domingo, 22 de maio de 2011

A fuga dos conquistadores do Jamor...

Reza o mito urbano que reside em Guimarães uma mole humana de indefectíveis consquistadores, apoiantes da colectividade desportiva que lá reside, denominada Vitória de Guimarães...

Vende-se a ideia, fundamentalmente pelos próprios, que tais apoiantes são únicos em Portugal, um exemplo a seguir por todos os outros clubes e regiões, tal o amor que incondicionalmente nutrem pelo seu clube e a lealdade inabalável que os caracterizam. Um amor inquestionável que os faz colocar o clube acima de tudo e que os torna dignos sucessores de Dom Afonso Henriques*, o nosso rei conquistador, figura ímpar da nossa história de Portugal, não unicamente de Guimarães...

Tal mito urbano impede que os comuns mortais, e a imprensa que de forma acrítica glorifica tais senhores, acentuem o número de conflitos, agressões e provocações em que estão envolvidos, de forma reiterada nas últimas décadas, independentemente dos adversários com que se confrontam.

Ver os conquistadores, os guerreiros de Guimarães, os leais e indefectíveis adeptos a desertar aos setenta minutos do jogo de hoje da Final da Taça, proferindo expressões como "vão para o caralho" e "filhos da puta" em direcção aos seus jogadores, foi uma lição para aqueles que glorificam tal conjunto de energúmenos que se afirmam por uma constante negatividade, provocação e bairrismo anacrónico, definindo-se, sempre, em oposição a alguém, num constante registo belicista e violento.

Dom Afonso Henriques não merece tamanha humilhação constante. Suplica por salvação destes aproveitadores...


Depois de hoje, poupem-me as referências elogiosas e glorificantes aos adeptos do Guimarães. Hoje caíu a máscara. Haja memória...


*Sendo que não é difícil encontrar argumentos históricos para caracterizar como abusivo este aproveitamento constante de Guimarães em relação ao nosso primeiro rei que, num exercício de bom gosto, se encontra sepultado na Igreja de Santa Cruz, em Coimbra.

14 comentários:

F.B. disse...

Pois, pois...Os adeptos do Vitória são os piores do mundo...
Quem deixou o estádio (com ou sem palavras infelizes e lamentáveis) foram os adeptos do vitória que se deslocaram ao Jamor em viatura própria e que, vendo que a história do jogo já estava feita, se foram embora antes da confusão. A atitude pode não ser das melhores, mas é perfeitamente aceitável (até porque segunda-feira é dia de trabalho em Guimarães). Mas as 150 camionetes que foram de Guimarães ao Jamor sairam no final do jogo, com os 9000 adeptos vitorianos que ficaram no estádio e que aos 82min cantavam de forma bem audível: "aconteça o que acontecer, somos vitória até morrer".
Depois, independentemente do que aconteceu, o Vitória continua a ser o 4º clube com maior assistência média e, para além disso, é o clube que mais gente mobiliza nos jogos fora de casa (neste ponto supera os 3 grandes).
Falemos de mitos: a violência dos adeptos vitorianos. Dos cinco clubes que têm adeptos dignos desse nome em Portugal(Benfica, Porto, Sporting, Vitória e Braga) - gente que efectivamente vai aos jogos - o Vitória não estará certamente entre os 3 mais violentos (essa honra cabe aos 3 grandes.) Resumindo: o Vitória tem adeptos violentos, certo, tal como qualquer outro clube da sua dimensão.
O Vitória tem das melhores - talvez a melhor - massa associativa do país. Gente que vai aos jogos em casa e fora, que apoia a equipa em qualquer situação (quando o Vitória desceu de divisão ganhou mais 4000 sócios!!), gente que dá um pouco de dignidade ao futebol português ao não deixar que o seu clube tenha assistências medíocres (como Leiria, Académica, Naval, etc).
PS: A cidade de Guimarães (e o clube) tem legitimidade para usar D. Afonso Henriques como símbolo (no fundo já o faz há mais de 400 anos). Afinal, dos vimaranenses D. Afonso Henriques disse: proinde quod vos fecistis honorem et cabum super me et fecistis mihi servitium bonum et fidele (deste-me honra e
apoiastes-me, prestastes-me bom e fiel serviço). Com ele, os vimaranenses sofreram "mal et pena" e daí o reconhecimento do Rei a Guimarães e, como é lógico, dos vimaranenses ao seu Rei, que desde então foi sempre venerado em Guimarães (o que não aconteceu noutras cidades...).

psilipe disse...

