quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Um olhar pessoal sobre a Violência Doméstica

E aqui fica um texto que me foi pedido, e que será publicado, a breve trecho, numa publicação regional, sobre a violência doméstica.

O pedido foi realizar um texto que retratasse um olhar pessoal sobre o fenómeno. Sendo algo pessoal, reforcei o texto com algumas fotos da minha autoria, que acompanham o texto.


Aceitar o desafio de abordar a temática da violência doméstica, e da igualdade de género, assemelha-se ao acto de vislumbrar um mosaico ou um vitral. É possível admirar uma parte, formular uma visão sobre um dos seus pormenores, mas a real compreensão da sua dimensão e do seu significado depende, directamente, da forma como aceitamos que o todo é bem mais do que a soma das partes e que só se encontra a sua verdadeira plenitude na atenção e compreensão de todas as suas vicissitudes. Não o fazer, conduz, de forma inapelável, a visões parcelares, pré-concebidas, redutoras e infelizes que colocam em causa objectivos, modelos de entendimento e, até, os alicerces das políticas da igualdade de género.
  


Este texto, humilde olhar pessoal, respeitará esta leitura multifacetada, pelo que abordará diversos prismas dos fenómenos, partindo de diversas experiências de trabalho psicoterapêutico com actores de contextos de violência doméstica, no âmbito do meu percurso como Psicólogo Clínico, com recurso a pedaços de discursos que ouvi, autênticas ilustrações vivas.

“Até muito tarde na minha vida pensei que todos os homens eram assim como o meu marido… era aquilo que via em casa com os meus pais...” (L.)
“Todos me batiam lá em casa. Começava no marido e acabava nos filhos…” (F.)


As crianças pertencentes a agregados marcados pela violência doméstica são actores de um enredo que não escolheram. Num momento crucial do seu desenvolvimento presenciam, muitas vezes de forma sistemática, cenas de violência, imprevisibilidade e descontrolo, co-existindo com contextos patológicos e atentatórios do seu desenvolvimento, que colidem com a consolidação dos seus alicerces, aqueles em que radica a solidez do nosso crescimento e da definição da nossa personalidade e, por conseguinte, da forma como nos relacionamos connosco, com os outros e com o mundo.
Comummente é confundido o silêncio das crianças, mormente daquelas mais pequenas, com uma passividade em relação àquilo que as rodeia, naquilo que redunda, muitas vezes, num processo de legitimação de cenários de violência. A percepção de precocidade do desenvolvimento dos actores inocentes do filme da violência doméstica confunde-se com uma suposta invulnerabilidade, que colide de forma estrondosa, e perversa, com aquilo que constitui a realidade. A título de exemplo, a agressividade nas crianças em idade escolar, segundo alguns investigadores, pode ter a sua origem na forma como situações de violência entre os pais foram testemunhadas pelas mesmas nas idades anteriores aos três anos. Quanto mais comportamentos violentos foram testemunhados, maior o número de situações de agressividade acabam por surgir. As crianças vêem e, mais tarde, fazem. As crianças aprendem. A fazer, a ser. E aprendem consoante os seus modelos, principalmente com aqueles que se constituem como figuras de referência. Questionar-se-ão como pode alguém que violenta, que agride, que magoa, manter o seu estatuto referencial e, consequentemente, modelar. Em tempos tão precoces, vale mais um farol desregulado e confuso, do que a escuridão da ausência de pontos de referência. Face a estes pontos, o desenvolvimento de intervenções precoces, mesmo antes das primeiras manifestações comportamentalmente preocupantes, assume um carácter fulcral, potenciando a resiliência e os factores de protecção, sublimando os factores de risco associados e, muitas vezes, latentes e invisíveis.


“A culpa é minha, de certeza…” (L.)
“Eu quando começo a ficar ciumento, deixo de pensar e perco o controlo…” (J. C.)



Os cenários de violência doméstica conduzem à constatação do aumento das prevalências de perturbações de saúde mental nos actores que neles residem, levando ao surgimento e consolidação de fenómenos psicopatológicos de grande relevância e invalidação.

Constatam-se prevalências acrescidas relacionadas com a depressão, a Perturbação de Stress Pós-Traumático, os comportamentos suicidas, as perturbações do sono, as perturbações do comportamento alimentar, as perturbações do foro psicótico e os problemas de relacionamento social e interpessoal. As vítimas possuem um risco seis vezes acrescido de abuso de substâncias psicoactivas.
Atente-se, igualmente, na forma como podemos constatar uma lógica de causalidade bidirecional. A existência de um funcionamento psicopatológico, com problemáticas ao nível da Saúde Mental, pode colocar a vítima numa posição de maior vulnerabilidade para cenários posteriores de violência doméstica; por outro lado, a vivência de cenários de violência doméstica constitui um factor que compromete a Saúde Mental e potencia os fenómenos psicopatológicos. A título de exemplo, a relação das perturbações de humor, mormente a depressão com a violência doméstica. As vítimas apresentam taxas de depressão superiores à população não envolvida, enquanto as pessoas deprimidas estão mais sujeitas a serem envolvidas em quadros de violência.
E quem agride? E quem, pelas suas acções, cerceia a liberdade de outros? Começa a inverter-se, inclusivamente com iniciativas bastante válidas nos Açores, o olhar maniqueísta sobre o agressor, vislumbrando nele a emergência de um funcionamento, muitas vezes, psicopatológico, alicerçado em modelos relacionais disfuncionais, que justifica uma atenção interventiva, que previna futuras relações abusivas, cuja probabilidade é altíssima.
Intervir e diagnosticar precocemente assume um carácter extremamente importante, no sentido de actuar quer a priori, quer a posteriori, diminuindo os efeitos dos cenários de violência, bem como a probabilidade de envolvimento em (novas) relações abusivas. Tratar a perturbação e sublimar a vulnerabilidade são objectivos que deverão estar, sempre, de mãos dadas. Estarão todos os profissionais (de saúde, da intervenção social, da educação,…) preparados para se constituírem como actores de detecção e intervenção, além dos seus (pre)conceitos? Ficam dúvidas. Estudos apontam para que um terço das senhoras que procuram recorrentemente o Sistema Nacional de Saúde estejam envolvidas em contextos de violência, sem que sejam questionadas pelos profissionais de saúde. Por outro lado, há evidências que as respostas disponibilizadas aos cenários de violência variam em função do género de quem as solicita.



