quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Quem tem medo...

Texto a publicar na revista do Sindicato dos Professores da Região Açores sobre os medos infantis durante o mês de Janeiro. Aqui fica.


A sabedoria popular ensina-nos que a solução infalível para o medo, e para os desafios que nos causa, passa pela adopção de um animal doméstico da espécie Canis Lupus Familiaris, ou seja, um simpático canídeo. E se é certo que, como a grande maioria dos ditos populares, a expressão não deve ser lida pelo prisma da linearidade, é também verdade que , muitas vezes, alguns medos, nomeadamente nas crianças, acabam por ser erroneamente minimizados, nas suas consequências, no sofrimento que despertam, na forma como obstam ao desejável processo de autonomização  e na invalidação que originam, por exemplo, no contexto escolar. Efectivamente, a prática clínica demonstra que muitas situações de absentismo e de insucesso escolar passam pela existência de quadros clínicos de ansiedade nos alunos que, por vezes, acabam por não ser alvos de intervenções adequadas.
Sabemos todos, e principalmente muitas crianças e pais, que muitos medos infantis não são resolvidos pelo simples aumento da família com um amigo peludo. Os medos infantis são um desafio pela forma como alteram a dinâmica de funcionamento das crianças e das famílias, constituindo-se como um autêntico quebra-cabeças pela dificuldade na sua ultrapassagem, pelo seu carácter enigmático e pelo sofrimento que causam.
Segundo vários autores, os medos nas crianças e adolescentes podem ser divididos em medos normais (ou medos desenvolvimentais) e em medos patológicos ou fóbicos.
Os primeiros, desde que não interfiram de forma significativa com a dinâmica individual e familiar, não são considerados patológicos porque só são activados na presença de estímulos perigosos e tendem a desaparecer com a ausência ou afastamento dos mesmos. Exemplo deste tipo de medo pode ser o medo de animais perigosos (cobras, touros,…).
 Estes medos são normais no desenvolvimento infantil e tendem a ser universais e transculturais, constituindo respostas adaptativas a ameaças reais à sobrevivência humana. Apesar de normais e expectáveis podem ser um desafio terapêutico quando adquirem um carácter invasivo, provocando um sofrimento constante, um conjunto de evitamentos relevantes aparentemente inexplicáveis e uma alteração significativa no quotidiano individual e familiar.
Os medos patológicos (aqueles que são aprendidos e que surgem, por exemplo, após a existência de uma experiência negativa e ameaçadora) constituem-se, por outro lado, como alvos da atenção clínica com uma apreciável regularidade, dada a forma como são responsáveis por elevados níveis de sofrimento individual e familiar e pela forma como alteram, por vezes de forma dramática, o fluir do quotidiano, podendo, inclusivamente, comprometer o desempenho escolar, a prática de actividades extra-curriculares, o próprio clima relacional da família ou o processo de construção de autonomia das crianças e adolescentes. Exemplo de um medo desenvolvimental pode ser o medo de frequentar a escola após um episódio de agressão por colegas ou outros pares.
A psicoterapia infantil, alicerçada em modelos de compreensão e intervenção na ansiedade, constitui um recurso comprovadamente útil para a resolução das dificuldades levantadas pelo agravamento dos medos infantis e para a construção conjunta (entre técnico, criança e família) de respostas mais funcionais ao medo. 

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