Caro F.B.,

antes de mais agradeço a sua visita à minha sala de estar electrónica.

Vamos por partes, seguindo a aturada metodologia seguida por si.

Não foi intenção deste post defender que os adeptos são os piores do mundo. Não sei se são, ou não... Simplesmente sublinhar que o seu comportamento desertor (consensualmente tido como vergonhoso...) contraria a forma como são, comummente, diferenciados dos demais e endeusados pela imprensa, como indefectíveis conquistadores. Atesta que, no fundo, em Guimarães moram adeptos semelhantes aos do Braga ou Paços de Ferreira, por exemplo. Para a história é irrelevante se aqueles que saíram foram de carro ou bicicleta... Supostamente a massa humana de Guimarães nunca abandona os seus conquistadores, certo? Pelos vistos, tal como a esmagadora maioria, estão lá quando se ganha... Os insultos, que eram mais do que visíveis, foram apenas mais um ingrediente para confirmar a minha teoria. Muitos clubes conseguem manter bons níveis de assistência quando estão na mó de cima (reconheço, aqui, a inusitada adesão aquando da descida, assim como sublinho, por exemplo, as assistências da Académica em 95/96 após nove anos na Segunda Divisão). Argumentar que só há cinco clubes com adeptos dignos desse nome é deitar conversa fora e, mais uma vez, fortalece as razões pelas quais escrevi o post. Felizmente, existem muitas pessoas unicamente da Académica (como de outros clubes...) que sofrem e amam o clube como ninguém. Concordaremos que a parola idolatria pelos três grandes é uma praga, mas dizer que só o vitória e o Braga a procuram erradicar é um acto de puro narcisismo e arrogância. Que, aliás, não surpreende. Se os adeptos do Guimarães são violentos? Poupe-me o discurso de vitimização, uma vez que são recorrentes, e há vários anos, os episódios reprováveis em que estão envolvidos pessoas adeptas do vitória... Mais vale reconhecê-lo e, posteriormente, concordar ou criticar negativamente tais factos. As agressões que acontecem em Guimarães a pessoas que ostentam símbolos da Académica são, concerteza, uma estranha forma de boas-vindas... O vitória tem, efectivamente, uma boa massa associativa, que gosta do clube. Assim como outros clubes. Comparar a Académica com a Naval ou Leiria é comparar a obra prima com a prima do mestre de obras. O que não quer dizer que me orgulhe das assistências da Académica e que defenda os dirigentes que levaram à perda de assistências nos últimos anos. Assim como gostaria que lutássemos por outros objectivos... Mas, sinceramente, interessa-me mais que a Académica fortaleça a sua singularidade e unicidade do que marcar mais meia dúzia de golos. Pode não acreditar, mas os verdadeiros académicos têm mais preocupações do que onze caramelos a chutar uma bola. Gostam de futebol e de um ideal de vida personificado numa camisola negra que ostenta o mais belo losango do mundo. E isso ninguém nos tira... Nem se imita. Afirmamo-nos por aquilo que somos, por aquilo que mais ninguém é, nunca por uma permanente oposição a tudo e todos, por um constante registo beligerante. Recomendo-lhe o documentário Futebol de Causas para perceber algumas coisas... Porque é que ser da Académica é único e singular.

Quanto ao D. Afonso Henriques, ele foi o primeiro rei de Portugal... fez cortes em Coimbra e cá reside na sua última morada. Nós gostamos muito que ele cá esteja... Não é de Guimarães, nem de Coimbra... É de Portugal.

Saudações.

F.B. disse...

Meu caro,

Antes de mais, as minhas desculpas pela demora a responder-lhe.

