domingo, 4 de outubro de 2015

"Saúde e democracia"

"Saúde e Democracia". Era assim que, no período pós 25 de Abril, acabavam as cartas de um dos meus avôs, operário fabril, hábil serralheiro na Fábrica da Cerveja. Nestes dias, em que procuro ensinar à Mariana a importância do voto*, não consigo deixar de lembrar nessas palavras manuscritas, encontradas em cartas antigas junto a cartazes, com letras desenhadas a caneta de feltro, que nunca chegaram a agitar os trabalhadores, em tempos em que agitar se tinha tornado possível e, sadiamente, obrigatório.

Nestes dias, lembro-me dos meus outros avós, os da aldeia, aperaltados, como se fosse Domingo de Páscoa, dirigindo-se, em conjunto, à assembleia de voto, num ritual solene, quase religioso. Lembro-me deles. Lembro-me da sua consciência da importância do voto e imagino, sem saber o que seria, o que seria querer e não poder participar, dar a sua opinião e contribuir para a construção democrática do país que é seu.

E sinto-me (ainda mais) obrigado a ensinar à Mariana a importância destes dias, a educá-la para a sociedade democrática para que ela não seja uma das pessoas que não vota. Aquelas a quem o meu avô, do alto do seu fato e gravata e cabelo aprumado, diria das boas, nestes dias. E faria bem. Muito bem.

*Tendo a Mariana questionado se a sua mãe teria votado na sua Tia L. "Votaste na Tia L., não votaste, mamã?"

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