quotidiano e a quadratura da mente adulta nem sempre permitem que apareça.

Que há momentos em que ficamos orgulhosos dos pais que estamos a conseguir ser, mesmo conscientes de erros que cometemos e de dias em que a tal quadratura mental é mais forte que nós.

Um destes dias, a Princesa, a propósito do Dia do Pai, teve que fazer prendas para o seu progenitor, naquele momento anual espectacular em que recebemos coisas feitas para nós que não são compradas, nem feitas num qualquer país oriental. Na prenda da escola, foi pedido à Princesa que retratasse o pai em seis adjectivos, um por cada letra do seu nome. Psilipe tem sete letras, pelo que foi com base na palavra que retrata um amigo dos cavalos, Filipe.

Entre feliz, inteligente, lindo, e outra que agora não me ocorre,  lá apareceu Pateta e Infantil.




Inicialmente, o pai da Mariana achou esquisito. Um segundo depois gostou daquilo que leu. E gostou ainda mais quando lhe foi explicado as razões da escolha das palavras, percebendo que há coisas que a Princesa valoriza muito em si e que o singularizam perante outros pais que a Mariana conhece.

Uns dias depois, fechou-se mais um círculo da parentalidade. Aos oito anos da Princesa começam a surgir uns assomos irascíveis de individualidade que se transfiguram numa dificuldade em lidar com a crítica e com as brincadeiras que, como se compreenderá, nem sempre agradam aos seus pais.

O seu pai brincou com ela, durante a manhã, sem que a Princesa tenha achado particular piada, gerando uma reacção que não agradou a ninguém. Nada do outro mundo mas aquele tipo de reacções que, quando começam a aparecer, convém cortar pela raíz.

Pai da Mariana (num lampejo de perspicácia e com uma calma olímpica) - Muito bem, Mariana. A partir de agora vou ser um pai sério (começa a montar a maior cara de poker da história da parentalidade) e vou lidar contigo como um pai sério.

Mariana (do alto da consciência da sua suposta auto-suficiência e da , apesar de tudo, desejável desejo de contrapor) - Por mim, tudo bem.

Acabam os preparativos de início de dia, sai-se de casa, entra-se no carro e inicia-se o curto trajecto até à escola (sim, quem vive na Terceira pode viver a dois minutos da escola dos pequenos e cinco do trabalho). O pai, que tem o condão de conseguir ser pateta e infantil, continua sério, com um tom de voz que justificaria um lugar na Olimpo da formalidade.

Mariana - Pai, volta a ser tu.

Pai da Mariana - Nem pensar. Eu sou um pai sério.

Mariana - Pai, volta a brincar. Não sejas assim. Eu tenho mais cuidado com aquilo que digo.

E lá voltou o pai da Mariana à sua normalidade. Quer-se acreditar que a mensagem passou de uma forma melhor do que passaria com menos criatividade. Quer-se acreditar que, qual foice, se cortou o mal pela raíz.

E, sim, é bem melhor condimentar a parentalidade com alguma patetice, permitindo que os papéis possam oscilar, sem receios que isso mine a nossa autoridade.

Se a estratégia foi repetida? Sim. Se tem funcionado? Oh yeah!

domingo, 15 de abril de 2018

O que se aprendeu, hoje, com a Mariana... - XCVII

Que a piada de algumas coisas tem prazo de validade.

Que a contagem decrescente associada a esse prazo de validade vai-se fazendo. Lentamente para a Princesa. À velocidade da luz, para o senhor seu pai.

Que é difícil de derrotar aquela esperança vã que temos, quando fazemos perguntas com resposta mais do que óbvia, esperando uma resposta diferente daquela que sabemos ser a verdadeira.

Que os pais estão para esta esperança como o Bruno de Carvalho está para o Facebook. Sabemos que não nos devemos agarrar a ela, mas é mais forte do que nós.


A Princesa foi, pela primeira vez, convocada para uma competição de karaté fora da nossa Ilha, uma espécie de corolário para o esforço que tem feito e para a qualidade que tem conseguido atingir. No fundo, foi um bom reforço para uma pequena karateca de oito anos.

Lá foram os pais a acompanhá-la, aproveitando para ajudar a cuidar de uma série de miúdos que foram ao campeonato, num esforço que muito gozo lhes deu. Lidar com miúdos fantásticos, num clube que é uma família, é um mimo.

Primeiro dia de campeonato. Competição, emoções e medalhas para quem as conseguiu obter. Camaradagem e amizade para todos. Orgulho em todos.

À chegada, pela residencial onde ficou a comitiva, os atletas foram-se distribuindo pelos quartos uns dos outros. Não necessariamente pelos seus, num rebuliço de miúdos entre os oito e os doze anos, entre brincadeiras, risos e correrias.

Lá pelo meio, a Princesa desaparece e reaparece, passado algum tempo.

Pai da Mariana - Onde é que tu andas?

Mariana - Vim buscar os meus bonecos e vou brincar para o quarto do T., com os meus amigos.

Pai da Mariana - E estás a fazer disparates?

Mariana - Eu? Claro que não.

Pai da Mariana (a sentir uma esperança estúpida a crescer dentro de si...) - E se estivesses a fazer disparates, dizias-me?

Mariana - Claro que não.

E voou. Com os bonecos. Enquanto acelerava a contagem decrescente para a piada que algumas coisas (ainda) têm.

Ippon para a Mariana. Há derrotas que ainda têm piada.

Respirar fundo. Continuar.


quinta-feira, 29 de março de 2018

O que se aprendeu, hoje, com a Mariana... - XCVI*

Que a boa educação se aprende em casa.

Que, já agora, o bom gosto também se deve aprender por lá.

Que há heranças que não são convertíveis em valores mensuráveis em cifrões.

