sábado, 27 de agosto de 2016

Sai (mais) uma medalha de lata para Portugal nos Jogos Olímpicos!

Ouro, prata e bronze. Metais preciosos que premeiam aqueles que ocupam os três primeiros lugares do pódio nas Olímpiadas, de quatro em quatro anos. O bulicio competitivo, a exigência técnica crescente, a gestão emocional da maior das competições tornam, a cada quatro anos, imprevisível a atribuição das três medalhas nas diferentes competições. O que, no fundo, torna (ainda) mais atractivos os Jogos onde o espírito olímpico se exponencia e ganha significado. Já a medalha de lata é tão previsível como a vitória de Usain Bolt, numa corrida do hectómetro, contra qualquer um que leia estas linhas ou que as tenha escrito.
A medalha de lata é para nós, enquanto povo que acompanha (?) os Jogos Olímpicos. Para nós, enquanto povo que, tal como um interruptor, activa a sua suposta cultura desportiva de quatro em quatro anos, não conseguindo disfarçar a ausência da mesma e de deixar de assumir uma ignorância atrevida que se traduz numa exigência cega e num gatilho fácil para opiniões e para teclados hiperactivos.
Mais alto, mais longe, mais forte. É o lema. Devíamos acrescentar “mais justos, mais humildes”, no nosso caso. Mais alto, mais longe, mais forte, mais justos, mais humildes. A ausência de medalhas não traduz a qualidade dos atletas, de forma pura e simples. Traduz a ausência de uma cultura e de uma política desportiva coerente, perene no tempo e que resista a ciclos políticos e devaneios passageiros. E que requer, diga-se, investimento financeiro e, acima de tudo, pensamento estratégico.
Pensemos. A relação com o fenómeno desportivo, nas suas diversas dimensões, que existe no nosso país prima por demasiadas lacunas. A Educação Física (que continua a ser tratada por muitos, de forma redutora, por “aulas de ginástica”…) é vista, normalmente, como um peso no currículo dos alunos, um mal necessário. O Desporto Escolar, a minha escola do desporto, é uma aposta adiada, ainda que me pareça que, na Região, marcamos pontos neste domínio.
Há, em muitos e muitas, uma sobranceria incompreensível em relação ao desporto, como se constituísse uma expressão de segunda categoria face a outras. Sim, muitos destes permitem-se descer do patamar do preconceito e da arrogância para ver os Jogos, fazer partilhas nas redes sociais sobre os desportos tidos como válidos ou socialmente mais valorizados e tornarem-se pseudo-especialistas em desporto. Para, após essa extraordinária metamorfose, e a partir do último instante da cerimónia de encerramento, iniciar uma hibernação e reactivar o arsenal de comentários depreciativos em relação a tudo o que se relacionar com o desporto, nos quatro anos seguintes. Claro. Excepção feita a quando se ganha. Ou o clube de futebol ou a selecção, que só se acompanham quando as vitórias são iminentes.
Confundimos, demasiadas vezes o desporto, enquanto escola de valores e ideais, com o reducionismo do futebol. Mesmo no futebol a relação é, fundamentalmente, com o clube, não com o desporto. Aliás, num país que gira em torno de três eucaliptos, o fenómeno desportivo é, tantas vezes, prostituído pela ânsia de ganhar, de substituir as agruras do quotidiano pela fugaz alegria da vitória. Estádios minimamente cheios quando há vitórias, vazios quando não as há. Estádios, quase sempre, vazios nos clubes mais pequenos, mesmo aqueles dos clubes locais. Cá na terra, por exemplo, quantas pessoas que marcaram presença no Angrense-FC Porto, para a Taça de Portugal, compareceram no jogo seguinte, no Municipal de Angra? Eu, que lá fui, confirmo que poucas. Muito poucas.
Não percebemos os valores inerentes ao desporto, nem a forma como o desporto de alta competição funciona. Tendemos a achar, com a nossa medalha de lata bem lustrosa ao peito, que as medalhas que ganhamos traduzem o desporto nacional. Errado. Dependemos de foras-de-série que, num país diferente, atingiriam um patamar estratosférico ou que, em muitos casos, treinam ou já treinaram em paises estrangeiros (João Sousa, em Barcelona, ou Patrícia Mamona, nos Estados Unidos, por exemplo). Não percebemos que o desporto é uma escola de valores, onde se exponenciam o trabalho, a dedicação, a perseverança, a aprendizagem da frustração, da sã competição, do respeito pelo outro ou da coragem (e não são estes muitos dos valores que queremos educar aos nossos filhos e filhas?...). Não levamos os miúdos a competições desportivas e, muitos, não os acompanhamos nos treinos, nem comparecemos nos momentos competitivos.