Vamos supor que concordava consigo e que houve uma deserção dos adeptos do Vitória que foram assistir ao jogo. O que é que isto significaria? A excepção que confirma a regra. Mas, na verdade, mais de metade dos adeptos vitorianos ficaram no Jamor até ao final do jogo. Volto a repetir-lhe que aos 82 minutos de jogo, com o Vitória a ser humilhado, o que se ouvia no Jamor era o seguinte : Vitória até morrer, Vitória até morrer! Aconteça o que acontecer, somos Vitória até morrer!. Acho estranho que, caso tenha visto o jogo, não tenha dado por isto. E se deu, então permita-me dizer-lhe que fez pagar o justo pelo pegador e confundiu uma minoria com uma maioria...
No que diz respeito às assistências aos jogos no Campeonato Nacional (CN) o Vitória é neste momento o 5º grande. Fomos ultrapassados este ano pelo Braga (o nosso grande rival), depois de termos sido durante décadas o 4º grande.
No que diz respeito a deslocações somos, talvez, o clube nº 1 (isto porque ao contrário do que acontece com Benfica, Porto e Sporting, o Vitória quase não tem adeptos fora de Guimarães, por isso, quando estão milhares - mais de 15000 como já aconteceu mais do que uma vez - adeptos vitorianos num jogo fora de casa do nosso CN , eles sairam de Guimarães para irem apoiar o seu clube.
Se isto não é ser diferente (para não dizer único) do resto dos clubes do nosso CN, não sei o que será diferente...Se conhecer outro clube (para além dos 3 grandes) com estas características diga. Eu não conheço.
Os exemplos que me deu da violência praticada por adeptos vitorianos são verdadeiros e são lamentáveis. Mas posso garantir-lhe que as recepções que nos são feitas em Lisboa, Porto, Coimbra e Braga são igualmente violentas. Resumindo: uma estupidez de parte a parte.
Quanto à Académica, não tenho nada contra. Agora ter 3000 adeptos de média por jogo num estádio com 30000? lugares, não é digno de um clube da I Divisão, muito menos com a história (ainda que recriada após a interrupção de 74) que a Académica tem...

Sobre o nosso (de Portugal) D. Afonso, não tenho muito a dizer. Disse-me que os vimaranenses se apropriaram dele. É verdade. E ainda bem que assim foi. Se assim não fosse hoje não teria a estátua de D. Afonso Henriques em Lisboa (cópia da de Guimarães e creio que oferecida pelos "vimaranenses" que pagaram a 1ª), não teria tido neste país uma comemoração monumental dos 700 anos do falcimento de D. Afonso Henriques, dos 800 e 900 anos do seu nascimento e não teria uma única cidade do país a ter como feriado municipal a data da "Primeira Tarde Portuguesa" (momento fundador da nossa nacionalidade). Guimarães não se apropriou de D. Afonso Henriques, Guimarães ama D. Afonso Henriques e demonstra o seu amor de uma forma que nenhuma outra cidade quis ou conseguiu fazer...

psilipe disse...

Caro F.B.,

mais uma vez desejo-lhe as boas vindas à minha sala de estar.

Não ache estranho aquilo que é óbvio. Aquilo que constatei foi comentado por todas as pessoas que viam o jogo comigo, comentada por órgãos de comunicação social e originou muitas gargalhadas no local onde via o jogo. Ou então, há uma ampla conspiração anti-guimarães. Se metade abandonou o barco, dizer que se confundiu uma minoria com uma maioria é um enorme erro de cálculo…

Nas assistências, nunca ninguém referiu que o seu clube não tem um nível de assistências assinalável. Isso é um facto insofismável. Recordo-me, no entanto, de jogos, em Coimbra e noutros estádios, não há muitos anos, em que os adeptos de Guimarães eram pouquíssimos. A minha teoria é simples… O Guimarães é mais um clube que, após épocas de bons resultados, angariou uma massa associativa considerável. Quando se perde ou quando a coisa treme abandonam o barco como outros fazem, como os adeptos dos outros clubes fazem.

