sábado, 25 de novembro de 2017

O que se aprendeu, hoje, com a Mariana... - LXXIX

Que a espécie papis babadus aparece, cá em casa, de vez em quando.

Que é demasiado fácil que a Princesa provoque o seu aparecimento.

Que, quando Filipe se transforma em papis babadus, ocorre um estado de insanidade temporária que o impede de ver as coisas como elas são, além daquilo que ele gostava que fosse.

Que os pais são muito pouco resistentes às suas princesas. Mesmo. E que, quando se transformam em papis babadus, são tão manobráveis como um carro com direcção assistida, daqueles bons que têm um botão para que a direcção se torne ainda mais fácil de usar.

Que as mães atentas e competentes usam a cabeça nas alturas certas, sem escorregarem na baba dos seus congéneres parentais.

Que é bom passar por isto tudo.

Que, lá no fundo, a Princesa está a crescer todos os dias e que o esforço de a acompanhar, sem escorregar na baba, existe, dia após dia.


Este relato tem três actos, que compreendem o esplendor da Princesa, o advento do papis babadus e a sua, pouco surpreendente, derrota face à clarividência de uma mãe que, felizmente, está sempre atenta aos pormenores, com a minúcia de uma neurocirurgiã parental.

O pai da Mariana possui poucos talentos. Pentear princesas não é um deles. Digamos que está para essa arte como o Quintino Aires está para o bom senso. Aliás, as tentativas anteriores de pentear a Princesa ou de lhe fazer um tótó na cabeça já levaram a gritos pela mãe para terminar a tarefa, mesmo quando o pai se está a esforçar para levá-la a contento. E, quando a mãe não está, já houve pedidos para que sejam "as senhoras do ATL", a fazer-lhe o tótó, antes da escola. Sim. O pai obedece.

A mãe da Princesa ausentou-se para outra ilha, lá para o Grupo Oriental*, o que levou a que a habitual rotina matinal cá de casa fosse alterada. Sobraram todos os preparativos matinais para uma Princesa e um pai.

Algures pela manhã, aparece uma inusitada pergunta.

Princesa: Pai, podes pentear-me hoje?

Pai: Hmm?! Sim, claro.

Princesa: Pai, sabes uma coisa?

Pai: Sim...

Princesa: Estás a magoar-me um pouco, mas não há problema. Estás a pentear-me muito melhor do que a mãe me penteou ontem.

Pai (em pensamento): Boa, Pai! Finalmente aprendeste a não torturar a garota com a escova.

Princesa: Mas, por favor, deixas-me acabar sozinha... eu já sou grande.

Pai: Claro, claro.

Finalizada a rotina matinal, ala para o carro. Às primeiras curvas, ali algures pelo Bairro de Santa Luzia, a princesa dispara.

Princesa: Ainda bem que não tens ido para fora como a mãe e ficas comigo...

Pai (em pensamento, com o cérebro embebido em baba): Boa, Pai!

Umas valentes horas depois, Filipe conta à Mãe da Princesa os episódios, num misto de surpresa e baba.

Pai da Princesa: Porque achas que ela disse estas coisas?

Mãe da Princesa (em modo reality check): Óbvio. Vai-te pedir alguma coisa, em breve.

Pai da Princesa (em pensamento): Tenho saudades do papis babadus**.


* Para os continentais, quem é que consegue identificar as ilhas do Grupo Oriental dos Açores, sem questionar o Dr. Google?

** Ainda não pediu nada... Sim. É gajo para acontecer. Não. Não volteou a pedir para a pentear.

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