Não percebemos, ou nem sequer sabemos ou queremos saber, o que implica o desporto de alta competição, nos dias de hoje. Não sabemos o investimento que existe no fenómeno desportivo nos outros países, achando que devemos ter o mesmo número de medalhas que países de igual ou menor dimensão. Não percebemos que, nos Jogos Olímpicos não se comparam, unicamente, resultados mas, fundamentalmente, processos.
Portugal investirá, no ciclo 2013-2017, um total de 17,7 milhões de euros para todas modalidades e 4,55 milhões de euros para o ano de 2016. Repito para todas as modalidades e para todos os atletas, aqueles que se qualificam e aqueles que não logram a qualificação. A Irlanda, país mais pequeno que nós, investe perto de 40 milhões em quatro anos. Planeou investir 10 milhões de euros por medalha olímpica. Uma ninharia se pensarmos que, por medalha olímpica, a China investe 40 milhões de euros e que, no Reino Unido, um ciclo olímpico implica um investimento de mais de 400 milhões de euros. Resumindo, o investimento numa única modalidade, em muitos países, supera o nosso investimento global. O desporto olímpico é feito de ciclos de quatros anos; já a evolução dos atletas decorre durante décadas, numa maratona de sucessos, obstáculos e pormenores, não numa corrida de 100 metros de duas semanas.
Criticamos os atletas pelo facto de não nos colocarem no topo do medalheiro ou por se “queixarem” das condições que não têm, na sua preparação olímpica. Fazemo-lo, contudo, quando, por vezes, só trabalhamos nas condições ideais ou recusamos desafios pessoais e profissionais, não sabendo lidar com o risco que as mesmas implicam. Criticamos. Exigimos. Lustramos a nossa medalha de lata.
Quantos frequentaram uma competição desportiva, sem ser um jogo de futebol, nos últimos quatro anos? Quantos procuraram um atestado para dispensar os filhos da Educação Física, quando, lá bem no fundo, não há uma razão válida para isso? Quantos acompanharam os clubes locais, seja em que modalidade for? Quantos, sequer, conhecem os jogadores de futebol dos seus clubes ou viram um jogo completo nos últimos quatro anos? Quantos conhecem um herói, sem medalhas ao peito, chamado João Rodrigues, o nosso recordista de Olímpiadas?
Revi-me nos diplomas olímpicos (sim, nos Jogos Olímpicos distribuem-se medalhas de ouro, prata e bronze, ganham-se medalhas de lata e asseguram-se diplomas olímpicos) conquistados, vibrei com a medalha de Telma Monteiro (umas das foras de série que, atrás, referi), acompanhei o esforço dos maratonistas na cauda do pelotão e daqueles que participaram com as nossas cores ao peito. Não ganhar medalhas não é motivo para não lhes agradecer.
Agradeço a todos, à falta de razão concreta para não o fazer. Agradeço por fazerem parte dos melhores do mundo naquilo que fazem, honraria que nunca na minha vida terei nas coisas que, profissionalmente, faço. Agradeço por representarem o meu país, mesmo quando partem para a competição sabendo que o fazem de um ponto de partida mais distante que a grande maioria dos restantes competidores.
Sonho, um dia, em que participamos em quase todas as modalidades, conquistando uma ou outra medalha e dezenas de diplomas olímpicos. Preferia isso, traduziria isso um crescimento na cultura desportiva do país, do que a existência de meia dúzia de foras de série que garantissem medalhas. Essas viriam por acréscimo, no futuro. Essa entidade longínqua pela qual, em tudo e também no desporto, nos recusamos a saber esperar.
Daqui a quatro anos, estaremos em Tóquio. Espero que sem a medalha de lata que, hoje, nos pesa no peito.

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