sábado, 10 de agosto de 2013

Longe da vista, demasiado perto do coração?...

Um texto sobre Ansiedade de Separação nos miúdos deste vosso escriba... A foto também é da casa.

O aparecimento de sintomas de ansiedade é algo relativamente comum nas crianças, existindo, inclusivamente, alguns medos de cariz desenvolvimental, cujo aparecimento e manutenção se encontram intrinsecamente relacionados com o processo de crescimento e com o (necessário) confronto com os desafios que o mesmo implica. Surgem, complicam a vida dos petizes e, paralelamente ao crescimento, vão-se desvanecendo, não se constituindo, a prazo, como um problema que justifique atenção clínica.

A separação dos pais ou de outras figuras de referência afectiva, e os medos que a mesma implica, constituem um dos cenários ansiógenos com que todos tivemos que nos confrontar, aprendendo que, quando aqueles que de nós gostam estão longe da vista, continuam perto do coração, e que a distância não significa a colocação em risco da integridade física dos nossos, nem da integridade do vínculo afectivo que nos une ou um iminente abandono.

No entanto, e quando os sintomas ansiógenos adquirem maior frequência, intensidade e duração, e quando estarmos afastados dos nossos significativos, tê-los longe, implica tê-los demasiado perto do coração, sentindo como demasiado possível a existência de uma fatalidade que conduza a um afastamento definitivo, podemos estar perante um quadro ansioso denominado Ansiedade de Separação.

A Ansiedade de Separação é clinicamente significativa, implicando desconforto e sofrimento nas crianças, obstaculizando o seu desejável processo de desenvolvimento sócio-afectivo e autonomização, bem como dificultando a construção de uma auto-estima sólida que lhes reforce a perspectiva de sucesso no enfrentar dos diversos desafios que o crescimento implica, como, por exemplo, as transições de ciclos escolares, as perdas de pessoas afectivamente significativas, os divórcios de pessoas próximas ou a frequência de actividades extra-curriculares.

As crianças que apresentam um padrão de funcionamento que permite o diagnóstico de Ansiedade de Separação podem manifestar comportamentos de evitamento perante a possibilidade de se afastarem das figuras de vinculação (com especial destaque para a mãe) ou de casa. Alguns exemplos típicos são a resistência ou recusa em ir para a escola, a permanecerem sozinhas, a dormir sozinhas ou a passar a noite fora de casa. Tipicamente, e após um início súbito e uma evolução insidiosa, as crianças desenvolvem medos persistentes de se separarem definitivamente das figuras de vinculação, nomeadamente pela antecipação catastrófica que fazem de uma situação de morte, de um acidente grave ou de um abandono.


Habitualmente, as crianças apresentam dificuldades na realização de tarefas ou actividades que, anteriormente, não apresentavam qualquer problema, o que tende a garantir uma dose de dúvida e incerteza aos pais, levando, por vezes, a um indesejável descrédito das queixas das crianças e, em casos mais extremos, a uma persistente desvalorização das mesmas, factor que se constitui como reforçador das dificuldades.

Nas situações em que a separação é iminente, ou quando a mesma ocorre, a criança com Ansiedade de Separação pode manifestar comportamentos muito alterados, de terror e medo intenso, sendo comum a existência de palpitações, hiperventilação, gritos ou choro. A resistência activa à separação, por exemplo agarrando-se energicamente aos pais, ou as queixas de dores corporais são também comportamentos típicos e que poderão sinalizar a necessidade de uma avaliação.

É frequente surgirem fenómenos de ansiedade antecipatória, em que as crianças sentem níveis progressivamente mais intensos e incapacitantes de ansiedade, à medida que se aproxima a situação de separação ou quando se aproxima o momento em que voltarão a estar perto das figuras de referência.

O processo de tratamento da Ansiedade de Separação implica que seja construída uma relação terapêutica sólida com o Psicólogo Clínico, que permita que a criança se sinta segura em relação ao processo e, progressivamente, mais disposta a enfrentar os desafios que o mesmo implica. São criadas condições para que a criança aprenda a reconhecer, experienciar e gerir a sua ansiedade, bem como criadas oportunidades de desafio à resposta ansiosa que permitam que a criança aprenda a reduzir a sua ansiedade e adquira, ou recupere, rotinas quotidianas adaptativas. Importa promover as competências da criança no confronto e gestão das tarefas desenvolvimentais com que se confrontará de uma forma eficaz, adaptativas e promotora do processo de desenvolvimento.

Importa destacar que nestes processos, os pais são aliados necessários, devendo constituir-se como actores dos mesmos, nomeadamente pela forma como devem criar oportunidades de desafio da resposta ansiosa e como devem reforçar a criança e os seus comportamentos mais adaptativos. Para tal, é fundamental que os pais compreendam o funcionamento da Ansiedade de Separação em geral, e do caso do seu filho em particular, mormente os aspectos relacionados com a sua génese e com os factores de manutenção e flexibilização da mesma.

A psicoterapia infantil é uma via preferencial para a redução do impacto negativo da Ansiedade de Separação, permitindo que as crianças consigam gerir de forma adaptativa os momentos de separação das figuras significativas e consolidando a ideia que estas, mesmo quando estão longe, continuam perto do coração, mas na medida certa!

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