Que há clubes. E depois há a Académica. 

Que se está a conseguir ensinar aquilo que se aprendeu. 

Férias significa, sem excepção, regressar a Coimbra. Uma fuga para casa vindos de casa, numa dualidade típica de quem vive entre locais onde se sente bem. De quem tem a fortuna de, como os adolescentes, poder fugir de casa para, rapidamente, voltar a casa. 

Em Coimbra, há uma feliz via sacra, aquelas coisas que nunca falham, na impossibilidade de fazer tudo o que queremos e de conseguir manter o contacto com toda a gente. Há locais e hábitos que não falhamos. O jantar com os amigos de sempre, as estadias nas nossas casas, a ida a Cantanhede ver aqueles que resistem ao tempo,...

Passar pelo estádio da Académica é uma das estações desta via sacra que não costuma faltar. Pelas quotas de sócios que há para pagar, pelos bilhetes para os jogos, pela vontade de comprar merchandising para casa ou pelos pedidos que amigos fazem de coisas para levar para os Açores**.

Desta vez a ida foi em família, coincidindo com um passeio pela cidade com uma das primas da Mariana, a L..

Enquanto se tratava dos pormenores do pagamento dos três sócios lá de casa e se compravam bilhetes para o próximo jogo para toda a família, a Princesa afastou-se com a sua mãe.

Depois de ficar enamorada por uma mochila, a sua mãe achou-a estranhamente parada, vislumbrando algo.

Mãe da Mariana - O que foi, Mariana?

Mariana - Que lindo...

Mãe da Mariana (enquanto olhava em volta, procurando na loja aquilo que estaria a polarizar a atenção da Princesa) - O que é que é lindo, Mariana? Onde está?

Mariana (enquanto apontava para a parede em frente) - Aquela parede!

  

Mãe da Mariana - Queres tirar uma foto?

Mariana - Sim.


Sábado, cumpre-se mais uma etapa da sua entronização. O primeiro jogo, ao vivo e a cores.

Aprendeu-se, aliás confirmou-se, que o seu avô e bisavô estariam orgulhosos. E isso deixa o coração negro. No melhor sentido.


* A quatro histórias das cem, limite para a compilação, presente para a Princesa ler daqui a uns anos.

** Chegará o dia em que se oficializará a Casa da Académica da Ilha Terceira...

terça-feira, 27 de março de 2018

O que se aprendeu, hoje, com a Mariana... - XCV

Diz a sabedoria popular que a vida dá muitas voltas, legitimando a tendência do ser para voltar aonde já esteve, sejam esses lugares, físicos ou interiores, bons ou maus, num movimento circular que se vai fazendo sem que, na maioria das vezes, nos apercebamos.

Na parentalidade, estes círculos, maiores ou menores, também existem.  Na parentalidade é, igualmente, fácil, e enganador, criar uma cisão entre os papéis de pai e de filho. Entre o tempo em que nos sentimos filhos e o tempo em que somos pais. Entre o tempo em que os nossos pais fizeram o melhor que souberam, mesmo nos dias em que os levávamos ao limite da paciência, e o tempo em que esgravatamos o terreno da parentalidade, nos dias em que até a melhor das princesas nos conduz ao beco escuro da frustração.

A realidade, contudo, obriga-nos a preencher o requerimento da acumulação de funções e perceber que somos e fomos filhos e que somos pais. Como os nossos pais foram e são.

Ser um pai (relativamente) jovem, numa geração impregnada dos valores da parentalidade e sendo alquimista da alma, conduz, por vezes, a uma espécie de novo-riquismo parental em que nos refugiamos, assumindo que a nossa forma de sermos pais está muito longe daquela que foi protagonizada pela geração anterior.

O círculo fecha-se, com estrondo e com um sorriso, quando proferimos uma daquelas frases que sempre dissemos que não iria fazer parte do nosso arsenal parental.

Um destes dias, enquanto se dava o salutar beijinho de boa noite (e antes de dizer ao ouvido o segredo que lhe é dito ao ouvido todas as noites...), a Princesa discorria sobre os seus direitos, a propósito da indumentária:

Princesa: Eu tenho o direito de ser eu a escolher a minha roupa, sempre!

Pai de Mariana: Sim, mas há alturas em que os pais têm uma palavra a dizer. Se não for assim, andavas todos os dias de fato de treino...

Princesa: Mas porque é que os pais podem mandar em mim?

Pai de Mariana (carregando o último segmento de um círculo que estava há oito anos, três meses e quinze dias à espera de ser fechado, bem como o aparelho de solda para o colocar e o capacete de protecção correspondente): Quando fores mãe, vais perceber...



Pai de Mariana (em pensamento, enquanto admirava a perfeição do círculo que acabava de fechar, estrondosamente): Filipe, tu não acabaste de dizer isto?!

Foi o beijinho mais divertido de sempre, dado enquanto saiu uma gargalhada que a Princesa não terá percebido.

segunda-feira, 19 de março de 2018

O que se aprendeu, hoje, com a Mariana... - XCIV

Que, aos oito anos, as princesas têm uma melhor noção das prioridades que a quase totalidade dos adultos.

Que a Mariana percebe que o desporto é uma coisa bonita e que ficar no pódio não é o mais importante.

Que os adultos perdem, facilmente, da sua vista aquilo que é importante.

Que a linguagem da competição selvagem que os chatos dos adultos utilizam, e da qual, por vezes, dependem, não está  aprendida pela Mariana (e ainda bem).

A princesa é, como muitos saberão, uma destemida karateca. Aquilo que, inicialmente, começou por ser uma ocupação de tempo tem passado a ser um modo de vida, em que a Mariana tem incorporado valores e demonstrado esforço, muito bem orientada e integrando um clube que é uma família. Um descanso para qualquer pai e para este pai, em particular.