“Os meus pais são como a água e o azeite… juntam-se, separam-se, juntam-se, separam-se…” (B.)

 

Nesta frase da B., na simplicidade de uma criança de oito anos, radica um dos aspectos mais marcantes da violência doméstica: o seu carácter cíclico, numa sucessão típica de sequelas relacionais de gravidade e consequências crescentes, entre os estados de tensão, de agressão e de reconciliação, em que se entrecruza a vulnerabilidade, a culpa, o sofrimento, o medo, a vergonha e o controlo. Os estudos disponíveis reforçam a ideia de uma lógica de espiral crescente, em que, uma vez (re)iniciada a relação, os contextos de violência tendem a continuar, aumentando a frequência e gravidade das situações problemáticas e, por conseguinte, as consequências para todos os envolvidos.
Este ciclo sentimental vicioso e negativo, naquilo que constitui um dos maiores desafios para quem trabalha com vítimas e agressores, conduz, recorrentemente, a padrões relacionais confirmatórios, em que as pessoas, mesmo quando (re)iniciam novas relações, tendem a privilegiar parceiros abusivos, o que conduz, inevitavelmente, à consolidação de uma visão de si cada vez mais negativa e mais dependente do outro, tornando quase um exercício de loucura o acto do abandono da relação. “Se fico só, nunca mais ninguém me pega…”


“………………………………………………………….”


Neste ponto, não encontrei uma citação que se enquadrasse naquilo que pretendo explanar. Nunca encontrei um homem que, em contexto de consulta, assumisse, de forma expressa e aberta, o seu envolvimento em cenários de violência doméstica no papel de vítima. Mas eles existem. Em Portugal, aproximadamente, um quinto das queixas são realizadas por homens, numa tendência que tem crescido. Começa a fazer-se o caminho da denúncia, à semelhança do que aconteceu com as mulheres, há umas décadas atrás. Há, reconheçamos, uma feminização do fenómeno da violência doméstica e um carácter invisível da violência contra os homens, naquilo que conduz a uma falta de reconhecimento social, institucional e político da violência contra homens. “Cada vez mais os homens choram, longe de tudo e de todos”, li há algumas semanas num jornal diário. A sociedade e as organizações interventivas não estão preparadas para receber vítimas masculinas, havendo, e apesar dos crescentes apelos, uma inexistência de respostas dirigidas às vítimas masculinas, bem como ausência de sensibilização para as situações de violência com vítimas no masculino, junto de quem intervém junto das mesmas. No caminho árduo e feliz nos trilhos da igualdade de género, esta questão obriga a um repensar de ideias e conceitos. Poderemos estar perante uma contradição e um efeito colateral do muito que se tem avançado na investigação e intervenção na violência doméstica. Não tenho dúvida que sim. Entre o preto e o branco, entre o estereótipo e a desvalorização, terá que se encontrar um cinzento.

Outro ponto que desafia a estanquicidade dos estereótipos onde radicam muitas das leituras, modelos e políticas relacionadas com a violência doméstica é a questão das relações homossexuais e dos processos de violência que decorrem nas mesmas. Os poucos estudos existentes sublinham que os índices de violência conjugal que ocorrem nas relações homossexuais são equivalentes àqueles que acontecem nas relações heterossexuais, algo que colide com a heteronormatividade associada à violência doméstica, algo que coloca as vítimas numa posição de grande fragilidade, numa espécie de “duplo armário” como referem os investigadores. Há que olhar para a violência doméstica como um crime sem sexo, sem marcador social, sem idade e sem um molde estanque e rígido, sob pena de se alicerçar o entendimento numa perigosa dicotomia e de as políticas de igualdade de género se negarem a si mesmas.


“Preciso de saber se vale a pena ter esperança, se é possível ser feliz… sem isso não consigo aguentar!” (L.)


 Os efeitos da violência doméstica são autênticas armas de destruição massiva para a esperança, aquela luz ao fundo do túnel que nunca podemos deixar de procurar. Sonhar torna-se proibido, a perspectiva de mudar progressivamente mais ameaçadora. Estar ao lado de vítimas, e também de agressores, nesta caminhada é um privilégio mas, igualmente, uma exigência enorme. Alturas há em que, na torrente de desilusão, dor, sofrimento e desconfiança, somos uma das poucas pessoas em quem as pessoas (ainda) conseguem confiar e quem se ancoram para a aprendizagem de um novo dialecto, marcado pela mudança, auto-determinação, autonomia e auto-estima, que temem não conseguir aprender. Mas, sim, é um privilégio e um dos cenários em que a Psicologia Clínica, em todo o seu esplendor e beleza, mais se exponencia. Mesmo.



(Ajudar a) Olhar, sempre, para cima é um direito e uma obrigação, mesmo quando o obstáculo é, aparentemente, intransponível e quando necessitamos de ajuda para o ultrapassar.






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