No fundo, o que defende é que singularidade de um clube é determinada pelo número de adeptos nos estádios. Se assim for, recomendo-lhe que adira à praga dos três grandes ou ao seu vizinho Braga (que, em matéria de apoio popular, se distancia dos demais, vitória incluído). No meu ver, o carácter ímpar de um clube remete para outras variáveis que encerrem um carácter perene e histórico que resista ao passar dos tempos, que consolide um clube como algo mais do que uma simples agremiação desportiva. Daqui a cinquenta anos ninguém vai saber quantos adeptos os clubes levavam a cada estádio…

Quanto à violência e provocações, já vi muita coisa com os meus olhos. Por outro lado, já ando atento ao futebol há muito tempo. É consensual que reside em Guimarães um conjunto de adeptos violentos, provocadores, que se escudam no (suposto, no caso de muitos deles) no seu amor ao clube para justificar a sua selvajaria. Reconheço em si, se quiser, a excepção que confirma a regra, uma vez que consegue, de forma correcta e assertiva, expor argumentos e visões. Fossem todos assim.

Relativamente ao Rei, reitero que o mesmo é de Portugal e que a relação de “amor” soa, em parte, àquilo que os brasileiros chamam “golpe do baú”. Atendendo a que o senhor se encontra sepultado em Coimbra, algo que orgulha imenso os conimbricenses, parece-me que aludir a um monopólio de admiração é excessivo.

Saudações.

F.B. disse...

Meu caro,

Acho que há duas ou três coisas que não percebeu. Talvez eu não me tenha conseguido explicar bem. Vamos por partes:

1º - A maioria dos adeptos vimaranenses foi para o Jamor de camioneta (gente que estava condicionada e que não podia vir para Guimarães quando quisesse). Os adeptos que saíram do estádio entre os 60/70 minutos foram adeptos que se deslocaram ao Jamor em viatura própria. Façamos contas: foram mais de 9000 adeptos ver o jogo de camioneta. Foram mais de 13000 no total. Se todos os adeptos que foram para o Jamor de automóvel abandonassem o estádio (o que não aconteceu) a maioria dos adeptos continuaria lá. Lê-se no Record: "70' - Alguns adeptos do Vitória Guimarães estão já a abandonar as bancadas do Estádio Nacional.." .

2º - "Guimarães é mais um clube que, após épocas de bons resultados, angariou uma massa associativa considerável." - Aqui só pode estar a brincar comigo. Infelizmente, ao contrário do que aconteceu com o Braga, o Vitória nunca teve "épocas de bons resultados" para angariar adeptos ou massa associativa. O Vitória teve apenas um momento alto nos anos 80 e 4 épocas seguidas na UEFA nos anos 90. Posso garantir-lhe - e espero que acredite em mim - que os adeptos do Vitória são numerosos e fervorosos desde os anos 30!! Se quiser depois deixo-lhe aqui relatos...

3º- Diz que se recorda de anos em que os adeptos do Vitória eram pouquíssimos. Eu recordo-me de anos em que, para além dos 3 grandes e do Braga, não se faziam notar nenhuns adeptos de outros clubes no estádio do Vitória. E recordo-lhe que há mais de 20 anos os vitorianos foram protagonistas daquela que julgo ser a maior deslocação de sempre na história do Campeonato Português.

4º - Quanto a violência posso dizer-lhe exactamente o mesmo que me disse só que ao contrário. Como lhe digo uma estupidez de parte a parte que, no caso do Vitória ganha outras proporções porque dos "pequenos" clubes é o que movimenta mais adeptos...Se fizer as contas em proporção do número de arruaceiros do Vitória ou da Académica temos empate.

5º- O Braga superou apenas este ano o Vitória em número de assistência em casa (não em deslocações). Vivi 3 anos em Braga (entre 2001 e 2004) e nessa altura o fenómeno Braga ainda não estava vivo. Lembro-me de um senhor bracarense "do Tribunal" do 1º de Maio (local onde se sentavam os verdadeiros adeptos do Braga) que me dizia que gostava de ter uma massa associativa como a dos espanhóis (leia-se vitorianos) porque éramos únicos e só tínhamos um clube (isto porque muitos adeptos do Braga eram adeptos do Benfica...). Felizmente, para bem do nosso Campeonato, o cenário mudou. Hoje o Braga é um clube com adeptos (como já foi no passado -anos 30 e 40 -) e espero que continue a ser...

