sábado, 11 de fevereiro de 2012

As dores do(s) amputado(s)...

Bem sei que já publiquei este texto, aqui na minha sala de estar na Internet, no mês de Outubro. Bem sei... Mas também sei que tenho pensado muito nele e no seu conteúdo e que, por estranho que pareça, vou-me cruzando com pessoas que o leram num dos jornais aqui da Ilha e que com ele construíram uma interessante relação de identificação. Por tudo isso, apeteceu-me recauchutá-lo. Hoje apetece-me chamá-lo "As dores do(s) amputado(s)...".

O ano de 2011 fez-me chegar às três dezenas de anos. Sou casado e tenho uma filha de 22 meses. A única dívida que temos, cá em casa, corresponde a uma prestação mensal inferior a 8 por cento do nosso rendimento médio, uma vez que sempre fugimos ao crédito fácil, mesmo nas alturas iniciais (apertadas) da nossa saga terceirense. O único verdadeiro luxo que cometemos, nos últimos tempos, foi a compra de um carro novo (o nosso MíTico carro!), sobre o qual conseguimos não pagar qualquer prestação mensal e que correspondia a um sonho antigo nosso. Viajamos quando podemos, comparamos preços no supermercado, aceleramos menos para poupar gasóleo (ok... mais a patroa, esta parte), apagamos luzes desnecessárias em casa, ensinamos hábitos de poupança à miúda, tentamos poupar todos os meses para uma qualquer eventualidade e resistimos a gastos apetecíveis, mesmo quando a conta bancária o permitiria. A vontade de procurar um futuro comum que permitisse constituir uma família, difícil de vislumbrar em Coimbra, levou-nos a sair da terra que amamos para uma terra distante e desconhecida, que apropriámos como nossa, mas que, pela inexorável insularidade, nos obriga a inúmeros sacrifícios pessoais, académicos e profissionais, numa opção de vida que poucos aceitam assumir por medo ou simples comodismo. Temos procurado aproveitar as hipóteses de trabalho que nos surgem e procurado aproveitar outras formas de rendimento mensal que conseguimos capitalizar. Consigo afirmar, com um grau considerável de certeza, que não cometemos, no passado ou no presente, nenhum dos pecados que levaram a todo este cenário galopante de caos económico-financeiro e de convulsão social, quer na nossa relação com o dinheiro, quer com a sociedade, quer com o trabalho. Contribuímos para o índice de natalidade e, mais importante que isso, para o índice de felicidade do país ao enriquecê-lo com a Mariana. É pacífico para mim que contribuímos para que a economia nacional evoluísse e para que a nossa jovem democracia se consolidasse. Leio os jornais de hoje e acompanho o movimento dos indignados e, constatando as imagens das manifestações no dia de hoje, percebo que é suposto que, enquanto jovem adulto, pai de uma bebé, me sinta indignado, enfurecido contra tudo e todos. Não me sinto. Sinto-me amorfo, sinto-me preocupado, sinto-me, mais do que indignado, amputado. Amputado de uma perspectiva de futuro sólida, amputado do sentido de esperança nesta coisa chamada Portugal, amputado de um sentimento de doce tranquilidade ao contemplar o futuro e o crescimento da Mariana. Amputado de uma perspectiva agradável do presente e do futuro para a qual fiz a minha parte e que é posta em causa pela voracidade daquilo que se anuncia publicamente (com rostos fechados e soturnos que mimetizem um dos patrimónios nacionais, a culpa, tão socialmente aceite), pelos buracos que se descobrem, pelas coisas que “afinal” existem no emaranhado das contas de um país gerido como uma mercearia de bairro. Fiz, temos feito a nossa parte. O que não me, nos impede de nos vermos ancorados a um presente e futuro dependente de decisões draconianas que alimentam uma austeridade autofágica em quem ninguém acredita, que cada vez menos é contemplada como uma solução, cada vez mais vista como um mero paliativo para um enfermo sofredor e terminal.

Para quê? Porquê? Who knows?...

Tenho dito.

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