segunda-feira, 16 de maio de 2011

Grande Sanatório e Pavilhão de Cirurgia - Caramulo

Finalizando a saga do Caramulo, em que só tenho que agradecer à patroa a sua pachorra com esta minha pancada por locais esquecidos, aqui ficam alguns retratos do Grande Sanatório e do Pavilhão de Cirurgia.

O Grande Sanatório Dr. Jerónimo Lacerda, inicialmente conhecido por Grande Hotel, foi construído em 1920, constituindo a primeira grande estrutura sanatorial, devendo o seu nome ao ideólogo da Estância. Encontra-se encerrado, aguardando um investimento privado que lhe devolva a dignidade dos tempos áureos.







O Pavilhão de Cirurgia é outra estrutura existente no Caramulo, tendo assegurado as funções cirúrgicas, inicialmente asseguradas no Grande Sanatório. As intervenções cirúrgicas eram comuns na tuberculose, o que levou à existência de uma grande actividade cirúrgica no Caramulo, protagonizadas, com maior ou menor eficácia, por vários médicos. A Estância foi, inclusivamente, visitada por vários especialistas de renome, nas décadas de 30, 40 e 50...



14 comentários:

Helford disse...

Sempre me quis informar acerca do que seriam aqueles recipientes em forma de "oito", que surgem alinhados ao pé de um cântaro de água, todos eles feitos de ferro esmaltado branco, muito utilizado em utensílios clínicos que era necessário lavar e desinfectar com frequência...
O patamar onde eles se encontram é dentro do "Grande Sanatório", estou certo?

O chamado "Pavilhão Cirúrgico" era, provavelmente, o mais recente de todos os sanatórios que por lá existiam. Tenho ideia de que se chamava, inicialmente, de "Novo Sanatório".
Foi uma ideia bem concebida o separar a zona onde se efectuavam as intervenções cirúrgicas dos outros espaços onde os doentes convalesciam. Seria uma forma de não os incomodar tanto com um dos aspectos menos agradáveis do, então, complicado processo dito de "cura" da tuberculose.
As intervenções cirúrgicas no tratamento da tuberculose eram uma solução algo radical de resolver os casos que não pareciam responder aos tratamentos convencionais. Eram operações muito complicadas e eram, talvez, as intervenções cirúrgicas com maior taxa de mortalidade. Tanto no decorrer das mesmas, como no pós-operatório.
Muitos dos que lhes sobreviveram, não ficavam mais no mesmo estado físico em que se encontrariam quando a doença os atingiu. Perdiam-se partes do corpo para salvar, dentro do possível, todo o resto do organismo... Tal como quando se amputam membros para não alastrar a gangrena...
Ainda existe a memória das radiografias daqueles que eram sujeitos às intervenções mais radicais.

Foi pena não ter visitado mais alguns dos outros.

É verdade que uma parte substancial foi recuperada para outras funções, tal como o Sanatório Sameiro. Mas convém não esquecer os outros que ainda estão abandonados e poderão desaparecer a qualquer momento ou ficar pior do que estão.

Um dos que ainda, talvez, esteja visitável é o "Sanatório Central". Situa-se bem perto do centro da vila do Caramulo, um pouco mais acima da zona do café que faz esquina. Da última vez que lá estive (2004), e não creio que lhe tenham feito alguma alteração de relevo, o seu aspecto era de um edifício côr-de-rosa, de formato longo, com o telhado integral, com um aspecto de edifício de habitação vulgar, apenas denunciado pelas galerias abertas na sua fachada posterior. Acho que era um sanatório particular...

Havia também, espalhados pela estância, uma série de vivendas ou chalés.

Noutros pontos do país existem outros locais do género que vale a pena visitar.

psilipe disse...

Helford,

a foto dos recipientes é mesmo do Grande Sanatório, que não pude visitar porque estava fechado e, ainda bem, melhor protegido da degradação e vandalismo.

O Pavilhão de Cirurgia é mesmo uma das estruturas mais recentes, uma vez que nos tempos iniciais da estância as operações decorriam no Grande Sanatório. Os procedimentos cirúrgicos eram, realmente, uma assombração para os doentes, tendo havido mesmo conflitos quando os doentes, conscientes da elevada taxa de mortalidade, se recusavam a ser operados. Na Estância houve bastantes procedimentos cirúrgicos, melhorados com as aprendizagens com alguns dos melhores especialistas europeus.

Outros sanatórios foram recuperados para utilizações diversas (casas particulares, lares, hóteis,...), mas é assustador a forma como a grande maioria foram abandonados. Tal entristece e enfurece, ainda mais, no caso do Sanatório Infantil, um dos que é propriedade do Estado Português.