A pequena tem conseguido conjugar o seu esforço com alguma qualidade enquanto atleta. Vai ganhando umas taças e medalhas e vai passando as finais das provas em que participa, ao nível do campeonato de ilha.

No Sábado houve mais uma competição. Lá pelo meio, houve um engano e a karaté kid cá de casa não passou às finais, ainda que tivesse pontuação para tal. A primeira vez que tal acontecia, numa das disciplinas.

Da bancada deu para ver a desilusão (daquelas que ajudam a crescer, mais do que muitas vitórias) na face da Princesa.

A competição avançou e foram definidos os vencedores.

Lá pelo meio o engano foi encontrado, ainda que não fosse possível voltar a realizar as finais. Ainda bem, diga-se.

Para compensar, a C., diligentemente, referiu que compraria um ovo da Páscoa de chocolate para compensar o desgosto e o sentimento de injustiça da Princesa.


Chegados a casa, lá se falou sobre aquilo que tinha acontecido. Lá se tentou que a Princesa processasse o que tinha acontecido. Lá se tentou, quais senseis da parentalidade, que ela crescesse com o que tinha acontecido. Lá, pelo meio, o ovo de chocolate veio à conversa. A expressão mudou e um pai perspicaz, finalmente, conseguiu perceber e descomplicar.

Pai da Mariana: Entre ficar em primeiro e ganhar um ovo de chocolate, o que é que preferias?

Mariana (pelos caminhos da sinceridade renitente): O ovo, claro.

É difícil concorrer com um ovo da Páscoa de chocolate, quando se tem oito anos.

Que bom seria que muitos adultos, alguns daqueles chatos da televisão ou daqueles que nas bancadas envergonham o desporto (e os filhos...), percebessem a relativa importância de um ovo de chocolate. Ou a necessidade de relativizarem o desempenho desportivo dos seus petizes.

segunda-feira, 12 de março de 2018

O que se aprendeu, hoje, com a Mariana... - XCIII

Que a idealização absoluta dos pais é indirectamente proporcional à idade dos petizes.

Que, felizmente, os nossos miúdos são capazes de nos humanizar.

Que isso não tem que assustar... aliás, permite-nos provar que os pais também se vão tornando mais maduros, à medida que as princesas se fazem gente.

Que quem diz a verdade, nunca merece punição. Diga lá o que disserem as supernannies desta vida.

A Princesa mantém uma intensa vida social. Festas de pijama, aniversários, jantares em casa de amigos ou idas ao cinema. Esta história começa numa ida ao cinema com um grupo de amigos e amigas, a cargo da J., mãe do B. (que é um puto muito porreiro).

No final do filme, houve uma romaria a casa de uma das amigas para que todos pudessem ver o seu aquário, patrocinada pela J..

Na casa da amiga, a Mariana encontrou o D., pai da amiga, que é um atleta à séria. Daqueles que correm mesmo muito e que dão voltas de avanço ao pai da Mariana (que continua em conseguir baixar dos noventa quilos, o que, vá, não ajuda a que consiga ser mais do que um caracol hiperactivo).

O D. perguntou:
- Então como andam as corridas do teu pai?

A Mariana respondeu:
- Para ser sincera, o meu pai a correr não é grande coisa.

O Pai da Mariana riu a bom rir quando ouviu a história (há uns tempos, no paleolítico da sua parentalidade, dificilmente lhe arrancariam mais do que um sorriso, muito, amarelo...) e disse:
- Isso só prova que é inteligente.

E atenta, acrescento eu, agora.

Quem diz a verdade, não merece castigo.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

A propósito do Dia de São Valentim, uma memória sobre o amor

Quem me conhece sabe que tenho um gosto particular por dois tipos de construções humanas: pontes e faróis. Falo muito de pontes e ainda mais de faróis. Não consigo resistir a fotografar faróis, até os mais modestos. Aliás, não tendo sido alquimista da alma, acho que seria feliz a engendrar pontes e faróis.

Seria feliz a imaginar estruturas que contêm tanta poesia, que unem, que avisam, que ajudam, que sublimam a aspereza dos elementos e que nos fazem poder ir mais além. Que nos fazem ser maiores, mais corajosos e melhores pessoas. Que estão sempre lá. Não o conseguiria, por muito que quisesse.

Há pessoas que surgem na nossa vida que conseguem ser tudo isso, sem esforço, simplesmente sendo aquilo que são. Conseguem conjugar o ser ponte com o ser farol. Hoje faz anos uma dessas pessoas. Hoje faz anos a Célia. Hoje faz anos a pessoa que me deixa fazer parte da vida dela há, quase, vinte anos.

A Célia é ponte e é farol, como mãe, como mulher e como amiga. Nem sempre as pessoas o percebem, deixando-se iludir pela sua candura e humildade. Nem sempre as pessoas percebem, mal habituadas que estão a margens distantes e a nevoeiros indecifráveis, a sua capacidade de amar e aceitar incondicionalmente. Nem todas as pessoas sabem o que isso é.

Eu, felizmente, sei, ainda que nem sempre tenha tido a capacidade de o perceber. Sei o que é amar e ser amado incondicionalmente, numa relação amorosa. Sei porque tenho a minha ponte e o meu farol, do qual me orgulho como, além da Mariana, nunca antes me havia orgulhado de alguém. O que me gera arrependimento pelas alturas em que a pus em questão, quando, no fundo, não tinha coragem de me colocar em causa a mim mesmo.

Hoje faz anos o meu porto seguro, aquela que me ajudou a que me ancorasse à felicidade, como escrevi, há muito, nos agradecimentos do meu relatório final de curso. E continuo a agradecer por, diariamente, me recordar que a vida só faz sentido com amor. Por estar sempre presente, pelas construções conjuntas, pelos projectos de vida e por continuar a fazer-me prosseguir, conseguindo acreditar mais em mim do que eu alguma vez conseguirei.

