quinta-feira, 10 de março de 2011

Regresso a Outubro de 2004...

Corria o mês de Outubro de 2004, quando escrevi o texto que coloco abaixo no mítico "O Claustro", jornal do Núcleo de Estudantes da minha Faculdade. Quase sete anos depois, é assustador como há coisas que adquiriram, ainda mais, actualidade. E, há que dizê-lo, importa reconhecer a forma como a geração "à rasca", que clama por oportunidades de reinvindicação e que transpira pró-actividade, abdicou, tantas vezes, do seu papel de oposição e de luta em alturas em que tudo parecia bem mais confortável... 

O Claustro propõe-te um raciocínio de imaginação… Imagina que vivias num país qualquer em que as pessoas, por ordem dos Reitores das suas universidades, eram carregadas por polícias armados até aos dentes, e que para o Governo desse país, esse facto corresponderia a um uso justificado da força… E em que bens que deveriam ser para todos, como o direito a uma Escola Pública e justa, eram cada vez mais só para alguns… Imagina agora que o critério que permitiria às pessoas aceder a tais bens era, fundamentalmente, a quantidade de dinheiro que elas e as suas famílias dispunham mensalmente…

Que país triste e sombrio seria esse, em que a consolidação do pilar da Educação (fulcral para o desenvolvimento de qualquer povo…) era determinado pelos cifrões, e em que quem menos tinha era arredado do acesso a tão importante dimensão da existência humana… Seria tão triste e injusto, não achas? Mereceria uma reacção forte, quer de todos aqueles que fossem afectados, quer de todas as pessoas que vissem injustiça nessa situação promovida pelos seus representantes a vários níveis, não achas?

Naturalmente as pessoas desse tal país criticavam muito a situação, criticavam tudo e todos, normalmente no sofá ou sentadas na mesa de um qualquer café ou cantina de tonalidade amarela… Mas agora imagina que quando chegava a hora de fazer algo, seja ele qual for, eram quase nenhuns aqueles que apareciam para protestar, reinvindicar, sensibilizar ou até para decidir aquilo que os outros haveriam de fazer… Que triste e sombrio país seria esse em que as pessoas se alheavam (ou mesmo se orgulhavam de o fazer) dos seus ideais, das suas convicções, dos seus interesses, em que estavam fartas de “manifestações e coisas assim” que lhes davam “cabo da imagem pública”, muito embora não fizessem absolutamente nada para alterar o que quer que fosse…

Imagina, ainda, que esse país, no qual já poucos sabiam muito bem o que significava verdadeiramente a palavra DEMOCRACIA e quais os princípios basilares de um Estado democrático, tinha vivido durante quase cinquenta anos sob um jugo fascizante e que, em apenas trinta anos, tinha deixado de valorizar tudo aquilo que conquistara numa manhã de Abril...e que, quaisnovos ricos da democracia, fossem os mais novos a exponenciar esse misto de ingratidão e inconsciência… Que país feio e sombrio seria esse que te peço para imaginar, não te parece? Mas estará assim tão longe do nosso? Deste cantinho da Europa onde imperam os “bons costumes”?... Este país onde, como diz José Mário Branco, “saímos à rua de cravo na mão, sem perceber que saímos à rua de cravo na mão a horas certas...não é filho?...” Infelizmente não...

Não é novidade alguma que a Academia coimbrã vive dias difíceis e agitados, nem a simples constatação dessa evidência justificaria a edição especial deste humilde periódico… Mas será que já nos apercebemos todos, do real significado daquilo que temos vivido nos tempos mais recentes? Será que todos compreendemos verdadeiramente a abrangência de um processo insidioso que culminou, na semana passada, na prisão de colegas nossos e na carga policial (que só não é repugnante para quem não viu) que foi possível testemunhar in loco ou através dos media? Falamos de propinas, de cargas policiais, de gás pimenta, de um reitor que foge pela porta do cavalo dos estudantes, depois de cobardemente ter chamado cães-de-fila...e na Democracia, já pensámos? Será que já compreendemos a impossibilidade de conjugar os tempos recentes com o ideal democrático que a revolução de Abril nos trouxe? Será que, ainda, não compreendemos que esta(s) questão(ões) não se resume(m), meramente, aos cinco anos do curso e ao valor monetário das propinas, mas a um rumo que nos estão a impor e que se alastra a toda a nossa Sociedade, nos seus diversos quadrantes? Será que já percebemos o perigo que isso representa?...

Enquanto geração parece-me que não, o que está a conduzir a que acumulemos uma dívida às gerações vindouras e, no presente, às nossas próprias consciências... Queixamo-nos, apontamos aspectos negativos do estado actual das coisas, apontamos dedos, chegamos a vociferar algumas palavras de ordem contra aqueles que nos impõem esta situação que caminha para a insustentabilidade, mas, regra geral, fazemo-lo à mesa das cantinas ou enquanto beberricamos um fino à mesa do Cartola ou Tropical… Será que esta atitude passiva, amorfa e, completamente, incoerente com a gravidade dos tempos que vivemos, é correcta e adequada (basta atentar nas poucas centenas de alunos presentes nas Assembleias Magnas e na acção no Pólo II)? Não deveremos colocar a mão na consciência e constatar que o nosso papel, enquanto comunidade estudantil de seres pensantes e dotados de sentido crítico, é pactuante com toda esta situação?

Assim sendo, parece-me essencial que se dignifiquem as situações que visem a explanação do espírito democrático na Academia, nomeadamente Assembleias Magnas e plenários, por forma a que não percam a sua função aglutinadora e potenciadora da união estudantil… mas aqui também é necessária comunhão de vontades, de forma a que não testemunhemos as mesmas cisões partidárias, a mesma questionação quase obsessiva, tanto à DG/AAC, como ao Conselho de Repúblicas, que, pela sua frequência já se tornaram previsíveis… Só assim esses mecanismos poderão funcionar verdadeiramente e (re)ocupar um lugar entretanto perdido… Agora, enquanto as Magnas se perderem em pedidos-de-esclarecimento-à-defesa-de-honra-que-resultou-de-um-ponto-de-ordem-à-mesa-em-consequência-de-uma-declaração-de-voto-relacionada-com-a-prática-de-horseball-no-Paraguai, será muito complicado que assim seja... E, só para concluir, falando em nome pessoal (recorrendo ao Gato Fedorento) mas com a garantia de expressar as inquietações de muitos, estou cansado daqueles que falam, falam...falam, falam...mas não fazem nada… Pois bem, estou farto, e pois cncerteza que fico chateado, sim senhor! Acho que já chega! Está na hora de acordar!

PS: O Claustro aconselha a audição atenta da música “F.M.I.” de José Mário Branco, do álbum “Ser solidário”… Para que te apercebas daquilo que não estamos a conseguir, trinta anos depois da Revolução de Abril...

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