segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Mais um regresso ao Caramulo

Uns dias pelo Continente permitiram um regresso ao Caramulo e ao seu encanto.

Regresso, a princípio, triste dada a devastação provocada pelo flagelação provocada pelos incêndios. O fogo esteve à porta da Vila do Caramulo e e de muitas das aldeias que se situam nas suas imediações.

A visita deu para uma visita ao MotorFestival do Caramulo, um paraíso para qualquer adepto de carros clássicos. Espectacular trabalho da equipa do Museu do Caramulo, um interessante museu com uma extraordinária história.

Uma instituição que continua a colocar o Caramulo no mapa, trazendo ao meio da serra dezenas de milhar de pessoas por mês, cumprindo os desígnios dos seus mentores (Abel e João Lacerda) e confirmando a sua visão de futuro.

Uma instituição que deu significado à palavra resiliência, colocando, da mesma fora, no terreno um interessante evento automóvel sem ceder ao peso da tragédia e do flagelo, injectando vida e dinâmica no Caramulo, desencadeando uma onda de angariação de fundos que, em poucos dias, permitiu angariar dinheiro para iniciar a reflorestação da Serra com vários milhares de árvores.

Quem disse que, no interior esquecido e ostracizado, não pode haver cultura, dinâmica e vida? O Museu do Caramulo é, sem dúvida, um exemplo a seguir.



Os sanatórios lá estão, cada vez mais abandonados e misteriosos, desafiando a memória. E inquietando a curiosidade de quem por eles se interessa.

A propósito, destaque para uma curta-metragem designada "Aldeia dos Tísicos" que traz a lume, e na primeira pessoa, muitos daqueles que conheceram os outros tempos do Caramulo e da sua Estância Sanatorial. Só pode ser um documento relevante que, espera-se, respeite a memória histórica e signifique uma pedrada no charco do esquecimento.

Há sítios que, estranhamente, nos marcam. O Caramulo é, sem dúvida, um deles.

2 comentários:

Helford disse...

Apesar do Caramulo ter sido, em tempos, um centro de cura do flagelo da tuberculose e, decerto, o que mais se destaca no nosso país, houve outros espaços que sabe bem trazer à memória. Não me estou a lembrar, neste momento, de todos eles e também seria demasiado exaustivo enumerá-los num simples comentário. Será mais interessante relembrá-los, de quando em quando, em comentários separados. Hoje lembrei-me de mais um desses espaços, por sinal um dos mais enigmáticos e que, decerto muitos se esqueceram. Trata-se do Sanatório de Portalegre, mais conhecido como "Sanatório Rodrigues de Gusmão". Sim! Ao contrário do que alguns possam julgar, Portalegre também tinha um sanatório. É dos que menos se fala, talvez precisamente por se localizar num local que muitos consideram "de província". Por outro lado, é preciso também não esquecer que, no tempo deles, os sanatórios não eram um assunto muito agradável de se falar, isto porque acabaria por haver sempre gente que tivesse perdido alguém próximo para a "tísica" ou que estivesse a viver na família um drama com ela relacionado ou, simplesmente, porque havia um medo intrínseco de se ser atingido por essa autêntica "maldição". Por isso, o encerramento gradual dos sanatórios foi uma situação que ocorreu de uma forma muito discreta para o público em geral. E, assim, esses espaços foram remetidos para um esquecimento quase completo, quase como se nunca tivessem existido. Hoje em dia, há quem nunca tenha ouvido falar em "sanatórios", muito menos do que eles representavam. Há outros para quem a expressão "sanatório" é uma coisa muito vaga, que parece remeter para uma época muito remota. Quase só o Caramulo retém uma parte dessa memória, porque é uma serra mencionada com frequência e, quando lá se vai, é impossível ficar indiferente ao cenário que se nos desenha à frente dos olhos. Mesmo quem nunca tenha ouvido falar na Estância Sanatorial do Caramulo, ao lá chegar, percebe que ali existe algo de especial, quando não estranho. Desta forma, a curiosidade é aguçada e as perguntas são inevitáveis...

Helford disse...

Ainda no seguimento do comentário anterior, vou tentar não me afastar do assunto que hoje aqui me trouxe... Pretendia trazer à memória mais um elemento do "património sanatorial" do nosso país. Trata-se do Sanatório de Portalegre, que ficou conhecido como "Sanatório Rodrigues de Gusmão". V. já visitou Portalegre? Caso sim, há-de reparar que, apesar de ser uma povoação alentejana, a sua morfologia não é plana. Tem, pelo menos, duas zonas elevadas próximas. A mais conhecida e densamente arborizada é conhecida como "Serra de Portalegre" e o centro de Portalegre localiza-se no seu sopé, quase parecendo querer trepar. Existe uma outra elevação, no outro extremo de Portalegre que se precipita sobre uma espécie de vale. Também é enriquecida por zonas verdes e localiza-se aí a Sé de Portalegre, com as suas duas torres. Nessa mesma elevação, mais afastado para o extremo dessa colina, encontramos um edifício de formato mais ou menos rectangular
cuja fachada principal dá para o vale e parece meia tapada por algumas árvores. Foi esse o "Sanatório Rodrigues de Gusmão". Se estivermos no cimo da Serra de Portalegre ou se passarmos numa das estradas que circundam essa colina, não será difícil descortiná-lo. O edifício ainda se encontra apartado do resto do aglomerado habitacional próximo, herança dos seus "gloriosos" tempos. Tem um aspecto vagamente enigmático, mas também algo de sombrio, sobretudo se olharmos para a parte semi-coberta. A melhor altura do dia para o contemplarmos é da parte da tarde. Ao fim do dia, quando o sol se põe, adquire uma aura estranha, que parece contradizer a sua intencional discrição. Os vidros da secção posterior, um acrescento decerto à construção original, parecem brilhar, devolvendo, por momentos, qualquer coisa de vivo a um espaço que ficou enterrado num passado vagamente sinistro. O Sanatório Rodrigues de Gusmão, se não me falha a memória, foi inaugurado em 1909, portanto pertencia ainda àquela primeira leva de sanatórios anterior à criação da Estância do Caramulo. Todavia, pouco ou nada se fala dele. Terá tido uma existência sem sobressaltos, decerto foi sujeito algumas obras de melhoramento, que lhe acrescentaram a parte traseira e modernizaram os equipamentos. A construção que hoje lá observamos deve estar algo diferente da original de 1909, independentemente de algum restauro efectuado. Deu "sinais de vida" ainda durante a sua última década de vida, quando o seu director de então, o Dr Emílio Moreira decidiu empreender a realização da "Semana da Tuberculose e Doenças Pulmonares do Distrito de Portalegre", entre 1966 e 1973. Discreto como foi, discretamente cessou funções após 1974. Actualmente é aí que se localiza um centro de prevenção e tratamento para toxicodependentes. No entanto, julgo que esta instituição se encontra apenas circunscrita à parte traseira, mais recente, do antigo sanatório e que é visível para quem entra pelo parque de estacionamento. A "parte nobre" do edifício, parece estar silenciosamente devoluta. Até quando? Ninguém sabe...