domingo, 6 de março de 2011

Ordem dos Psicólogos = 4858000 de euros?...

Antes de mais aqui vai uma pechinchinha* declaração de interesses... Não possuo qualquer preconceito de base anti-corporativo, nem me nascem borbulhas na alma quando penso na Ordem dos Psicólogos, enquanto conceito. Não deixo, no entanto, de me questionar sobre a forma como o mesmo conceito é, e será, aplicado, operacionalizado e, porque não dizê-lo, gerido. E falo de gestão porque a Ordem dos Psicólogos, atendendo aos dados vindos a público, movimenta um volume de dinheiro considerável, que advém das contribuições forçadas dos seus associados. Pelas minhas contas perto de cinco milhões de euros... O que constitui uma cifra considerável e que poderá permitir questionar a dimensão dos valores exigidos àqueles que se viram na contingência de integrar uma família que, porventura, não desejaram**.

A recente vaga de quotizações da Ordem dos Psicólogos, que implicou que todos tivéssemos que pagar os valores definidos, independentemente do rendimento, da situação profissional, da existência, ou não, de emprego na área, activou em mim um raciocínio crítico que se encontrava latente há muito. A constatação de valores financeiros elevados, levou a que formulasse uma série de questões... Que papel pode ocupar uma Ordem dos Psicólogos, em abstracto? Que papel ocupa esta Ordem dos Psicólogos que, mesmo tendo uma existência oficial recente, já existe em essência e em pré-formato há muito (basta pensar na semi-estruturação existente na APOP)? Até que ponto as obrigações impostas encontram eco na criação de oportunidades para a melhoria do exercício profissional e para a potenciação do potencial profissional de cada um dos seus associados? Até que ponto é que podemos olhar para esta ordem como uma oportunidade de esperança ou como um pólo de castração?

E como é que cheguei ao número que vos apresento acima, indagam vossas senhorias. Explicarei, até para não alimentar possíveis insinuações de anti-corporativismo… Então é assim. Segundo o site da OPP, ainda antes do final do prazo de inscrição, existiam 14500 aprendizes de feiticeiro devidamente inscritos. Tomaremos este número como o universo da OPP, apesar de o número real ser superior, uma vez que terão existido mais inscrições, bem como pessoas que tiveram problemas com a respectiva inscrição na Ordem (conheço pelo menos duas pessoas em que tal aconteceu).
Pegando nas inscrições, e atendendo à tabela de quotizações e emolumentos da OPP, facilmente se percebe que cada artífice da mente abdicou de 180 euros, o que perfaz um total de 2610000 euros***.
À inscrição, inapelavelmente, segue-se uma quota, cujo valor depende da experiência profissional. Mais uma vez escolhendo uma perspectiva conservadora, que privilegia o cálculo por defeito, contabilizei que 7500 dos inscritos teriam menos de cinco anos de experiência, pelo que pagariam 96 euros anuais, e 7000, os mais experientes, pagariam 144 euros por um total de doze meses a poder tentar explicar, com pleno direito, aos respectivos familiares mais velhos o que essa coisa de ser psicólogo, procurando manter um nível de credibilidade razoável… Feitas as contas, obtemos um valor anual de 1728000 euros.
Continuando a analisar a tabela de emolumentos, facilmente se conclui que os novéis alquimistas da mente terão que pagar para fazer parte do clube. Estimando, aqui com uma dose ridícula de conservadorismo, que 750 pessoas se prontificam a realizar o obrigatório (ou como agora se diz mandatório) estágio profissional, facilmente se conclui que terão que desembolsar mais 160 euros. Tudo somado, chegamos a um valor adicional de 120000 euros por ano. Pressupondo que 1000 bombeiros da alma mais experientes solicitam o título de especialista, obtemos uma fonte adicional de 300000 euros. Por fim, e atendendo a que, aparentemente, tudo se paga na OPP; é obrigatório contemplar, neste humilde raciocínio, uma verba de 100000 euros para recebimentos diversos (vinhetas, repetições de estágio, pedidos de alteração do nome profissional, poder emitir flatulências enquanto psicólogo,...). Tudo isto perfaz:


 Este valor naturalmente diz pouco, por si só... Poderá ser justo ou indigno consoante aquilo que a OPP conseguir, ou quiser, realizar com ele. Poderá ser adequado ou vergonhoso consoante for, ou não, directamente proporcional a uma real melhoria do exercício profissional da Psicologia no nosso país. Poderá ser um investimento de valia incomensurável ou mais um estranho desperdício, dependendo do balanço que for feito ao longo dos próximos tempos.

No entanto, analisar as actividades desenvolvidas e o plano de actividades para os próximos meses (constantes na newsletter da OPP, disponível para download aqui), não pode deixar ninguém tranquilo... Mesmo.

Deseja-se, vivamente, que não tal seja um mau prenúncio.


* Palavra que no linguajar terceirense designa alguma coisa pequena.
** Muitos dos quais nunca tiveram um rendimento estável, nem condições condignas de exercício da profissão ou auferem valores que não se compadecem com aquilo que o exercício profissional da Psicologia realmente significa.
*** O que facilmente permite concluir que a OPP poderia ter contratado o Liedson ao Sporting.

2 comentários:

Manuela Cunha disse...

Este post lembrou-me, mais uma vez, que vivo à margem de muita coisa!!! Muita mesmo!

psilipe disse...

Pois... esta história da OPP tem-me deixado inquieto. Sempre fui o defensor de alguma regulação (e desde que comecei a trabalhar ainda mais...), mas começo a temer que a Ordem traga pouco de dignificante a uma profissão que precisa de dignidade como de pão para a boca e que acabe por complicar a vida a todos, incluindo àqueles que se têm esforçado por fazer um trabalho sério (e que não precisaram da OPP para tal). Aguardemos... Beijinhos