terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Académica

Na minha profissão, enquanto psicólogo, falo muito de limites, da necessidade de os estabelecer, de os respeitar e da firmeza necessária quando os mesmos são ultrapassados. Da forma como os mesmos, por exemplo nas relações, não devem ser re-traçados de forma recorrente, de uma forma que perturbe uma das partes e que lhe roube a sua identidade, os seus valores, a sua singularidade enquanto pessoa.

Hoje, com este vergonhoso mercado de Inverno, batemos mais uma vez no limite, aquele que retraçamos há anos. Aquele que já estava mais do que ultrapassado, aquando da FInal da Taça de 2012. Foi uma das maiores alegrias da minha vida, mas deu um balão de oxigénio a quem não o merecia. A quem não o aproveitou. Não, poupem as teclas, não estou a dizer que preferia não ter ganho a Taça. Estou a dizer que me revolta onde estamos, só, quatro anos depois. Em tudo, TUDO, estamos pior. Em TUDO continuamos a ultrapassar limites. Dir-me-ão que na formação estamos melhor. Não sei. Tardamos em ter uma política que a enobreça. Temos gente responsável com vínculos mais do que precários ao clube. Temos gente competente nas camadas jovens, seja nos jogadores, seja nos treinadores. Seremos capazes de as agarrar? Temo que não. Temos pessoas, não temos uma política. Aderlan é um dos piores laterais que já passou pela Académica; leio que temos um puto bom nos juniores, que fizeram uma óptima carreira até agora. Joga? Tem uma oportunidade? Não. Não vou na teoria dos amarelanços a mais no jogo com o Sporting. O Aderlan é expulso, e bem expulso. Assim como o Rafael Lopes poderia ter visto uma amarelo alaranjado mais do que justo. Assim como marcamos um golo ridículo de tão ilegal que era. O terceiro golo é responsabilidade do Aderlan que se fez expulsar. A culpa não é dele. É de quem o contratou. A ele, ao Ofori, ao Lucas Mineiro e a dezenas e dezenas de jogadores. Nunca falamos de Luís Agostinho. Será, penso, o director desportivo que, há mais tempo, ocupa um lugar semelhante na Primeira Liga. Dirige desportivamente o quê? Com que critério? Com que salário? Com que produtividade? Presumo que, na Académica, não haja avaliação de desempenho. Na Académica habituámo-nos a não entender as decisões. Já não estranhamos. Discutimos uns com os outros, os progressistas contra os tradicionalistas, os do pontapé na bola contra os do jogador estudante, os coimbrinhas contra os cosmopolitas, os do JES contra os do Anti-JES. Pelo meio, a Académica definha. A energia tem que estar focado na alternativa. Tem que haver alternativa. Ontem já era tarde.

Já agora, há quatro anos ganhávamos ao Atlético de Madrid, orgulhando na carreira na Liga Europa. Onde estamos, hoje, em TUDO? Pois.

Estou-me marimbando para quem me/nos acusa de poesia desmesurada ou de um so called sebastianismo. Até para que me/nos acusa de ser coimbrinha (seja lá isso o que for que, em 34 anos de vida, nunca entendi). Sei que muitos de nós têm uma visão do que pode ser a Académica, na sua singularidade. Com diferenças na diversidade de opiniões, mas, espero, com a certeza do carácter absoluto dos valores que nos distinguem. É ser coimbrinha reconhecer a VERGONHA que, no momento, somos? É ser poeta ter aprendido o que é a Académica e querer que haja uma versão simbiótica que conjugue valores com modernidade, rentabilizando formação, futsal (sim… o ideal do jogador-estudante pode exponenciar-se, também, aqui!) e sucesso desportivo? É saudosista querer uma Académica ligada à Universidade e à cidade? É ser coimbrinha revoltar-me contra o degredo em que estamos? É ser sebastianista desejar alguém, uma equipa, uma visão para a Académica que não nos envergonhe, no lugar de pessoas em que cada vez menos se revêem?

Já agora, há quatro anos metíamos mais de quinze mil pessoas, num dia de semana à noite contra a Oliveirense? E agora, onde estamos? Com duas mil pessoas por jogo, uma claque alienada e um número de sócios a mirrar todos os meses (o que, naturalmente, é altamente conveniente…? Quantas pessoas conhecem, como eu conheço, que deixaram de ser sócias, nos últimos anos? Centenas? Milhares!

Acho, sinceramente, que evitaremos a descida. Acho, com pena, que continuaremos a re-traçar o limite. A fugir dos rótulos, numa espiral conformista. TUDO o que a Académica não devia ser.

Sugiro que, um dia, tal como eu já fiz, vão ver um jogo da SF. A “outra” Académica. Cheira mais a Briosa, do que o OAF. Uma caricatura de si mesma, no momento.

Acabou o tempo desta Direcção que está a matar a Académica e a alienar o seu património histórico. E, pelo que vou lendo, a não fazer grande bem ao património financeiro. Chega. Acabou o tempo de um presidente que nos envergonhou, ainda que tenha tido um papel válido numa altura em que ninguém queria agarrar na Académica. Sim, tem esse mérito. Dou-lhe esse mérito. Chega de um Godinho que ameaça sócios e que, igualmente, se eterniza. Chega de um Agostinho, como atrás referi.

Há menos de quatro anos, sonhámos. Hoje já não estranhamos o pesadelo.

Quero, mesmo, a minha Académica de volta. Estou farto de ver todos os limites ultrapassados. Sei que não estou sozinho.

A-CA-DÉ-MI-CA

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