D. Afonso Henriques -
Quando fala em "golpe do baú" está a ofender os milhares de vimaranenses e gentes da região de Guimarães (Fafe, Celorico, etc) que,nos finais do sec. XIX (e de diversas partes do Mundo) se cotizaram para, com o suor do seu rosto, angariarem fundos para fazerem os monumentos a D. Afonso Henriques que hoje pode ver em Guimarães e em Lisboa.

Acredito que Coimbra tenha orgulho em ser o túmulo de D. Afonso Henriques (mau seria se não tivesse). Mas admita que Guimarães sempre soube valorizar mais o nosso 1º Rei do que qualquer outra cidade do país. E o fenómeno não é de agora nem sequer do século XIX. Tem centenas de anos...Ou não fosse esta a cidade que um dia pariu um país...

Cumprimentos

psilipe disse...

Caro FB,

antes de mais, reitero a forma como consegue discutir ideias de forma correcta e assertiva. A excepção confirma a regra, realmente.

Penso ter percebido; simplesmente, há pontos que destaca com os quais não consigo concordar.

Facto: uma grande percentagem dos adeptos abandonou o barco. O meio de transporte ou os condicionamentos são irrelevantes. No fundo, fizeram o mesmo que os adeptos dos outros clubes normalmente fazem. Ganha-se, apoia-se e não se trabalha no dia seguinte. Perde-se, sai-se antes para não apanhar trânsito... Aquilo que se lê no Record não corresponde às imagens televisivas, claras.

A minha questão não é, nem nunca foi, defender que o Guimarães não tem uma massa adepta grande e que não apoiam o clube como poucos. Isso é factual e de salientar, apesar de nem sempre ter sido assim. Simplesmente, com o auxílio de factos objectivos, defendo que o endeusamento que é feito é exagerado, injusto e pouco digno para adeptos de outros clubes. É que o "amor" é incondicional, não se compadece com o meio de transporte utilizado para uma Final da Taça (sim... uma final da Taça!).

Parece-me indissociável que a rotulagem dos adeptos como únicos é recente. E advém de épocas de bons resultados, à excepção da época da descida. Naturalmente, e à semelhança de muitos outros clubes, se recuarmos a tempos idos encontramos massas de adeptos muito superiores e leais, numa dimensão considerável. Não, unicamente no Guimarães.

Quanto à violência, lamento mas não consigo concordar consigo, apesar de compreender a sua dificuldade em ver aquilo que é evidente e recorrente. Existem adeptos na Académica que me envergonham, e bastantes mais do que desejaria, mas faz uma comparação que é de um exagero atroz. Fico contente pela sua condenação de tais actos. Reitero que as agressões a pessoas que, simplesmente, ostentam mochilas com símbolo da Académica, na sua cidade, são de uma gravidade imensa… E não são situações singulares. Considero que, infelizmente, existem em Guimarães conjuntos de adeptos violentos que, no fundo, são responsáveis por esta evidência que, concordará, não sou só eu que constato.

Aquilo que quero é que existam cada vez mais pessoas que defendam os seus clubes e que, idealmente, saiam do território dos três grandes. Gostava que houvesse mais pessoas que defendessem os clubes das suas cidades. Gostava que o futebol fosse mais diversificado e rico. Apenas defendo que não pode, como é feito por muitos, ser arrogado ao Guimarães o rótulo de lutador contra esta tendência. É redutor fazê-lo e é uma injustiça para as pessoas que não cedem à ditadura dos três grandes. É que, acredite, há mesmo muita gente que é unicamente da Académica. E que, mais do que isso, se identifica com aquilo que ela representa. No entanto, se me perguntar se as últimas direcções têm fortalecido essa singularidade, respondo-lhe, com tristeza, que não. Mas aquilo que tem sido menos enfatizado é tão único que nunca se perderá.

