quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Obrigado, Mariana...

A Mariana faz três anos na próxima Sexta-Feira. É impossível definir o mundo, no nosso mundo, antes do dia 7 de Dezembro de 2009. Corria uma tranquila madrugada, que se sucedeu a um ansiado reencontro de um pai distante com uma mãe corajosa na cidade mais bonita do mundo, quando surgiu o primeiro sinal que o momento mais bonito iria chegar mais cedo do que era esperado, tornando insignificante tudo o que até então tinha acontecido e permitindo que, verdadeiramente, fosse possível aprender o significado do conceito de "relativização". Um titubeante acordar, seguido de um frenético despertar, quando a madrugada ainda ganhava por knock-out a um preguiçoso dia. Uma viagem estranhamente duvidosa para a Maternidade (ser um Fittipaldi para chegar rápido, abanando a criança, quiçá acelerando o seu nascimento ou um condutor de fim de semana para garantir, qual Chuck Norris da parentalidade, a sua segurança?... A dúvida... se calhar a primeira dúvida do resto da minha vida...) e o início de tudo. O sentir que, como nunca na vida, havia um bilhete unicamente de ida para um sítio desconhecido. Ambicionado, ansiado, desejado, mas desconhecido... Um mundo de múltiplas variáveis e incógnitas que constituem aquela que viria a comprovar-se como a mais bela das equações. Medo de mostrar medo*... Medo de o meu medo poder ser um obstáculo para a Célia. Medo de não conseguir ser o apoio que ela precisava. Admiração pela sua coragem. Respeito pelo seu amor. (Saudades do meu pai.) Orgulho. Um orgulho como nunca havia sentido por ninguém. Arrependimento pelas alturas em que a pus em questão, quando, no fundo, não tinha coragem de me colocar em causa a mim mesmo. Ansiedade. Cumplicidade. Dúvidas. Sorrisos nervosos. (Saudades do meu pai.) Espera conjunta por contracções e afins. Meias verdades complacentes para tranquilizar o outro. Amor. Onze horas depois, onze horas depois do resto da nossa vida ter começado, quando o relógio dizia que faltavam cinco minutos para as seis da tarde, a Mariana dizia-nos, e principalmente àquela que tão bem tinha personificado o ideal da maternidade, que o mundo tinha melhorado. Que o mundo nunca mais seria o mesmo. Que nada seria como dantes. Que o amor tinha ganho mais significado. Chegou ao mundo de sopetão, tal como hoje insiste em percorrer os corredores num passo de corrida exagerado, com uma cadência muito própria, acompanhada pelo ondular dos caracóis que, como sabiamente preconizaram as avós, vai perdendo. Chegou ao mundo, ao nosso mundo, curiosa, característica que mantém e onde radicam as centenas de perguntas que coloca, onde se começam a incluir palavras como "imenso", "cuncionar" (funcionar em Marianês) ou "abrandar". (Penso que, aqui, a Célia teme que ela, como o pai, acabe por utilizar, de forma desmesurada, palavras como profícuo ou concomitantemente...) Chegou ao mundo, ao nosso mundo, aceitando-nos como seus, com a mesma entrega e amor com que hoje nos abraça nos "abraços de família". Chegou ao mundo, cheia de vontade de ensinar coisas, da mesma forma como, ainda hoje, nos obriga a usar a lente da poesia no lugar da prosa. Chegou ao mundo, ao nosso mundo, tornando-o melhor, dando-lhe sentido. Três anos, quase três anos depois, é difícil pensar no que quer que seja antes do dia 7 de Dezembro de 2009. Não faz sentido pensar no mundo antes desse dia. É bom ter um filho. É bom ter uma família. É indescritível ter a Mariana. É indescritível ter a família que tenho. E é estúpido, indecente, quando nos esquecemos disso e damos tanto valor àqueles que nos magoam, nos seus inconscientes e egossintónicos assomos, projectando sobre nós os seus pequenos tumultos interiores e os seus incontroláveis furacões narcísicos. Fraca artilharia contra o poder das coisas boas. Fraca sagacidade interior não perceber isso o mais rápido possível, não sublimando, no imediato, a sabotagem através da empatia e da compaixão... Sexta-Feira a Mariana faz anos. Devia ser feriado para que todos pudessem festejar. Para que todos pudessem pensar em coisas boas, bonitas. Fazia-nos bem. Faz-me bem. Obrigado Célia. Obrigado Mariana.

* Que, ao contrário do que defende alguns, existe. E ainda bem. Quando sabemos tomar conta dele, protege-nos e, quando a estreiteza das emoções afunila o pensamento, protege os outros de nós...

3 comentários:

Cátia Oliveira disse...

Estou aqui com uma lágrima a querer saltar...Que lindo! :) :)

MC disse...

Deste lado a lágrima saltou mesmo...
:)

psilipe disse...

Às vezes, a coisa sai bem...