domingo, 1 de agosto de 2010

"À mulher de César não basta sê-lo. Tem de parecê-lo!"

Há uns tempos, a primeira-dama dos Açores realizou uma deslocação ao Canadá que gerou uma forte polémica na sociedade açoriana, uma vez que custou a módica quantia de 25700 euros* ao erário público. Insurgiram-se vozes de protesto, outras de defesa acérrima da deslocação da senhora à diáspora açoriana.

Aparentemente, após um comentário de Nuno Rogeiro na sua coluna na revista Sábado sobre o assunto, e qual cavaleiro andante da modernidade, o Governo Regional dos Açores deu-se ao trabalho de enviar uma "longa carta" ao escriba em questão. Não resisto a transcrever o texto escrito por Nuno Rogeiro, na edição da Sábado de 29 de Julho...

"Escreve-me o Governo dos Açores uma longa carta, que agradeço, como resposta ao curtíssimo comentário sobre gastos da primeira dama regional, numa deslocação ao Canadá. Ninguém discute aqui os méritos pessoais e morais da pessoa mencionada. Desde logo se explicou ser a identidade, ou o sexo, irrelevante:poderia escrever-se Madame X, ou Professor Pardal. E ninguém discute a necessidade de existirem assessores nas áreas da cultura. Muito menos se contesta o imperioso trabalho de contacto com as comunidades emigradas. Mas a época é de restrições extremas. E torna-se necessário - sempre - evitar qualquer suspeita de ligação entre família e política. Deveria, assim, liminarmente, ter existido escusa do cônjuge do governante. E supressão de uma visita cara. Ou a sua redução ao mínimo (uma pessoa). Ou, melhor ainda, a substituição da viagem pela presença de diplomatas portugueses, residentes no país em causa. Seriam boas práticas. Boas, que digo eu? Obrigatórias."

* Mal, por mal ficou cerca de quinhentos contos de réis mais económica do que o embelezamento de uma rotunda em Angra do Heroísmo. Haja boa gestão. As duas coisas somadas permitiriam que um projecto social óptimo, que funcionava na Terceira, pudesse continuar, no mínimo, durante mais dois anos. Mas o que é que interessa ter um local de referência num território socialmente complicado, não defraudar as expectativas de crianças e jovens vulneráveis e descrentes, criar um espaço de promoção de mudança, quando se pensa em viagens de cinco dias ao Canadá ou em placas giratórias de trânsito catitas?...

2 comentários:

PedromcdPereira disse...

A análise dessa viagem pelo Rogeiro foi, de tão concisa e esclarecedora, confrangedora.

psilipe disse...

À parte a simpatia ou antipatia sentida pelo senhor em questão (e descobri com este post que existem pessoas neste mundo que nutrem uma relação esquisita com o Rogeiro... não é, Fintas???), o comentário é simples, constatando o óbvio. Tal como deveria ser o entendimento deste tipo de situações, principalmente numa altura em que tudo se questiona com base no critério financeiro... Apesar de, no fundo, existir uma total falta de critério.