Quanto ao Rei, eu nunca referi que vocês não defendem o mesmo, nem entendo ter faltado ao respeito a ninguém. Entenda a expressão como bem entender. Apenas reitero que o Rei é de todos e que, no fundo, quando não se faz uma identificação imediata do Rei com Guimarães isso é tomado como uma heresia e que o significado e simbolismo do Dom Afonso Henriques é de todo um país, com maior ênfase noutros locais significativos na sua vida e percurso.. Se a cidade pariu um país?... Mais palavras para quê.

Saudações.

F.B. disse...

Caro Psilipe,

Antes de mais permita-me também felicitá-lo pela forma civilizada como discute estes assuntos, coisa rara quando se discute futebol.

Não há muito mais a dizer sobre estes assuntos mas gostaria de deixar-lhe algumas informações (a que poderá ou não dar crédito) sobre o número de adeptos que saiu do Jamor, sobre a violência dos adeptos vitorianos e sobre a história da massa associativa do Vitória.

1º - Foi-me dito por um amigo que assistiu ao jogo no Jamor que o número de pessoas que abandonou o estádio estaria entre 1000/1500. Foram mais de 13000 vitorianos ao Jamor. Portanto, na pior das hipóteses 10% dos adeptos vitorianos abandonaram o Jamor depois dos 70min de jogo.

2º - Posso garantir-lhe que se um adepto do Vitória for ao Porto, a Coimbra a Braga ou a Lisboa em dia de jogo e leve um adereço que o identifique enquanto adepto do Vitória corre sérios riscos de ser agredido. Mais: garanto-lhe que o local onde essa possibilidade é menor é Lisboa.

3º- O Vitória é uma excepção (é único) no que diz respeito aos adeptos na mesma medida em que os vimaranenses são únicos em relação à sua cidade. E isto acontece desde sempre no clube e na cidade. Guimarães é uma cidade que se caracteriza pelo seu bairrismo. E se é verdade que o bairrismo traz algumas desvantagens o balanço é claramente positivo. É um bairrismo inclusivo (ou não fosse Guimarães "má mãe e boa madrasta" como diz o ditado), é um bairrismo que mobiliza as pessoas (para as questões da cidade, para a solidariedade e para o desporto) e é um bairrismo que já foi "pai" de grandes conquistas para a Guimarães e para a região. É deste bairrismo que são feitos os adeptos do Vitória e é isso que os mobiliza. Sempre foi assim. É por isso que os vitorianos se dizem "únicos", porque como vimaranenses assim o são.
Creio que pode achar que tudo isto são disparates, mas vou-lhe deixar um exemplo do nosso bairrismo e da nossa capacidade de mobilização que é bem ilustrativo do espírito que se vive em Guimarães.
- Quando em 1947 a Praça de Touros ardeu em Guimarães a 5 ou 6 dias das Festas Gualterianas (onde havia Tourada) tudo parecia perdido, mas sucedeu o seguinte: ouvia-se o carrilhão da torre da basílica de S. Pedro tocando vezes sem conta o "Hino da Cidade", galvanizando a população, coadjuvado pela cabina de som, através da qual se faziam apelos insistentes pedindo a colaboração de todos os vimaranenses para que, nos poucos dias que faltavam para as Festas Gualterianas, se levantasse uma nova Praça de Touros.
Dezenas e dezenas de veículos estiveram nestes cinco dias ao serviço de Guimarães. Pelos alto falantes da “Cabina de Som” pedia-se um carro para um serviço e ele aparecia imediatamente; pedia-se gasolina, ferramentas, um motor, qualquer coisa, enfim, e seria desnecessário pedir segunda vez...Os alto falantes trabalhavam todo o dia. Até um conhecido professor, pessoa de responsabilidade no meio, querendo também comparticipar do esforço heróico da gente da terra, se prontificou a substituir durante dois dias seguidos um locutor que estava já exausto..

Trabalharam centenas (talvez milhares) de pessoas desinteressadamente, sem receber dinheiro e em menos de 6 dias construiu-se uma nova Praça de Touros!!!!

É este o espírito que mobiliza os vimaranenses e os vitorianos e que dificilmente se encontra noutras paragens...

Cumprimentos

psilipe disse...

Caro F.B.,

vamos lá encerrar este colóquio... não porque o mesmo não é interessante, mas porque não conseguiremos avança muito mais.