E, como se não bastasse, continua bonita como quando a conheci, quando, imberbe e sem idade para ter carta de condução, não conseguia acreditar que fosse possível que alguém assim me pudesse querer. Diz ela, muitas vezes, que viu longe. Tivesse eu procurado ver longe, nessa altura em que ainda se pagava em escudos, e, por muito que tentasse, não conseguiria ver tudo aquilo que com ela pude viver e tudo o que surgiu, nem uma Mariana que nos enriquece todos os dias.

A foto que coloco é, ainda, hoje a melhor foto que tirei, captada algures no início deste século. Como disse, continua tão bonita como no início. O farol à beira mar. Como faz sentido.

Obrigado. Parabéns Célia.


domingo, 4 de fevereiro de 2018

Uma matrioshka de pijama

Estamos velhos quando percebemos que, hoje em dia, as festas de pijama das garotas são uma espécie de boneca russa.

A festa de pijama acontece enquanto as presentes participam numa festa de pijama num jogo online chamado Roblox.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Inspiração para uma vida feliz

Há dias, numa consulta com uma daquelas pessoas fantásticas que a profissão nos permite conhecer, discutia-se a diferença entre inspirar e ajudar a mudar. Num tempo de imediatos, em que na espuma dos dias perdemos a noção da essência, do essencial e a consciência dos nossos limites (que nos humanizam...), é demasiado fácil prostituir a dificuldade da mudança à tentação da inspiração fugaz. Confundir uma espécie de magia permanente no quotidiano  com a necessidade de aceitar que a vida é feita de momentos mágicos que sublimam tantos outros, que lhes dão sentido e perspectiva. Confundir a nossa natureza emocional com uma espécie de empreendedorismo asséptico pateta das emoções. Quem tem o privilégio de diariamente ouvir pessoas, escutar os seus silêncios, empatizar com as suas dores, frustrações e mágoas, lida em primeira mão, com tudo o que isso implica de bom e de mau, com a crueza do ser, com as suas emoções, com aquilo que nos constitui, com o visível que procura mascarar o invisível, além das fotografias com filtros, das actualizações habilidosas de estados e do marketing pessoal em que, por medo ou por hábito, alicerçamos os dias.

Num mundo em que todos nos querem inspirar, impor as suas fórmulas de felicidade e condenarmo-nos à artificialidade do optimismo de pacote, perceber a dificuldade da mudança, da alteração de paradigmas pessoais é um desafio, um exercício de resistência e um investimento na nossa construção. Daquilo que somos, daquilo que nos alicerça, daquilo que, mesmo fragilizando-nos, nos constitui.

"Estou feliz", dizia alguém, outra das pessoas fantásticas com que nos cruzamos, um destes dias. Magicamente simples, complexamente atingido. Um privilégio assistir a momentos simples, mágicos, merecidos pelo trabalho árduo que as pessoas realizam, numa luta consigo mesmas e com os seus limites e emoções. Deixar de ter medo de procurar a felicidade, conseguir assumir escolhas que nos permitem ascender-lhe, quebrar amarras, ciclos e padrões tão nossos como derrotistas.

Ajudar a mudar é um privilégio e uma responsabilidade, num percurso sempre centrado no outro, nunca em nós. Profissão mal entendida, lida pela lente do preconceito, que muitos abominam e tantos outros minimizam. "Não queria ter o seu trabalho!..." é uma das frases do dia. Abaixo no relambório das mais escutadas surge "Como é que consegue fazer isto todos os dias?" A mais bela profissão do mundo, para mim. Uma das mais puras. A palavra como bisturi, a relação como veículo, a confiança como combustível. Sem artifícios, sem ferramentas artificiais, sem fuga possível. A pessoa para a pessoa.

"Estou feliz!", o objectivo, a motivação para ouvir e para empatizar. Para estar lá. Estando, mesmo, lá. A felicidade do outro não se compadece com meias-doses. A mudança do outro não se compadece com pacotes inspiracionais centrados no poder do emissor, secundarizando o receptor. O P. está feliz e lutou pela sua felicidade. Inspiremo-nos no seu exemplo e procuremos a nossa, também, trabalhando, muito, para isso.

Em 3, 2, 1!

domingo, 28 de janeiro de 2018

O que aprendeu, hoje, com a Mariana... - XCII

Corria o ano de 1996, e na antecâmara de mais um jogo da Académica, fazia-se o habitual percurso para o estádio, o saudoso Calhabé, versão anterior (mas com mais identidade) do actual Estádio Cidade de Coimbra.

O percurso para o estádio tinha o seu quê de sacramental. Aprendeu-se com o avô da Mariana que era a única altura em que queimar os limites de velocidade era permitido, num mandamento que se mantém inviolável nos dias de hoje. Nesse ano de 1996, o ZX vermelho lá de casa passou entre os pingos da chuva dos radares de velocidade com uma fortuna incomensurável por várias vezes.

Além do rebentamento dos limites de velocidade, havia outros mandamentos, professados num movimento de partilha que só quem aprecia o jogo da bola consegue compreender e, empaticamente, sentir.

Ouvir o rádio, à ida para o jogo, na Rádio Regional do Centro para aquilo que, hoje, se chama projecção do jogo. Ouvir o onze inicial, discutir as opções e criticar as opções do treinador, encontrando, sempre, melhores opções. Há treinadores de bancada e treinadores de banco de carro. O pai e o avô da Mariana eram peritos nos dois. Nem sempre se percebia quem era o treinador principal e quem era o adjunto.