Quanto ao Sanatório Central, não me lembro de "dar" com ele. No entanto, só enriqueci o meu conhecimento sobre o Caramulo depois de lá ter estado, lendo livros e estudando aquilo que encontrei sobre o assunto. Quando decidi visitá-lo conhecia muito pouco da história dos sanatórios.

Espero voltar mal possa, para explorar com outra consciência a Estância, nomeadamente o Pavilhão de Cirurgia, em que não consegui entrar.

Deixo-lhe os links de outros posts onde abordo a temática da Estância Sanatorial do Caramulo:

http://geometriasvariaveis.blogspot.com/2011/05/lugares-esquecidos-sanatorio-santa.html

http://geometriasvariaveis.blogspot.com/2011/05/visita-ao-sanatorio-infantil-do.html

http://geometriasvariaveis.blogspot.com/2011/05/lugares-esquecidos-caramulo.html

Helford disse...

É muito bom que haja gente interessada numa temática destas que teve muito mais importância, do que hoje se julga, na história deste país e também de outros.

Os sanatórios são o símbolo de uma época que ainda faz parte do imaginário de muita gente com mais idade. As gerações mais novas nunca tiveram a real noção do que era esta realidade feita de angústias e muitos dramas, muitas vezes reais e com o desfecho temido.
Muitas famílias tiveram, algures no seu passado, um ou mais casos

A reacção de quem viveu ou presenciou de perto este contexto tão peculiar foi, obviamente, deitar "para trás das costas" estas memórias, mal a situação começou a melhorar, sobretudo a partir do fim dos anos 50. Não eram assuntos lá muito agradáveis de recordar...

Eis porque as gerações mais novas nunca compreenderam (nem compreenderão) a verdadeira dimensão deste drama e a palavra "tuberculose" parece algo afastado do seu vocabulário corrente. É,no entanto, um bom sinal quando um flagelo destes deixa de assombrar as pessoas! É sinal que alguma coisa se conseguiu ao fim de tanto tempo de luta contra esta doença!!!

Não sei em que zona do país o senhor reside, mas posso-lhe, sempre que me der tempo, dar-lhe aqui algumas pistas em relação a outros desses tais locais para onde se ia e de onde muitas vezes não se voltava...

Um dos mais curiosos e mais enigmáticos era o Sanatório Montalto. Chamo-lhe enigmático pois até agora, não vi nenhuma foto desse espaço onde ele não estivesse num tão avançado estado de ruína, vandalismo e sujidade, como hoje se encontra.

Se reside na zona metropolitana do Porto, não vai ter grande dificuldade em saber a sua localização.

O Sanatório Montalto também é conhecido, na actualidade, por Sanatório de Valongo, por ser a localidade que lhe fica mais próxima.

Mais concretamente, este grande edifício, ou o que dele resta, situa-se na mesma latitude da cidade do Porto, só que mais para o interior.
Situa-se na chamada Serra de S.Justa, num sítio que também é designado de Serra de Valongo. É delimitada pelas localidades de Valongo, S. Pedro da Cova e Gondomar.

Por questões pessoais e de tempo, vou retomar este assunto num comentário mais adiante.

Helford disse...

Retomando o fio à meada, o Sanatório a que agora me pretendo referir, o "Montalto" ou "de Valongo", terá sido, talvez, o último a ser inaugurado em Portugal e, principalmente, no mundo ocidental. Foi em finais de 1958, num tempo em que os sanatórios já tinham entrado na sua lenta fase de decadência. No entanto, é preciso não esquecer que, ainda nesse tempo, os casos de tuberculose que existiam no país, sobretudo nas classes mais desfavorecidas, ainda eram suficientes para manter uma parte importante dos estabelecimentos sanatoriais em funcionamento. No resto da Europa, a doença regredia a um ritmo surpreendente. Mais uma vez, Portugal estava relativamente atrasado relativamente ao conjunto dos ditos "países" desenvolvidos.

O que ainda torna este sanatório (Montalto) mais peculiar, é o facto de ter estado em funcionamento muito menos tempo do que aquele que levou a ficar concluído e a receber os primeiros doentes.

Basta ver que a "primeira pedra" havia sido lançada em... 1932!!!
Como eu referi atrás, só no final de 1958 é que este estabelecimento clínico recebeu os primeiros doentes...
Segundo o pouco que pude averiguar, vi situado o seu encerramento "por volta de 1970". Talvez se tenha mantido aberto até 1974/1975, mas daqui não passou, como aconteceu com muitos por esse país fora.