O número que refere não encaixa com as imagens, nem com as clareiras que se viam nas bancadas na fase final do jogo. Houve, de facto, uma deserção, muito comentada por sinal em blogues, jornais desportivos e afins.

Percebo quando refere que, infelizmente, os actos de violência justificados pelo futebol são muitos e em várias proveniências. Em Coimbra não me consta que sejam tão recorrentes como em Guimarães. Nem me parece que os adeptos do Guimarães sejam alvos a abater e que vos seja dada toda essa importância. No entanto, o facto de essa hipótese traduz a quantidade de conflitos em que já estiverem envolvidos.

Quanto ao bairrismo, com que justifica a singularidade do seu clube, teço uma ou outra consideração. O exemplo que relata é, efectivamente, bastante interessante. Mas aquilo que me inquieta é a forma como esse bairrismo se traduz numa constante oposição a tudo e todos, em que a diferenciação é feita não pela defesa da singularidade, mas pela beligerância com todos os outros. O que não é, mesmo, a mesma coisa.

Por fim, não acho o Guimarães, de forma alguma, um clube único e singular. Acho-o, isso sim, um clube que tem conseguido mobilizar pessoas da sua região, de uma forma apreciável, nomeadamente face a sucessos desportivos. O que é importante, mas não chega para o aproximar de outros. E digo-lhe, mesmo que não acredite, entre uma Académica a lutar pela Europa desfasada da sua matriz e outra a lutar para não descer ligada aos seus princípios, mil vezes a segunda. E, sim, sei que as últimas direcções não têm conseguido nem uma coisa, nem outra. Mas isso já é outra história.

Saudações.

F.B. disse...

Meu caro,

Acho que será difícil estarmos de acordo... Quanto ao número de adeptos que saíram das bancadas não estou interessado no que dizem os blogues e os jornais desportivos que li não dizem que a maioria dos adeptos saiu do estádio (referem a saída de centenas de adeptos, não de milhares).

Quanto ao bairrismo e à beligerância dos vimaranenses também não posso estar de acordo. Defender o que é "nosso", seja o que for e onde for, é facilmente confundido com "oposição a tudo e todos". Ao contrário do que diz, o bairrismo vimaranense é feito por todos aqueles que amam Guimarães, sejam vimaranenses ou não. Guimarães acolhe sempre bem quem vem de fora (daí a história da má mãe e boa madrasta). Mas percebo porque pensa da forma como pensa. Há uma ideia feita sobre o bairrismo vimaranense. Vou-lhe dar um exemplo: noutro dia, num debate sobre a Capital Europeia da Cultura, um dos convidados (um conhecido jornalista), insinuava que quase que era necessário ser vimaranense para participar na vida cívica da cidade (isto a propósito dos defeitos e virtudes do bairrismo vimaranense). Nesse momento um outro convidado fez-lhe notar que dos 4 convidados para o debate só um tinha nascido em Guimarães (o jornalista estava convencido que era o único outsider), mas que ali todos se consideravam vimaranenses porque gostavam de Guimarães. Logo de seguida, o único vimaranense "de berço" na mesa, fez notar ao jornalista que o próprio Presidente da Câmara não é vimaranense, bem como algumas outras figuras importantes da vida local. Riso geral na sala...O jornalista ficou em silêncio...Isto tudo para dizer que o nosso bairrismo é feito com todos mas, como é óbvio, defendemos os nossos interesses da forma que for necessária (e creio que não há violência ou ameaça de violência nessa defesa desde a célebre questão brácaro-vimaranense de 1885 - não confundamos meia dúzia de cenas de chapada no futebol - que acontecem em todo o lado - com a mobilização de uma cidade).

Por último vou-lhe pedir que acredite em mim quando lhe digo que a mobilização e o fervor dos adeptos do vitória não é coisa recente nem resultado de sucessos desportivos. Faz parte do bairrismo vimaranense. É por isso que acontece o mesmo no vólei, andebol, natação, etc, etc...


Cumprimentos

RR disse...