Chegar antes do jogo era outro deles. Ver o aquecimento do guarda-redes, pregar partidas ao guarda-redes adversário (chamá-lo pelo nome, numa altura em que o estádio estava quase vazio, e, quando ele olhava gritar "toma" enquanto se eriçava um dos dedos, aquele que habita entre o indicador e o anelar. Funcionava sempre... Chamai a SuperNanny!).

Comprar pevides e amendoins que se iam consumindo num assomo devorador que dava uma folga temporária às unhas fazia parte das tábuas do Moisés da bola.

Dar um abraço nos golos constava na lista de mandamentos. Conter uma lágrima em conjunto nos jogos mais emocionantes. Cumprimentar fosse quem fosse que estivesse à volta, do conhecido ao completo desconhecido.

Comer castanhas no Outono, ou um gelado no Verão, enquanto se esperava pela saída dos jogadores para uma palavra de apreço ou de critica, nas horas piores. O casamento futebolístico nem sempre se mantém na sorte e no azar, na vitória e na derrota.

Ah. E nunca levar o chapéu de chuva às cores. Era óptimo, cobrindo o amor pela Académica da chuva que caía no Inverno, mas desde que se levou a primeira vez e o jogo terminou numa goleada em casa, não mais o chapéu viu a Académica. Os mandamentos são para cumprir.

Enquanto se fazia a Via Sacra para o estádio, nesse jogo algures em 1996, percebeu-se que, aparentemente, a Académica ia jogar com defesas a mais. Estava no onze um jogador chamado Abazaj, albanês de nascimento, defesa central, bem como mais dois colegas de posição (um deles, um jogador chamado Dinis, imortalizado como o Sandokan do futebol português). Exploradas todas as opções de um treinador chamado Eurico Gomes, entrou-se no estádio com um cachecol de dúvidas sobre o posicionamento dos jogadores, dada que o jogador balcânico estava para a técnica como o Bruno de Carvalho para a empatia. Não tinha muita.


Começa o jogo. O panzer albanês surge a ponta-de-lança, num esforço de esticar o conceito de polivalência ao máximo. As profecias do pai e do avô da Mariana cumpriram-se. O Abazaj não fez um bom jogo, não marcou qualquer golo e não terá voltado àquela inusitada variação táctica. No futebol, a polivalência nem sempre é um bem. Que o diga o André Almeida, do Benfica.

Este relato vem a propósito de mais um episódio em que se aprendeu com a Mariana e se percebeu que ela, ao contrário do Eurico Gomes, domina a polivalência.

Quem tem miúdos e um smartphone deve conhecer o Akinator, aplicação em que um génio da memória RAM coloca questões aos petizes, e por um processo de exclusão de partes, adivinhando as pessoas ou personagens que têm em mente.



A Mariana inicia o ciclo de perguntas, enquanto o pai ia respondendo ao génio. Objectivo: descobrir se ele adivinha a nova youtuber que a Mariana começou a acompanhar, uma Mandy qualquer coisa, que, à terceira tentativa, o Akinator adivinhou.

Mariana: Pai?

Pai da Mariana: Sim?

Mariana: Vamos tentar mais uma vez. Vamos experimentar se ele descobre quem é o Eugénio de Andrade (que a Mariana foi declamar numa excelente iniciativa da Biblioteca* angrense).

O Akinator não chegou lá. Passaram uns segundos e a Mariana inicia mais um ciclo de respostas ao interrogatório.

Mariana: Não estou a conseguir... estava a ver se ele adivinhava o avô, o teu pai.

Hoje aprendeu-se que, aos oito anos, a polivalência tem mais significado que numa tarde, algures em 1996, em que um albanês andou perdido num rectângulo verde.

Aprendeu-se que a Mariana, no conceito de polivalência, ganha por pontos ao André Almeida, que joga em todo o lado, sem jogar em lado nenhum.

Que o Akinator não adivinha as pessoas realmente importantes. As suas bases de dados não chegaram ao avô da Mariana.


* Que, como a Mariana, tem dominado a polivalência de uma forma magistral na profusão e variedade de iniciativas.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

O que se aprendeu, hoje, com a Mariana... - XCI

Nos Açores, numa das Quintas-Feiras anteriores ao Carnaval, comemora-se o Dia das Amigas, pretexto para reuniões de senhoras em jantares e encontros onde, espera-se, se comemora a amizade, ainda que a reboque da obrigatoriedade da tradição plasmada no calendário.

Cá em casa, tem sido sinónimo de jantar da Mariana com o seu pai, dado que a sua mãe, e bem, se reúne com as suas amigas (daquelas que estão lá sempre, seja qual for o dia da cronologia).

Este ano, num sinal de crescimento, a Mariana exigiu ir ao jantar das amigas da mãe, onde estão as suas tias emprestadas. Gente grande, do alto dos seus oito anos de idade. 

Chegada à altura do jantar, marcha-atrás. A Princesa regressou ao plano de sempre. Jantar com o pai, exigindo esperar pelo pai na clínica, enquanto se terminavam as consultas do dia. Desenhou-se. Imaginou-se. Fez-se um pai feliz com um desenho.


Hoje aprendeu-se que um simples desenho pode fazer um dia esquisito, num dia muito bom.

Que o Dia das Amigas do pai da Mariana continua, ainda que com prazo de validade, a ser uma garantia de alegria e de amor.

Que nos dias em que nos sentimos menos super, o amor de uma filha garante que coloquemos as coisas em perspectiva.

Que, cá por casa, se tem trabalhado muito naquilo que é a aceitação incondicional daqueles de quem gostamos. Que estamos a fazer um bom trabalho.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

O que se aprendeu, hoje, com a Mariana... - XC

Ao nonagésimo episódio desta saga, o pai da Mariana foi apanhado na curva. Não que nunca o tivesse sido. Nunca com esta classe.

