sexta-feira, 10 de maio de 2013

Stress traumático: ferida ou cicatriz?


Uma revisão de um texto escrito há uns tempos sobre o stress traumático...

Controlar, adivinhar, assegurar, prever… alguns dos verbos que, comummente, pululam no nosso discurso, numa tentativa de sublimação da influência que o factor incerteza, que o factor dúvida tem no nosso funcionamento e no nosso equilíbrio interior, face ao futuro e a tudo o que o mesmo pode acarretar. No entanto, e apesar dos esforços que possamos fazer para controlar tudo aquilo que nos acontece, num movimento para evitar o confronto com a dureza do impacto dos eventos imprevisíveis e ameaçadores, estamos (felizmente) condenados a situações, cenários, experiências que fogem ao nosso controlo e que não conseguimos, de todo, adivinhar ou prever.

Alguns estudos demonstram que, ao longo do seu percurso de vida, um indivíduo tem uma percentagem a rondar os setenta por cento de se confrontar com um acontecimento traumático. O mesmo será dizer que existe uma elevada probabilidade de se confrontar com um cenário, com uma circunstância de vida que colocará em questão os seus limites, a sua concepção de si mesmo e a sua visão do mundo, obrigando a um esforço de reorganização interior e de adaptação. Tal poderá acontecer quando o indivíduo se depara com diversas situações, sendo possíveis exemplos as situações em que se vê envolvido numa agressão grave, num acidente grave, numa catástrofe ou num processo de perda de pessoa significativa.

Se pensarmos na existência humana como um rio, podemos entender as circunstâncias traumáticas como um desvio no seu leito que provoca uma mudança no seu curso e na forma como flui. Esses desvios podem ser pequenas represas, diques de dimensão considerável ou autênticos aluimentos de terra que o fazem transbordar e que lhe alteram o rumo, fazendo, inclusivamente, que seja difícil distinguir o rio das margens que o delimitavam.

Na maioria das situações, as pessoas conseguem superar os acontecimentos traumáticos que vivenciaram, conseguindo reorganizar-se e prosseguir o seu caminho, restaurando o fluir das suas águas sem alteração de maior. No entanto, numa percentagem das situações, a dimensão do obstáculo traumático encontrado provoca alterações significativas no seu funcionamento, gerando elevados níveis de desconforto, sofrimento e de tensão emocional, condicionando a visão de futuro e podendo gerar perturbações psicopatológicas relevantes como, por exemplo, a Perturbação de Adaptação, a Perturbação Aguda de Stress ou a Perturbação de Stress Pós-Traumático. Adicionalmente, e em função das dificuldades que se verificam, é comum que se verifiquem fenómenos de co-morbilidade (existência ou advento de outras perturbações psicopatológicas, de forma concomitante), sendo de salientar a prevalência de outras perturbações de ansiedade (e.g. Perturbação de Ansiedade Generalizada, Fobia Social, Perturbação de Pânico,…), de Perturbações do Humor (e.g. Perturbação Depressiva Major) que deverão ser tidas em conta e, quando diagnosticadas, alvo de atenção clínica.






O objectivo não é concretizar o esquecimento do acontecimento traumático, como se não tiivesse acontecido, mas construir uma noção da localização temporal daquilo que foi vivenciado. O objectivo não é eliminar todo e qualquer vestígio do desafio emocional, todo e qualquer resquício da ferida traumática, mas permitir que se aceite a inevitável cicatriz, que nos marca, mas que não nos define. O objectivo é conseguir relembrar aquilo que aconteceu, sem a carga do sofrimento vivido. O objectivo é conseguir deixar de reviver, sem controlo, as circunstâncias traumáticas que atormentam. O objectivo é conseguir relembrar, sem, permanentemente, reviver.

A psicoterapia é uma via preferencial para a redução do impacto negativo, e invalidante, das perturbações traumáticas, ajudando ao processo de reorganização interior tão necessário, como difícil e desafiante, visando o crescimento pessoal pós-trauma e a superação dos desafios precipitados pelo mesmo. Neste contexto, os modelos de intervenção cognitivo-comportamental, praticados por psicólogos clínicos treinados para o efeito, têm demonstrado a sua validade e eficácia, conseguindo contribuir para a redução das dificuldades decorrentes do stress traumático e para a diminuição da invalidação que delas decorrem.

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