quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Quem tem medo...


A propósito das minhas vidas no CIPP, o meu humilde negócio, escrevi um texto sobre os medos infantis, a que chamei "Quem tem medo..."

O saber popular ensina-nos que a solução para o medo é a adopção de um animal doméstico da espécie Canis Lupus Familiaris, ou seja, um simpático canídeo. Sabemos todos, e principalmente muitas crianças e pais, que muitos medos infantis não são resolúveis pelo aumento da família com um amigo peludo.

Os medos infantis são um desafio pela forma como alteram a dinâmica de funcionamento das crianças e das famílias, constituindo-se como um desafio pela dificuldade na sua ultrapassagem, pelo seu carácter enigmático e pelo sofrimento que causam. Segundo vários autores, os medos nas crianças e adolescentes podem ser divididos em medos normais (ou medos desenvolvimentais) e em medos patológicos ou fóbicos. Os primeiros, desde que não interfiram de forma significativa com a dinâmica individual e familiar, não são considerados patológicos porque só são activados na presença de estímulos perigosos e tendem a desaparecer com a ausência ou afastamento dos mesmos. Estes medos normais no desenvolvimento infantil tendem a ser universais e transculturais e são respostas adaptativas a ameaças reais à sobrevivência humana. Apesar de normais e expectáveis são um desafio terapêutico quando adquirem um carácter invasivo, provocando um sofrimento constante, um conjunto de evitamentos relevantes aparentemente inexplicáveis e uma alteração significativa no quotidiano individual e familiar.

Os medos patológicos (aqueles que são aprendidos e que surgem, por exemplo, após a existência de uma experiência negativa e ameaçadora) constituem-se, por outro lado, como alvos da atenção clínica com uma apreciável regularidade, dada a forma como são responsáveis por elevados níveis de sofrimento individual e familiar e pela forma como alteram, por vezes de forma dramática, o fluir do quotidiano, podendo, inclusivamente, comprometer o desempenho escolar, a prática de actividades extra-curriculares, o próprio clima relacional da família ou o processo de construção de autonomia das crianças e adolescentes.

A psicoterapia infantil, alicerçada em modelos de compreensão e intervenção na ansiedade, constitui um recurso comprovadamente útil para a resolução das dificuldades levantadas pelo agravamento dos medos infantis e para a construção conjunta (entre técnico, criança e família) de respostas mais funcionais ao medo.

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