quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Trauma(s): ferida(s) ou cicatriz(es)?...

Alguns estudos demonstram que, ao longo do seu percurso de vida, um indivíduo tem uma percentagem a rondar os setenta por cento de se confrontar com um acontecimento traumático. O mesmo será dizer que existe uma elevadíssima probabilidade de se confrontar com um cenário, com uma circunstância de vida que coloque em questão os seus limites, a sua concepção de si mesmo e a sua visão do mundo, obrigando a um esforço de reorganização interior.

Se pensarmos na existência humana como um rio, podemos entender as circunstâncias traumáticas como um desvio no seu leito que provoca uma mudança no seu curso e na forma como flui. Esses desvios podem ser pequenas represas, diques de dimensão considerável ou autênticos aluimentos de terra que o fazem transbordar e que lhe alteram o rumo, fazendo, inclusivamente, que seja difícil distinguir o rio das margens que o delimitavam.

Na maioria das situações, as pessoas conseguem superar os acontecimentos traumáticos que vivenciaram, conseguindo reorganizar-se e prosseguir o seu caminho, o fluir das suas águas sem alteração de maior. No entanto, numa percentagem das situações, a dimensão do obstáculo traumático encontrado provoca alterações significativas no seu funcionamento, gerando elevados níveis de desconforto, sofrimento e de tensão emocional, condicionando a visão de futuro e podendo gerar perturbações psicopatológicas relevantes como, por exemplo, a Perturbação de Stress Pós-Traumático.

O objectivo não é concretizar o esquecimento do acontecimento traumático, mas construir uma noção da localização temporal daquilo que foi vivenciado. O objectivo não é eliminar todo e qualquer vestígio do desafio emocional, todo e qualquer resquício da ferida traumática, mas permitir que se aceite a inevitável cicatriz, que nos marca, mas que não nos define. O objectivo é conseguir relembrar aquilo que aconteceu, sem a carga do sofrimento vivido. O objectivo é conseguir deixar de reviver, sem controlo, as circunstâncias traumáticas que atormentam. O objectivo é conseguir relembrar, sem reviver... O objectivo é, apesar de tudo, seguir em frente e crescer (ainda) mais.

Intervir nestes cenários como alquimista da alma é um desafio bom, mas que, muitas vezes, dói. Tanto mais, quando a identificação no outro transforma a desejável empatia numa perigosa, e potencialmente incontrolável, empatite. É um trabalho duro, mas alguém tem que o fazer... Mesmo.

2 comentários:

RD disse...

E ainda bem que há alquimistas da alma da tua qualidade para ajudar a crescer (ainda mais) as pessoas. A empatite é complicada de gerir, mas a certeza que enfatizo é na capacidade que tens em "ultrapassar" esse aspeto e obter excelentes resultados...é isso que importa!

MC disse...

Faz tanto sentido!!!