terça-feira, 11 de setembro de 2012

Os fantasmas da Nação e da Região...


Há coisa de um ano, na ressaca das manifestações dos Indignados, psilipe escreveu um texto (que pode ser encontrado aqui) em que procurava traduzir o seu estado de alma, em função de toda a convulsão e efervescência social que emergiam na altura. Nesse texto, publicado num dos jornais do burgo terceirense, discorria-se sobre a forma como psilipe, sentindo que sempre procurara fazer esforços por responder ao quotidiano instável e difícil com um mínimo de responsabilidade, exequibilidade orçamental e capacidade de trabalho, se sentia perante um país gerido como uma autêntica mercearia de bairro. psilipe sentia-se  mais do que indignado,  sentia-se amputado. Amputado da possibilidade de sentir esperança no seu país, amputado de poder olhar para o futuro de Portugal e dos Açores com a tranquilidade que a sua condição de jovem pai lhe deveria permitir. Um ano passou e tal sentimento parece ter sofrido alterações. Tal como nas pessoas que sofrem amputações, e que continuam a sentir a parte do corpo que lhes foi subtraída, sentindo dores e comichões como se nada tivesse acontecido, psilipe continuou a sentir esperança e confiança no país onde veio ao mundo e na Região que escolheu para viver, trabalhar e constituir família. Tal como as pessoas sentem o membro fantasma, aquele que já não possuem após a amputação, psilipe tem convivido com a sua nação fantasma, com a sua região fantasma. Nos últimos dias, face à evolução voraz da saga da austeridade, psilipe confronta-se, de forma contundente, com o carácter fantasmagórico e amputado de coisas que julgava, ainda, serem reais e passíveis de sustentar a sua crença. Ao constatar o autêntico genocídio moral perpetrado por aqueles que guiam o País, e que mais o deviam defender, psilipe atingiu os limites para a negação, para o evitamento da realidade. Nunca passou pela sua cabeça que o facto de ser um jovem trabalhador, com família, uma filha pequena, um emprego dependente estável na função pública, uma actividade independente de sucesso razoável e uma perene vontade de fazer mais o tornasse um alvo a abater para o seu Estado. Nunca lhe passou pela cabeça ser vítima preferencial de tal genocídio estatal cujo limite insiste em ser constantemente retraçado, sem que qualquer limite seja, sequer, vislumbrado. Constata que parte do seu destino, que parte do valor do seu trabalho está entregue a conjunturas politicas, nacionais e regionais, em que se confundem prioridades, em que se trucidam perspectivas, em que a participação política é prostituída por uma pavloviana relação partidária de tantos, em que a cidadania se exerce em assomos sazonais na dependência dos períodos eleitorais, em que os mandatários de campanha se comportam como candidatos, em que os candidatos se encontram reféns de uma anacrónica, irresponsável e nojenta prometite, em que ao despedimento de uns se responde com a imposição de “contratos atípicos” ou oportunas prestações de serviços a outros, em que aqueles que mais deviam não conseguem, não estão interessados, não são capazes de se desviarem de um jogo de egos que impede a re-implantação cirúrgica daquilo que tem sido amputado, condenando-nos a já nem sequer conseguirmos sentir o País, a Região fantasma. Condenando-nos a que olhar para o futuro com esperança, confiança e optimismo seja um exercício de puro psicoticismo. Canalhas. Para quando uma brigada de Caça-Fantasmas, que capture os fantasmas de que estamos acometidos, sublimando, corrigindo as amputações que nos são impostas... 

E depois quer-se que as pessoas assistam a tudo de forma tranquila?... Crentes numa fantasia de serenidade do povo. Começam a haver sinais.

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