terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Quando levar a mal, no Carnaval, devia ser obrigatório...

Mais uma vez, na época carnavalesca, deambulando pelos canais televisivos, foi impossível não nos depararmos com as reportagens, por vezes inenarráveis, sobre os Carnavais espalhados pelo país. Por esses dias, dou sempre por mim a lembrar um pequeno "E" que encontrava colocado nos calendários no quadradinho reservado ao dia de Carnaval, que me intrigava quando andava na escola, em petiz. Se é dia de Carnaval, porque raio aparece um "E" e não um "C", pensava.

Este ano dei por mim, novamente, a pensar no Entrudo ou, dito de maneira diferente, a rejeitar, ainda mais, o entendimento bafiento e abrasileirado que se tornou regra em Portugal quando se aproxima esta altura do ano. Não deixa de ser irónico que o povo que se está a abrasileirar no Carnaval, tenha sido o povo que levou as práticas do Entrudo para o Brasil... Sim, as voltas da história são retorcidas. No fim de contas, o que muitos fizeram, ao longo dos tempos, foi trocar a tradição portuguesa de festejo do Entrudo pela versão brasileira carnavalesca do mesmo que, insidiosamente, foi sendo recambiada para o nosso cantinho.

E o Entrudo, entendido como uma súmula das verdadeiras tradições nacionais, foi sendo esquecido em nome da sua subversão na forma de ritmos e práticas culturalmente e meteorologicamente desfasadas, de senhoras desengonçadas cuja quantidade de tecido no corpo é indirectamente proporcional ao volume do mesmo, pela parolada do endeusamento dos actores de telenovela e por uma imitação de outros carnavais contextualmente e culturalmente localizados. O que é uma pena. Ao contrário do que se possa pensar, e do que é habitualmente salientado nesta altura, o Entrudo é rico em tradições, hábitos e movimentos culturais que, não havendo uma inflexão carnavalesca, se irão perder e tornar uma simples excentricidade. A tradição terceirense de festejo do Carnaval é um feliz exemplo da perenidade da tradição carnavalesca popular, que, sadiamente, não acusa a erosão do tempo ou o ostracismo de tantos que não o querem, ou não o sabem, valorizar.

Na Terceira, e noutras paragens do país, resistem hábitos culturalmente e contextualmente enraizados que deviam, e facilmente podiam, ser enfatizados, permitindo ganhar terreno à más imitações acríticas daquilo que se faz noutros locais do mundo. E se é certo, ou pelo menos dado como certo, que no Carnaval ninguém leva a mal, também é certo que rrita que poucas pessoas não levem a mal que lhes sejam insidiosamente subtraídas coisas que são suas. Levar a mal o ostracismo mediático, na comunicação social nacional, deveria ser obrigatório no Carnaval. Levar a mal a disparidade mediática entre esta singularidade da Terceira e outras que a caracterizam deveria, igualmente, acontecer. Pelo menos na opinião deste terceirense adoptivo que, quer-me parece, não está sozinho na opinião…

Este ano, a Terceira voltou a protagonizar aquele que é um espectáculo de arte popular singular, enorme, significativo e, que continua a ser, desconhecido para tantos e tantas fora da Ilha. Um Carnaval de luxo cuja importância e significado não encontra eco na forma como é tido em conta, noutras paragens. Um tesouro que continua a ser ignorado, fora destas nove ilhas, sem merecer uma reportagem digna nos órgãos de comunicação social nacionais. Abaixo os sambistas de ocasião! Vivam os caretos, os gigantones e, acima de tudo, todas as danças. comédias e bailinhos do Carnaval da Terceira e todas as pessoas que participam, nas mais variadas formas, neste fenómeno único.

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