Olhando para a construção e para sua organização interna, o Sanatório Montalto teria sido um projecto ambicioso e pioneiro para o começo dos anos 1930.

Enquadrava-se mesmo no que de mais moderno e inovador havia nos países desenvolvidos nesse tempo. A sua grande dimensão, associada a um cubismo despojado de elementos decorativos, fazia lembrar o grande sanatório de Paimio, na Finlândia, obra do arquitecto Alvar Aalto.

O grande custo da obra, associado a todo um conjunto de vicissitudes, levou a que o andamento das obras parasse diversas vezes e, assim, se atrasasse muito.

Desta forma, quando foi feita a sua inauguração em 1958, o projecto estava desactualizado e é bem possível que tenha sofrido algumas alterações num ou noutro aspecto.

De referir que este projecto, para além do edifício central, incluía vários anexos, nomeadamente uma capela e uma casa mortuária.

Pormenor curioso, é o facto de este edifício, como era normal em todos os outros edifícios clínicos, não estar rodeado por uma cerca delimitadora. Pode ser que tenha tido, mas as fotografias actuais não mostram qualquer vestígio disso.

Quando se encerrou, começou a ser alvo de saques e vandalismo, o que complicou muito qualquer tentativa de o utilizar para qualquer outra nova função. Associado a este vício de danificar propriedades aparentemente devolutas, há que incluir a degradação irreversível de todo aquele espaço abandonado.

Nos últimos anos, tem sido utilizado para a prática do chamado "paintball" e também como cenário de trabalhos fotográficos e artísticos (muito bons por sinal!).
Não é, pelo que tenho ouvido, um espaço onde seja aconselhado ir sozinho, pois também por lá têm ocorrido coisas à margem da lei, como acontece em edifícios isolados em espaços sem vigilância.

Seria algo interessante tentar-se descobrir algo mais sobre este Sanatório Montalto, sobretudo dos tempos em que funcionou em pleno. A internet só mostra imagens do estado deplorável em que ele se encontra desde há uns anos para cá.

Helford disse...

Ainda acerca do Sanatório Montalto, vale a pena referir que, tal como o edifício e seus anexos, também a zona circundante, em termos naturais e paisagísticos se descaracterizou e deteriorou muito. Neste caso a principal causa adveio desse flagelo anual que delapida todos os anos muito do nosso património natural: os incêndios.
Aliás, já li algures que os edifícios deste sanatório, a dada altura, também sofreram por tabela os efeitos destruidores dos fogos.
As suas ruínas surgem inseridas numa zona de média altitude quase desprovida de vegetação arbórea, o que, decerto não terá muito a ver com o aspecto original deste local quando ele foi escolhido para albergar uma instituição de saúde que exigia requisitos ambientais e naturais muito especiais.

Não sei se isto ajudará a compreender um pouco melhor a degradação e desvalorização de toda aquela zona, mas, quase por acidente, ao ler uns jornais datados de Julho de 1981, dei de caras com uma notícia acerca da Serra de Santa Justa, que creio ser a zona onde o Sanatório Montalto havia funcionado.
Nesta notícia dizia-se que a Serra de Santa Justa, por aquela altura, havia sido destruída por um incêndio, em quase toda a sua extensão. Dizia também que, antes do incêndio, existia por ali uma vasta área de "bons pinheiros". Provavelmente, a Serra de Santa Justa foi, outrora, uma zona bem arborizada...

Para quem não se lembra, o Verão de 1981 foi muito quente e teve uma forte seca associada, o que fez com que tivesse sido o Verão com mais e maiores incêndios até então. Por exemplo, foi neste mesmo mês de Julho de 1981 que a Mata do Buçaco esteve ameaçada de arder, na sequência de uma vaga anormal de incêndios na zona circundante e que explicam o porquê de tanto eucliptal nas zonas vizinhas à Serra do Buçaco.

A Serra de Santa Justa terá também sofrido, então, a sua primeira e destruidora "prova de fogo".
Provavelmente, terá sido a partir deste trágico evento que todo aquele espaço passou a ter muito do aspecto ermo que actualmente apresenta e não parece tão adequado a albergar instalações sanatoriais.

psilipe disse...

Caro Helford,

gostei muito de ler o que escreveu e de aprender consigo. Quando o tempo o permitir, procurarei partilhar algumas reflexões consigo. Um abraço.

psilipe disse...

