quarta-feira, 11 de maio de 2011

Lugares esquecidos: Caramulo

Sempre me irritou a facilidade como conhecemos factos e aspectos de outros países, sem conhecermos, por vezes, coisas básicas do nosso próprio País. Bem sei que os tempos mais recentes não são dados a grandes nacionalismos, mas é impressionante como esquecemos/optamos por não saber ou conhecer aspectos do nosso Portugal.

Recentemente, aumentei o meu conhecimento sobre a vila do Caramulo, que já queria visitar pelo Museu do Automóvel. A preparar a visita deparei-me com a relação do Caramulo com o esforço de tratamento da tiberculose, uma autêntica praga em Portugal durante grande parte do século XX. E reparei que desconhecia que no Caramulo funcionou umas principais estâncias de tratamento da tuberculose da Europa, que chegaram a existir vinte sanatórios (a palavra arrepia um pouco...) em funcionamento com um movimento de mais de dois mil doentes e que, no fundo, a própria vila do Caramulo se desenvolve à volta da "indústria" sanatorial.

A Estância Sanatorial, inicialmente designada Estância Climatérica, foi criada em 1920 por Jerónimo Lacerda, médico de Tondela, que procurava criar uma oportunidade de tratamento, e de negócio, para a tuberculose. A inexistência de tratamentos eficazes levava a que emergisse uma crença nas potencialidades do repouso e da exposição aos bons ares da montanha na redução do impacto da tuberculose, que pelo seu elevado grau de contágio era extremamente temida, tendo ceifado a vida  a milhares de portugueses.

Surge, assim, no Caramulo, em Paredes de Guardão, até então um local sem expressão, um conjunto de estruturas especializadas na doença, com serviços médicos especializados e com uma estrutura comunitária relevante, com serviços e condições, nalguns casos inexistentes em Portugal, na altura. De facto, literalmente no meio do nada, surgiram edifícios, postos de correios, represas hidro-eléctricas, redes de esgotos, esquadras policiais ou escolas para servir os doentes e aqueles que trabalhavam na Estância. Ao longo do tempo, até ao aparecimento das terapêuticas eficazes da tuberculos que dispensavam o isolamento dos doentes, passou-se de uma estrutura (inicialmente conhecida como Grande Hotel) para um total de vinte sanatórios (muitos dele arquitectonicamente interessantes) e para um conjunto enorme de chalés, casas de saúde e residências privadas destinadas ao tratamento e convalescença de tuberculosos, com uma equipa médica de topo com mais de vinte médicos (residentes e não-residentes). Indo de férias para a zona, tornou-se obrigatório visitar estes locais, algo que foi muito marcante.

Depois de visitar os sanatórios, muitos dos quais absoluta ruína, em mais um crime contra a memória colectiva, pude perceber mais algumas coisas... As relações políticas dos responsáveis da Estância com o Estado Novo, a forma como o Caramulo se constituiu quase como um enclave em Portugal nos tempos da outra senhora e, igualmente, a forma como a memória foi rapidamente apagada.

De facto, dos vários sanatórios que existiram em Portugal, muitos foram completamente abandonados pelo Estado e encontram-se num estado lastimável, à mercê do vandalismo e de práticas anormais (é impressionante o fascínio por estes locais pelo pessoal versado nas cenas paranormais...). É certo que muitos foram reconvertidos, mas muitos ficaram ao abandono, esquecidos por uma memória demasiado curta e que, num assomo de pseudo-modernidade, esquece o flagelo que constituiu a tuberculose até à década de 70, em Portugal.

Quem gostar de lugares esquecidos e de perceber a sua história e apreciar aumentar o conhecimento sobre o período do Estado Novo, tem numa visita e numas leituras sobre o Caramulo muito com que se entreter...



Busto descerrado em homenagem ao médico Jerónimo Lacerda que foi o ideólogo da Estância do Caramulo e, igualmente, a pessoa que mais lucrou, a todos os níveis, com a mesma, nomeadamente capitalizando as suas relações preferenciais com Oliveira Salazar.



Entrada do Caramulo, anunciando a penetração na Estância Sanatorial, criada em 1920.

1 comentário:

Manuela Cunha disse...

Não conhecia. É um edifício enorme, pena o estado de degradação.