segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Das palavras que é uma pena que não sejam usadas mais vezes... - IV

Em conversa com o amigo R. C., com quem partilhei esta minha saga, ocorreram-nos duas palavras que correspondem a algo absolutamente insubstituível em qualquer cozinha. Vá, numa kitchenette também.

Malga e almoçadeira.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

O que se aprendeu, hoje, com a Mariana... - LVII

Que a mentira tem perna curta.

Que tentar evangelizar uma filha, sendo de um clube pequeno e pouco popular, assusta o mais temerário dos pais.


Pai de Mariana - Mariana, vou sair para ver o jogo da Académica.

Mariana - Posso ir contigo? Também queria ver o jogo...

Pai de Mariana - Não...

Mariana - Quando chegares dizes-me logo quanto ficou!

(Académica soma o décimo segundo empate; Académica fica nos lugares de descida; Académica faz mais uma exibição sofrível)

(Pai de Mariana regressa a casa)

Mariana - Quanto ficou o jogo?

Pai de Mariana - Ganhámos!

Mariana - Boa!!!

(Vergonha... vergonha...)

(Dez minutos depois, a avó da Mariana liga...)

Avó de Mariana - Filho, quanto ficou o jogo?

Filho da avó de Mariana - Espera... tenho que ir responder à varanda.

Avó de Mariana - Porquê?

Filho da avó da Mariana - Hmmm.... Já explico. (Varanda) Porra. Empatámos, outra vez.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Carnaval (terceirense)


A propósito dos últimos acontecimentos na Saúde em Portugal...

... recauchuto um vídeo que fiz há uns tempos. Como era bom se não fosse (tão) actual.

As Lajes do desencanto (ou o desencanto de um terceirense adoptado com o que tem visto nos últimos tempos)

No próximo cinco de Outubro a minha saga açoriana cumprirá o seu décimo aniversário. O que, na arrogância pueril do controlo sobre o que não é passível de controlo, seria uma espécie de “toca e foge” insular de um par de anos, transformou-se numa relação umbilical com uma ilha, com um arquipélago. Sou terceirense, e defendo esta terra como se de Coimbra se tratasse. Desde muito cedo construí uma relação de amor com Angra do Heroísmo, fascina-me o nascer do Sol no Piquinho, chateia-me Ponta Delgada, mas admiro tudo o que sobra de São Miguel, vejo nas fajãs de São Jorge uma metáfora belíssima e apaixonante, quero ter uma casa nas Flores para a reforma e morar um mês seguido no Corvo antes de morrer (que me perdoem o cliché).

Sinto-me açoriano, com “e” ou “i”, consoante os gostos ou a tendência para a singularidade ortográfica. Quero sê-lo, apesar de tudo, mais tempo. Sinto que o serei, mesmo se a brisa do destino me afaste do Atlântico. Criei raízes aqui, crio uma terceirense feliz todos os dias (que gosta menos de Coimbra do que deveria, para espanto e desgosto da família conimbricense e dos seus pais) que já foi marchante no São João e que, amanhã, sairá num bailinho pelo Norte da Ilha, com um orgulho indirectamente proporcional ao seu tamanho. 

Dez anos depois, há coisas que, por estas terras de bruma, que insisto em não conseguir entender, que insisto em não ser capaz de lidar. Muito daquilo que leio, que vejo e que interpreto da tão propalada, quanto enviesada, questão da Base das Lajes coloca sal na ferida da divergência, da divisão estéril entre ilhas e do auto-flagelo açoriano do umbiguismo territorial, acentuando a derrota da utopia da harmonia regional. (E o que poderiam ser os Açores, se a tivessem…) 

Há dias, na Casa da Académica de Lisboa, procurava explicar aos meus apaniguados académicos o impacto no concelho da Praia da Vitória, na Ilha Terceira e nos Açores do terramoto sócio-económico que se avizinha, a pessoas a quem, tal como eu antes de ter a sorte de ser terceirense, os Açores nunca foram ensinados. O desconhecimento era grande, algo que, apesar de tudo, se compreende, mas a preocupação empática manifestou-se. Alegrou-me, por ser uma manifestação genuína, além da estreiteza dos estereótipo anacrónico e foleiro (confrontar, por favor, a edição do Prós e Contras realizada sobre os Açores, há uns meses, no canal público de televisão).  

Leio muitos jornais, serei dos poucos continentais que faz do Diário Insular, do Açoriano Oriental, da RDP Açores e da RTP Açores um hábito diário (ainda que com uma complacente paciência da Célia), percorro com afinco grupos açorianos pelos meandros do Compêndio das Faces. Muito do que leio aflige-me, atinge-me no patamar da incompreensão, na minha costela enxertada açoriana. O preconceito que brota de algumas palavras, o narcisimo que constato noutras, o egocentrismo insular que radica noutras tantas ou o indecente cavalgar da onda mediática de alguns, insulta a minha alma terceirense e a minha raíz açoriana. 

Há uns tempos, num programa de rádio com a simpática Eduarda Borba, foi-me perguntado, enquanto aprendiz de feiticeiro* continental, se acharia que a vivência insular dos açorianos lhes moldava a personalidade, se haveria alguma característica distintiva. Frisei a resiliência, a força motriz da reconstrução, da sublimação de dificuldades e desafios. 

A estreiteza das percepções, o irromper de velhas querelas mantidas em lume brando  e a limitação evidente da memória entristece e fere o ideal da resiliência. Onde fica a memória da vivência regional, do contributo regional, para o desaparecimento das empresas do cabo submarino no Faial, dos ingleses de Santa Maria, para a decadência da cultura fluorescente da laranja em São Miguel ou para a saída dos franceses da Ilha das Flores, por exemplo, para os imprevistos trágicos da natureza um pouco por todas as ilhas que testam a fibra de um arquipélago que deveria olhar com orgulho para as suas cicatrizes. Que não as deveria transformar em feridas. Que não pode correr o risco de infecção, da amputação que decorre da clivagem. Que não pode canibalizar a solidariedade, a união, a comunidade arquipelágica e que se condena a ser uma caricatura de si mesma, enquanto não o conseguir. A Terceira irá continuar, reinventar-se-á (mais uma vez), doe a quem doer. Como era bom se os Açores, como um todo, também o fizessem. 

Até amanhã, Terceira. Até sempre, Açores.


* Vulgo, psicólogo clínico.

Das palavras que é uma pena que não sejam usadas mais vezes... - I

Ruim.

O meu amor existe

O que se aprendeu, hoje, com a Mariana... - LVI

Que "não há morte para o amor", mesmo.

Que "não há machado que corte a raíz do pensamento", nunca.

Que o orgulho preenche a alma, mesmo quando ela dói. Que o amor sublima a saudade.


Mariana (caminhando, fitando os olhos do avô paterno, numa foto emoldurada que trazia nas mãos): Tenho saudades do pai do pai...

Pai de Mariana (a fazer-se de forte): Como é que podes ter saudades de alguém que não conheces?

Mariana: Mas tenho. Tens saudades do teu pai?

Pai de Mariana: Sim. Muitas.

Mariana: Mesmo sem o ter conhecido ele pode ser meu avô na mesma?

Pai de Mariana (a fazer-se de forte): Sim. Claro que sim.