Caro Helford,

O meu interesse pelos sanatórios, e pela(s) sua(s) história(s), aumentou com a minha visita ao Caramulo, depois de, na semana anterior, em férias na Serra da Estrela, ter admirado o Sanatório dos Ferroviários na Covilhã. Foram realmente estruturas que traduzem, até pela sua imponência, o impacto que a tuberculose teve na nossa sociedade, à semelhança de outros países.
Tal como diz, os sanatórios foram a marca visível de um fenómeno que significou morte, afastamento familiar e sofrimento para muitas pessoas, há não muito tempo atrás. Os Sanatórios Infantis, como o que existe no Caramulo, são o expoente desse processo, tendo provocado grandes situações de desvinculação afectiva e despersonalização, que minou o desenvolvimento de muitas crianças.

Realmente, a luta contra a doença, ainda que não totalmente, foi vencida, mas choca-me que os sanatórios sejam votados ao abandono, como se a sua existência fosse o sinal de um país menos evoluído, e não como um país que vivia os sinais dos seus próprios tempos. Não será estranho a esse abandono, o contexto salazarista em que muitos surgiram, num esforço pós-moderno de reconstrução da realidade que, no entanto, penaliza a memória e a história, de forma irrecuperável.

O Sanatório de Valongo encontra-se retratado nalguns sites, apesar de a sua história ser reduzidamente abordada. À sua semelhança, nunca vi fotos do seu estado inicial, sem os efeitos do abandono e vandalismo. Agradeço-lhe as informações que deixou, que muito me interessam. De facto, gostava de ter tempo para mais investigações sobre o mundo dos sanatórios, da sua história e da forma como evoluíram até à sua extinção. É que, pelo que pude perceber, a literatura sobre os sanatórios é reduzida, o que para mim é incompreensível. Sobre o Caramulo, existem dois livros interessantes, um deles escrito por um médico filho de um dos médicos residentes da Estância. Vale a pena.

Como me encontro a residir nos Açores, é difícil realizar mais investigações, mas é um projecto que não irei esquecer. Há muita história à espera de ser contada, até em homenagem àqueles que, desafortunadamente, a protagonizaram…

Por fim, o incêndio que fala no Buçaco é-me perfeitamente familiar, uma vez que tendo família da zona de Anadia, muitas propriedades se perderam naquele que ainda hoje é lembrado como o grande incêndio…

Um abraço e sempre que quiser conte comigo para falar destas coisas…

linda disse...

Eu nasci no Caramulo e sei bem o que era aquele lugar; morte e vida jogavam perto todos os dias. Tive colegas de escola filhas de pais tuberculosos. Frequentei o Sanatório Infantil, pois era lá que era o centro de catequese. Não tinha tuberculosos na família. Como a maioria dos nascidos naquela terra não tinha medo da doença e não a apanhei, convivendo diariamente com todos. Enfim, foram anos de muita gente de raças e culturas sociais e políticas diferentes até à degradação e fecho. Muito há ainda para contar.

psilipe disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
psilipe disse...

Linda,

seja bem vinda a esta sala de estar na Internet...

Gostei de ler o que escreveu, uma vez que me interrogo imenso sobre como seria a vivência do Caramulo quando a Estância Sanatorial ainda se encontrava em funcionamento. As linhas que aqui deixou obrigaram-me a reflectir, nomeadamente quando refere a relação quotidiana entre vida e morte, entre doença e saúde. Não deixa de ser sintomática, e simbolicamente rica, a ideia de construir um jardim natural para separação das "águas"... Concordo consigo quando diz que ainda há muitas histórias para contar sobre o Caramulo, sendo, para mim, algo chocante a forma como tudo o que se passou em mais de quatro décadas não merece mais atenção num país tão pequeno. Merecia melhor atenção e registo histórico. E, para tal, o tempo urge... Saudações.

Ana disse...