Era a Mariana muito pequena, quando o seu pai, pleno de sabe-se-lá-o-quê e inseguro q.b., lhe dizia que sabia tudo. Para provar pedia que fosse feita uma pergunta qualquer, à qual, inevitavelmente, surgia uma resposta inventada que a Princesa aceitava.

A Princesa tem crescido, como fica claro a quem acompanha estes escritos, e o prazo de validade para a suposta omnisciência do seu pai esgotou-se como as últimas areias de uma ampulheta desprovida de sedimentos.

A dada altura, lá terá sido admitido um qualquer desconhecimento à pequena, o que conduziu a que fosse aprendida, e repetida, a frase "ninguém sabe tudo, afinal". O que é verdade, claro.

Um destes dias, a Princesa chegou a casa orgulhosa de uma tarefa escolar que teria no dia seguinte, com o professor J.. Ia declamar um poema de Eugénio de Andrade na Biblioteca da mais bonita cidade açoriana. Não, para tal não é preciso apanhar um barco ou avião para ela lá chegar.


Declamou o poema em plena sala cá de casa. Declamou o poema muito bem. Declamou o poema muito bem ao som do orgulho de dois pais.

No final, depois de terminar e enquanto se encaminhava para as escadas, explicou que as leituras estavam inseridas na comemoração do aniversário do nascimento do poeta.

Pai de Mariana: A sério? Não fazia ideia que amanhã era o aniversário do Eugénio de Andrade.

Mariana (enquando subia as escadas numa cadência que só ela consegue ter, enquanto o som da sua voz ia ficando mais distante, degrau após degrau): Ninguém sabe tudo e eu sei uma coisa que tu não sabes. Até amanhã!

Hoje aprendeu-se que há alturas em que, mesmo "perdendo", ganhamos imenso e que, quando tal acontece, a parentalidade é feliz e temperada com amor. Obrigado, Princesa.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

sábado, 13 de janeiro de 2018

E aí nos Açores não está sempre a chover?

E isso aí na ilha tem centros comerciais? Não. E McDonald's? Não. E trânsito, agitação? Não. E discotecas? Uma. E se quiseres pegar no carro e conduzir umas dezenas de quilómetros? Não pego. E se quiseres arejar as ideias para longe de casa? Não posso (posso arejá-las a poucos metros de casa num qualquer miradouro ou paisagem). Como é que consegues viver aí, ainda para mais quando está sempre a chover?! Não compreendo, a sério que não compreendo! Como? Assim:


Um luxo e um privilégio, numa foto captada hoje, no Inverno açoriano. 

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Lugares esquecidos: Fábrica da Pronicol/ELA

Há uns tempos, o desejo pelo registo e exploração dos lugares esquecidos levou-me, na melhor das companhias, a um dos abandonados da cidade de Angra.

O destino foi a antiga fábrica da Pronicol, unidade de transformação de produtos lácteos, há muito em decadência à entrada oriental da cidade de Angra e que encerra, ainda, muitos aspectos interessantes para o registo fotográfico.

Abandonada há vários anos, em 2005 já se encontrava em estado de total decadência, continua sem destino definido, falhados projectos e ideias para a sua ocupação e reconversão.

Sei pouco sobre a fábrica e a sua história, e não consegui arranjar fotos da altura em que laborava. Ensina-me o solícito J. F. que a fábrica já laborava na década de 80, chamando-se ELA (Empresa de Lacticínios dos Açores). Em 1994 foi comprada pela Pronicol, cujas letras se vêem numa das fotos, e terá sido abandonada, aquando da construção da nova fábrica.

















E se fosse possível, pela força da memória, do pensamento livre e da criatividade, devolver a dignidade a um edifício abandonado há anos a fio?

É esse o desafio a que me proponho, com a esperada ajuda de muitas pessoas. Cenas dos próximos episódios numa internet perto de si.

domingo, 7 de janeiro de 2018

As vantagens de ficarmos em último...

Primeiro, não temos que olhar para trás a ver se alguém nos apanha, o que nos torna ainda mais rápidos, mesmo muito mais rápidos. Menos lentos, vá. Caracóis hiperactivos, pronto.

Segundo, recebemos mais palmas de quem está na meta, num misto de simpatia e empatia. 

Terceiro, podemos fazer aquela piada do "fiquei em primeiro! A sério? Sim, a contar do fim".

Mesmo, assim, mesmo com todas estas vantagens inexcedíveis, gostei mais quando fiquei em penúltimo. Nunca passei daí, diga-se.

(Para os mais atentos, na primeira foto, estou à beira de levar uma volta de avanço do queniano que está de vermelho...)




O que se aprendeu, hoje, com a Mariana... - LXXXIX

Que o Bob Dylan tem toda a razão quando diz que os tempos estão a mudar, numa canção que a virtuosa Nina Simone recriou com brilhantismo, uns anos depois.

Que o prazo de validade para acharmos graça a algumas coisas é curto e que a contagem decrescente já começou.

Que é muito ternurenta a forma como rapazes e raparigas de oito anos podem ter uma amizade verdadeira, sublimando as diferenças entre os géneros. Que nunca percam essa capacidade que tantos adultos já esqueceram, perdidos em si mesmos, amordaçados pelos estereótipos.

Que, ao contrário do que proclamam os profetas da desgraça da parentalidade dos dias de hoje, é possível sentirmos orgulho das nossas crianças e das outras que, com elas convivendo, nos deixam, ainda que de forma diferente, orgulhosos também.

