quarta-feira, 27 de março de 2013

(Um verdadeiro) Inverno

Antigamente havia estações. Os ritmos, os rituais, o fluir do tempo era compassado pelo ciclo das estações do ano. Mudavam-se as roupas das gavetas para que a dita roupa de Inverno substituísse a de Verão, num esforço de antecipação à anunciada, datada chegada do tempo frio. Escondiam-se, no fundo de baús*, as leves indumentárias estivais e subiam à tona a lã das camisolas, a flanela dos lençóis e dos pijamas.  Buscava-se num qualquer armário a botija de água quente e os chinelos comprados na Serra da Estrela uns anos antes, recebidos numa qualquer Consoada passada. Emergia a perspectiva do conforto e do aconchego e sublimava-se a pequenez humana perante a aspereza dos elementos. Recordava-se, com saudade, aquele ano, em 1982, em que tinha nevado em Coimbra. Esperava-se, apesar de tudo, que voltasse a acontecer... Que a invernia colocasse a mais bela cidade, ainda mais bela. Nunca aconteceu. 

Na Terceira, desde o primeiro dia, ensinaram-me, num conhecido adágio açoriano, que, no mesmo, dia podemos reconhecer as quatro estações do ano. Ao terceiro dia, ou algo parecido, deixei de usar chapéu-de-chuva. Um primeiro sinal de assumpção de pequenez perante o rigor dos elementos. Algures em 2006 temi um furacão chamado Gordon, desejoso que ele aparecesse. Um primeiro sinal de arrogância perante os elementos. Algures em 2008, vi neve na Serra de Santa Bárbara. Em Maio de 2012, limpei a primeira inundação, de enxada na mão, com lama até aos joelhos. No Inverno de 2013, constato que todos os adágios populares têm os seus limites e que, afinal, existem dias em que só nos confrontamos com uma estação, em que o Inverno suplanta toda a sua concorrência. Como diz o F.S., a água jorra. A água destrói. A água aniquila. A água faz sofrer. A água devolve-nos ao nosso real significado, corrige a nossa arrogância, condena-nos à nossa (saudável) pequenez. 



* É impressão minha ou já só se usam baús no mundo das metáforas? Estante Billy killed the Baú Star?


2 comentários:

Solinhos disse...

E assim, num instante, nasce uma prosa poética...
Gostei muito... da beleza das palavras à dureza da realidade, tudo se completa em harmonia.

Beijos

psilipe disse...

Isso foi fofo.