Psilipe só agora descobri o seu post e digo que concordo em absoluto com ele. Na verdade naquele dia caiu um mito, o de que são únicos. São iguais a muitos outros não cabe na cabeça de ninguém abandonar a equipa à sua sorte saíndo em silêncio ou, pior, a insultar. Lembro-me de jogos da AAC, felizmente não muitos, em que perdemos por 6 e ficámos até ao fim e a apoiar. Os adeptos da casa até diziam que devíamos ser malucos porque quanto mais entravam mais nós apoiávamos a malta! Mas isso é para nós que preferimos estar na segunda divisão mas de cabeça erguida do que ficar na 1ª com jogadas sujas.
Quanto aos adeptos é inequivoco que em Guimarães há mais bairrismo em volta do clube local que cá. São cidades muito diferentes e em Coimbra o pessoal é mais comodista e mais calmo e embora tenham cartão de época não vão se estiver frio, ou calor ou se puder haver confusão. Em Coimbra só há confusão uma vez por ano. Com quem? Claro, com o Guimarães. Têm uma claque demasiado "nervosa" que é acompanhada pelo corpo de intervenção. Com nenhuma outra claque há tanto policiamento. No jogo deste ano para o campeonato mal saíram das camionetas partiram os vidros da farmácia e da óptica que há no lado sul do estádio. No interior houve cargas policiais e depois de perderem 3-1 foi CORTADO O TRÂNSITO para os meter fora dali e não provocarem mais problemas. Quando vieram cá para a Taça a claque ficou do lado Norte e mal saíram dos autocarros destruíram a esplanada da Pizzaria que fica em frente. Estava um pai com dois filhos nessa esplanada , com cachecois da AAC , os animais desenjaulados tiraram-lhes os ditos à bruta e incendiaram-nos. Chegou um policia de cacetete e mandou-os , à bastonada, para dentro do estádio. Esse pai foi fazer queixa e queria identificar os agressores mas a policia disse que só queria pô-los lá dentro e no fim tirá-los rapidamente. O pai estranhou que eles tenham entrado no estádio. O policia disse que dão menos trabalho assim...
Quando foi a 1ª mão da meia final em Guimarães estive a jantar num restaurante ao pé do estádio e o dono pediu que colocássemos os cachecois escondidos porque tinha medo que nos esperassem lá fora e houvesse danos no estabelecimento. Disse que há uma parte dos adeptos que são do piorio. Para sair no final fizeram um cordão com a força de intervenção. Eu disse que o meu carro estava do outro lado do estádio e o policia NÃO ME DEIXOU ir para lá disse que tinha de ir na protecção deles... tive de ir até às camionetas da claque e depois fui atrás da PSP até ao outro lado onde eles tinham as carrinhas e eu o meu carro. Nunca tinha tido uma escolta daquelas mas a verdade é que senti medo junto ao Soping onde deixara o carro.
Em todo o lado há gente violenta mas só em Guimarães temos a preocupação de andar em grupo e com os cachecois escondidos.
Este FB pertence concerteza a um outro nível de adeptos daquele clube mas não é neste tipo de adepto que se pensa quando se vê um adepto do Guimarães. A claque dele chama-se INSANE, pasme-se, têm ainda uma tarja que diz CIGANOS, tudo gente recomendável.
Já fui a dezenas de estádios neste país. Só tive problemas em Guimarães, Felgueiras, Porto no Vidal Pinheiro, Leça e Antas, Alcobaça, Celorico da Beira. No resto tudo pacifico. Espero que se retirem os animais dos estádios para que os adeptos que não se revêem neste futebol possam voltar.

psilipe disse...

Caro Rui, antes de mais seja bem vindo à minha sala de estar na Internet... Concordo consigo, naturalmente, apesar de reconhecer civismo e capacidade argumentativa no FB. Há coisas em que o Guimarães nunca se aproximará da Académica e isso ninguém nos tira... Esperemos que consigamos ficar à frente deles este ano. Isso sim seria de valor! Aceite um abraço académico!

psilipe disse...

Caro F.B., isso aí por Guimarães é só tiros nos pés, certo?

POVO MAIS FORTE. disse...

PORTUGAL É GUIMARÃES, o resto são conquistas.

psilipe disse...

Caríssimo, esse ego está a mil à hora...