Ontem foi dia do M., amigo de sempre da Mariana, vir cá a casa. Numa combinação bem urdida pelos dois, daquelas que os pais vão sabendo aos pouquinhos, a reboque do receio de um sonoro "não!" trair as expectativas criadas e alimentadas pelos petizes, combinou-se que o M., além de jantar connosco, dormiria cá em casa, para dar tempo a que se realizasse a contento todo o rol de coisas que haviam pensado para o tempo em conjunto. Não. Aos oito anos de idade não há noção que o tempo não chega para tudo.

Pelo caminho,  iniciou-se a realização comunitária das pizzas para o jantar, num chão da cozinha que empalideceu, tal a quantidade de farinha que foi voando entre a banca e os pequenos chefes e entre os pequenos chefes.



Pais da Mariana - Podemos comer na mesinha da sala... vocês põem a mesa enquanto nós orientamos o resto das pizzas.

Obedientes os M.&M. foram reunindo os utensílios para pôr a mesa, plenos da autonomia que, sadiamente, têm.

Uns minutos sem vir à sala, e, eis senão quando, está posta uma mesa para dois. Dois pratos, dois copos, dois talheres e dois guardanapos, com o sumo já colocado em cada copo.

Pais de Mariana (num ingénuo uníssono, enquanto levavam as pizzas que cada pequeno fez para si para a sala) - Faltam mais dois pratos...

M&M - (troca de olhares e longo silêncio)

Pai de Mariana (a adivinhar a resposta, ao mesmo tempo que lhe achava piada e se sentia confundido por ela) - Então a mesa é só para vocês jantarem?

Mariana (em modo cara de pau) - Hmmm... Sim.

M. (em modo cara de pau) - (Longo aceno afirmativo).

Passam uns segundos, aqueles que os pais necessitam para digerir a surpresa e as situações em que são desarmados por aqueles que têm quase trinta anos a menos.

Pai de Mariana (em modo saída airosa, com base numa qualquer piada forçada, algo que faz vezes demais) - Querem que ponha uma vela acesa, não?

M. - Não... espera pode ser!

Mariana - Era fixe.

Pai de Mariana recolhe à cozinha. E por lá ficou. Seguro da amizade daqueles dois e de que o M. é um miúdo fixe. E que daqui a uns anos está condenado a uma úlcera nervosa. E, sim. Ficou pela cozinha a jantar.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Um hospital moribundo na Cidade Património

O antigo Hospital de Angra continua moribundo, sem que ninguém, sequer, o ligue a uma qualquer máquina que o reabilite.

As janelas têm vista privilegiada para o esquecimento e para o abandono da memória. Dizia, hoje, o C. P. "e tu nunca trabalhaste ali..." num misto de nostalgia e revolta. Faz bem em estar revoltado. Faz mal quem não se responsabiliza pela memória colectiva de todos os que habitaram um espaço de sofrimento mas, acima de tudo, de abnegação, de vida e de alegria.

Dizia a pequena S., pouco depois, quando me apanhou a ver as fotos que tirei no telemóvel:

S. - Isto é estúpido. O Hospital podia trabalhar mais tempo. Eu nasci lá, sabes... Quem deixa fazer isto é totó.

Tem razão, a pequena S., do alto dos seus oito anos.






segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

O que se aprendeu, hoje, com a Mariana... - LXXXVIII***

Que a Princesa está a trilhar muito bem os caminhos da educação emocional.

Que, para ela, ao contrário de muitos adultos, as emoções fazem todas falta.

Que, para ela, ao contrário de muitos adultos, não há emoções boas e emoções más, ainda que algumas sejam mais agradáveis do que outras, à primeira vista.

Que a Princesa já percebe que as emoções são todas equipamento de série e não uma espécie de tuning que podemos, ou não, colocar.

Que, como já se foi percebendo, tem bom gosto e rejeita alterações desnecessárias àquilo que é fundamental.


Que um Fiat Uno deve ser facilmente reconhecível como um Fiat Uno. Como aquele que tinha a tia A. S.* tinha e que voava por Lisboa. Vá, andava.

A Princesa acompanhou o seu pai a uma viagem à aldeia da sua avó materna.

Vários reencontros saborosos com família e amigos, da mocidade deste vosso escriba, uma visita à casa da aldeia (para "trazer brinquedos do pai") e uma passagem pelo local onde o avô paterno tem a última morada**.

Aquele misto de emoções para o pai da Mariana.

Viagem de carro de volta para a mais bela cidade do mundo, depois de uma aventura na apanha de fruta do nosso pomar, nas imediações da árvore da vida.

Pai da Mariana - Como é que sentiste no cemitério?

Mariana - Foi estranho e confuso. E tu ficaste triste?

Pai da Mariana - Sim. É natural, compreendes?

Mariana - Sim.

Pai da Mariana - Achas que era possível viver sem tristeza?

Mariana - Não. Não seria bom.

Pai da Mariana - Porquê?

Mariana - Porque a tristeza faz falta.

Pai da Mariana - Para quê?

Mariana - Para pensarmos sobre os nossos erros, por exemplo.

Pai da Mariana - Sabias que há adultos que preferiam viver sem a tristeza?

Mariana - A sério? Que burros.


* Ainda que esse tivesse um acessório extra... uma cana, à medida, para segurar a tampa da mala.

** Onde os dois passaram, pelo menos durante algum tempo, a partilhar um segredo de um gesto pleno de significado de que foram co-autores.

*** A caminho dos 100. Aceitam-se encomendas do livro. (kidding)

O que se aprendeu, hoje, com a Mariana... - LXXXVII

Hoje foi o dia seguinte à passagem de ano, muito bem passada em casa da C. e do J., tios de coração da Mariana.

Hoje foi o dia em que foi preciso recuperar da forma divertida e bem guarnecida de itens do foro alimentício e do domínio da produção de bebidas espirituosas, que permitiu que um punhado de pessoas tivessem dado um contributo generoso à indústria nacional. De nada, Centeno.

