quinta-feira, 26 de setembro de 2013

As facturas (caras) da desilusão

Leio no blogue do amigo André um desabafo de um dos "meus" emigrantes que aludi um destes dias, onde faz referência a um texto que escrevi, há quase dois anos, a que chamei "O Dia da Amputação"*.

Leio de viva voz aquilo que sente alguém que, legitimamente, sente que o país o desiludiu e que procura uma merecida certeza de realização pessoal e profissional.

Leio que tem vontade de colocar os sonhos na gaveta. Disse-lhe que, por muito que nos queiram castrar, nunca podemos ceder à tentação auto-flagelante de guardar os sonhos na gaveta. Continuo a sentir-me tão amputado como me sentia na altura em que escrevi o texto que ele realçou (do qual me orgulho, sinceramente). Continuo a sentir uma sensação de estranheza com os noticiários e jornais, com a forma como o incompreensível e inverosímil se torna o "prato do dia".

Temo, como ele, o impacto nas vidas, na vivência subjectiva de tantos e tantas desta espiral em que participamos. Temo que seja demasiado maior do que pensamos, mesmo nas perspectivas mais pessimistas. Temo que não consigamos deixar de participar passivamente.

Diria que o sonho, a poesia (de que o André e muitos que aqui passam tanto gostam), sejam o antídoto para isto. Mas, sim, nunca sonhar foi tão caro. Pago com o preço da desilusão. E esse é uma das facturas mais pesadas que nos podem fazer pagar. Muitas vezes, não tem retorno.

* Texto esse que teve continuidade, um ano depois, aqui.

2 comentários:

André disse...

Queria ter-te respondido ao comentário que deixaste - mas sinceramente já não sei o que dizer... (é pior, muito pior - só não imagino até que ponto é pior...)

psilipe disse...

Que nunca te faltem as palavras, André.