Nasci e vivi 18 anos no Caramulo, da grande Vila que era tenho recordações de criança como ir ao cinema, ao teatro no "Sanatório Salazar" (agora Hotel 5 estrelas) sitio onde eram realizadas as festas escolares. Viver no Caramulo era com viver agora numa cidade. Porém os sanatórios em si começaram aos poucos e poucos a ficar abandonados e agora devolutos.Com eles todo o desenvolvimento e emprego.
Conheci por dentro o grande sanatório com os seus elevadores de ferro que cheguei a subir uma vez para ir a uma consulta. Este depois da estância sanatorial ter sido desativada servia de local para consultas de dentistas, médicos especialistas, tinha uma farmácia lavandaria etc. Lembro de me terem mandado ir para trás de uma grande máquina completamente nua que o meu irmão me disse depois, a torçar de mim, que me tinha visto os ossos todos. Nesse sanatório ainda fui com a minha mãe ao dentista, devia ter 5 ou 6 anos e lembro-me que mais parecia uma carnificina, a solução para todos os males dos dentes era arrancar; até hoje preservo o frio na barriga quando vou ao dentista. A parte lateral do grande sanatório tem uma ala onde em frente era o cinema e descendo as escadas se encontravam salas de convivio e jogos com as paredes revestidas de azulejo floreado azul . Aqui existia um enorme numero de corredores que ligavam ao sanatório. A avó de uma amiga de infância trabalhava lá na lavandaria e aproveitávamos sempre para conhecer mais do edificio. Mais tarde já completamente abandonado era o sitio preferido de aventura com os amigos e o meu irmão. O seu interior estava cheio de passagens escondidas pareciam secretas que davam acesso a zonas exclusivas para os enfermeiros e médicos que ao, contrário das zonas dos doentes, eram revestidas a alcatifas que pareciam de veludo . Na altura que partíamos para estas aventuras já o espaço servia de abrigo para gatos e cães abandonados mas apesar disso ainda se encontravam recheados de instrumentos cirúrgicos e camas com colchoes manchados a relembrar o que por ali se fez.
Mas a aventura nos sanatórios que mais me impressionou foi quando fui com os amigos do meu irmão ao "sanatório do Salazar" ... foi de cortar a respiração. Este era o que tinha mais andares e era vigiado pela GNR, ninguém podia entrar. Um Domingo à tarde entramos às escondidas e ficamos extasiamos com a sua grandeza. No Hall de entrada estava uma grande escadaria em madeira com tapete vermelho e esta escada dava acesso a todos os pisos, subimos piso a piso verificamos que em tempos teve elevadores mas deles só os fossos vazios exitiam. Cada piso tinha uma espécie de sala que tinha uns pequenos buracos que iam dar ao piso soterrâneo. Era enorme e tinha quartos privativos que tinham uma vista fantástica pelo vale até a Serra de Estrela a mesma vista preservada pelo Hotel do Caramulo. Curiosos para saber onde iam dar os pequenos buracos descemos até ao piso debaixo de terra e ficamos muito assustados… os buracos iam dar àquilo a chegamos à conclusão ser a lavandaria do Hotel mas o que nos assustou estava no corredor ao lado. Vimos compartimentos com grades que pareciam celas de prisão correntes e como eram pequenos e nos tinham contados várias histórias da Pide que prendiam e torturavam pessoas e fugimos dali para fora com medo de todos os barulhos que o vento fazia a passar mas que para nós naquela altura eram os barulhos dos muitos que por ali poderiam ter sido torturados. Nunca mais lá voltamos por medo e porque toda a estrutura de madeira havia colapsado.

psilipe disse...

Cara Ana, muito obrigado pela sua partilha. Como interessado que sou na história do Caramulo, foi muito bom ler as linhas que aqui deixou. O Caramulo, e os seus sanatórios, estão mesmo recheados de histórias para contar... Cumprimentos.

Luis R disse...

Boa noite!
Antes de mais quero felicitar as pessoas que tal como eu se intereçam pelo Caramulo, enquanto Estância Sanatorial.
Gostava que algo fosse feito em prol do "salvamento" de todas aquelas estruturas que nobremente e com a impunência que ainda lhes resta, continuam a sua longa espéra. Mas enquanto isso não acontece, vamos nós falando e escrevendo as nossas vivências e o que sabemos desta bela Vila do Caramulo. Gostei de ler os vários testemunhos que aqui foram deixados, especialmente os que relatam situações por lá vividas. Seria muito importante que outras pessoas que por lá passaram, tendo sido como doentes ou funcionários quisessem partilhar essas suas historias. Gostei do que disse Linda e da forma figurada como Ana contou, espectacular. Obrigado.

psilipe disse...

Caro Luis R,

as suas palavras fazem muito sentido. O propósito das minhas publicações sobre o Caramulo é criar uma oportunidade de discussão daquilo que foi a Estância Sanatorial e do que sobra da mesma, seja no edificado, seja no campo das memórias (muitas, tantas por escrever).

Muito do que está aqui escrito, por muitos que viveram o Caramulo no seus tempos de glória, seria bem interessante que pudesse figurar numa publicação que recuperasse o Caramulo do ostracismo, deixando a História mais preenchida.

Há demasiado pouco escrito sobre a Estância Sanatorial e, como já disse, o tempo urge.

Aceite os meus cumprimentos.