Em família, vimos o ET que estava gravado, à espera do dia ideal, na box do cabo.

                               

Em família, gostamos do ET. Os pais da Mariana apreciaram a sua emoção espontânea quando o alienígena voltou à vida, quando já se formava uma lágrima, veementemente negada, no canto do olho da Princesa.

Em família procurou-se discutir o filme.

Pai da Mariana - Gostaste do filme?

Mariana - Sim.

Pai da Mariana - Este filme, na tua opinião, é sobre quê, Mariana?

Mariana - Sobre amor.

Aprendeu-se, mais uma vez, que as pequenas Princesas estão atentas. 

Que percebem a linguagem do amor, na sua pureza e genuinidade.

Que a Princesa continua, do alto dos seus oito anos, a crescer bem. Por fora mas, acima de tudo, por dentro. Ali para o lado esquerdo do peito, em particular. 

Que, para além de dominar a pequena e a grande circulação do sistema circulatório, que já aprendeu no Estudo do Meio*, a pequena é entendida nas coisas do coração, aquele que, metaforicamente, nos permite sentir. 


* O que obrigou o seu pai a ir ler o livro para saber o que são...

Ilhéus


Resiliência. A principal característica do açoriano. Há 38 anos esta terra tremeu como ninguém pensava que tremesse. O abalo, o Sismo d'Oitenta.

Há 38 anos, da tragédia, emergiu a força de um povo, numa altura muito diferente da actual, na qual a escassez de recursos foi proporcional à coragem, resiliência e superação dos terceirenses.

Que não nos falte nenhuma destas características, na desejável ausência da tragédia, para a defesa da nossa terra, é um dos meus desejos para o novo ano.


2018: aqui vamos nós...

Feliz Ano Novo. Que 2018 comece pequenino e que, todos nós, o consigamos fazer crescer e prosperar, com resiliência, paixão, compaixão, amor e crença. Sobretudo em nós.Só depende de nós.


Esta foto foi captada, sem filtros, naquela que chamei, numa publicação anterior, a árvore da vida. A árvore da vida, onde ficarão sempre memórias e pessoas (do meu pai aos meus avós) fica num terreno de família. Foi sempre um sobreiro altaneiro, bonito e frondoso que nos abraçava com cada ramo e que nos protegia com a sua solidez. Que nos transmitia a segurança de estar sempre ali, daquela forma boa que as árvores, e algumas pessoas, conseguem. Foi sendo morta, com malícia e num movimento vazio de sentimentos, por alguém que a foi envenenando e cortando, com minúcia, as suas raizes. A árvore da vida vai morrer. Mas ensina-nos, como se vê nesta foto, que há esperança. Se ela ainda luta, como podemos nós sequer pensar em não o fazer?

Que em 2018 aprendamos com a (minha) árvore da vida. E que vivamos a vida, como ela nesta foto, com coragem e com menos filtros. Vamos lá?

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Não se explica. Sente-se.

As laranjas, diz a lenda, eram cultivadas pelas ninfas como veículos da imortalidade. Quem acedesse aos pomos de ouro das laranjas, sublimava a morte e o esquecimento.

Há cidades que encontraram as ninfas, e as suas laranjas, há muito. Provaram e lambuzaram-se com as suas laranjas. Coimbra é Coimbra. As ninfas estarão, com certeza, orgulhosas.


Não se explica, sente-se.

O que se aprendeu, hoje, com a Mariana... - LXXXVI


No relato de hoje, a Mariana contou com ajuda de outros petizes, as primas L. e C. e de um amigo, o D..

Sala cheia no Dia de Natal. Em todos os ângulos da divisão vislumbravam-se os pacotes, brinquedos e restos de papel de embrulho, rasgados, com ânimo e vigor, num movimento alimentado pela curiosidade das pequenas. Como tão facilmente acontece, o número de presentes das Princesas foi proporcional à sua ansiedade, na fase prévia à sua abertura, e da sua alegria, após um festival de luz e som do papel de embrulho e dos laços pelo atmosfera. Resultado, overdose de brinquedos alimentada pelo anseio dos pais e avós de corresponder àquilo que as Princesas esperavam e de lhes proporcionar alegria e, através das ofertas, veículos para boas sensações. Segundo resultado, atenção dividida por demasiadas coisas e poucos brinquedos verdadeiramente desfrutados. Shame on us.

O D., filho do N. e da A. (a nossa irmã-sem-ter-sido-parida-pela-avó-da-Mariana), chegou estremunhado da viagem de carro e só despertou, verdadeiramente, quando tinha que ir embora. Provou que é um miúdo porreiro, óbvio.

Pelo caminho, naquele corropio entre pais que querem que a criança venha embora e criança que quer adiar ao máximo a ida para o carro, os petizes descobriram, no meio da sala uma cadeira. Uma singela cadeira, daquelas de escritório, com a extraordinária potencialidade de girar. Simples. Girava, num misto de helicóptero que não levantava do chão e carro com um problema na direcção só virando para um dos lados, conseguindo transportar num círculo repetitivo dois petizes, ao mesmo tempo, enquanto os outros empurravam. Chegou para entreter quatro crianças durante muitos minutos, pulverizando o número de minutos que qualquer um dos brinquedos ganhos tinha ocupado, desde a noite anterior.


Aprendeu-se, com a Mariana e os seus companheiros natalícios, que os adultos tendem a complicar aquilo que é simples.

Que a alegria genuína de uma criança não depende da conta bancária, nem dos euros que nos saem do bolso no mês de Dezembro.

Que os miúdos são miúdos e que os adultos são adultos e que os últimos olham para uma cadeira como uma simples cadeira. Totós.

Que aprendemos pouco quando lemos o Principezinho. Quem não leu é totó, já agora.