domingo, 28 de janeiro de 2018

O que aprendeu, hoje, com a Mariana... - XCII

Corria o ano de 1996, e na antecâmara de mais um jogo da Académica, fazia-se o habitual percurso para o estádio, o saudoso Calhabé, versão anterior (mas com mais identidade) do actual Estádio Cidade de Coimbra.

O percurso para o estádio tinha o seu quê de sacramental. Aprendeu-se com o avô da Mariana que era a única altura em que queimar os limites de velocidade era permitido, num mandamento que se mantém inviolável nos dias de hoje. Nesse ano de 1996, o ZX vermelho lá de casa passou entre os pingos da chuva dos radares de velocidade com uma fortuna incomensurável por várias vezes.

Além do rebentamento dos limites de velocidade, havia outros mandamentos, professados num movimento de partilha que só quem aprecia o jogo da bola consegue compreender e, empaticamente, sentir.

Ouvir o rádio, à ida para o jogo, na Rádio Regional do Centro para aquilo que, hoje, se chama projecção do jogo. Ouvir o onze inicial, discutir as opções e criticar as opções do treinador, encontrando, sempre, melhores opções. Há treinadores de bancada e treinadores de banco de carro. O pai e o avô da Mariana eram peritos nos dois. Nem sempre se percebia quem era o treinador principal e quem era o adjunto.

Chegar antes do jogo era outro deles. Ver o aquecimento do guarda-redes, pregar partidas ao guarda-redes adversário (chamá-lo pelo nome, numa altura em que o estádio estava quase vazio, e, quando ele olhava gritar "toma" enquanto se eriçava um dos dedos, aquele que habita entre o indicador e o anelar. Funcionava sempre... Chamai a SuperNanny!).

Comprar pevides e amendoins que se iam consumindo num assomo devorador que dava uma folga temporária às unhas fazia parte das tábuas do Moisés da bola.

Dar um abraço nos golos constava na lista de mandamentos. Conter uma lágrima em conjunto nos jogos mais emocionantes. Cumprimentar fosse quem fosse que estivesse à volta, do conhecido ao completo desconhecido.

Comer castanhas no Outono, ou um gelado no Verão, enquanto se esperava pela saída dos jogadores para uma palavra de apreço ou de critica, nas horas piores. O casamento futebolístico nem sempre se mantém na sorte e no azar, na vitória e na derrota.

Ah. E nunca levar o chapéu de chuva às cores. Era óptimo, cobrindo o amor pela Académica da chuva que caía no Inverno, mas desde que se levou a primeira vez e o jogo terminou numa goleada em casa, não mais o chapéu viu a Académica. Os mandamentos são para cumprir.

Enquanto se fazia a Via Sacra para o estádio, nesse jogo algures em 1996, percebeu-se que, aparentemente, a Académica ia jogar com defesas a mais. Estava no onze um jogador chamado Abazaj, albanês de nascimento, defesa central, bem como mais dois colegas de posição (um deles, um jogador chamado Dinis, imortalizado como o Sandokan do futebol português). Exploradas todas as opções de um treinador chamado Eurico Gomes, entrou-se no estádio com um cachecol de dúvidas sobre o posicionamento dos jogadores, dada que o jogador balcânico estava para a técnica como o Bruno de Carvalho para a empatia. Não tinha muita.


Começa o jogo. O panzer albanês surge a ponta-de-lança, num esforço de esticar o conceito de polivalência ao máximo. As profecias do pai e do avô da Mariana cumpriram-se. O Abazaj não fez um bom jogo, não marcou qualquer golo e não terá voltado àquela inusitada variação táctica. No futebol, a polivalência nem sempre é um bem. Que o diga o André Almeida, do Benfica.

Este relato vem a propósito de mais um episódio em que se aprendeu com a Mariana e se percebeu que ela, ao contrário do Eurico Gomes, domina a polivalência.

Quem tem miúdos e um smartphone deve conhecer o Akinator, aplicação em que um génio da memória RAM coloca questões aos petizes, e por um processo de exclusão de partes, adivinhando as pessoas ou personagens que têm em mente.



A Mariana inicia o ciclo de perguntas, enquanto o pai ia respondendo ao génio. Objectivo: descobrir se ele adivinha a nova youtuber que a Mariana começou a acompanhar, uma Mandy qualquer coisa, que, à terceira tentativa, o Akinator adivinhou.

Mariana: Pai?

Pai da Mariana: Sim?

Mariana: Vamos tentar mais uma vez. Vamos experimentar se ele descobre quem é o Eugénio de Andrade (que a Mariana foi declamar numa excelente iniciativa da Biblioteca* angrense).

O Akinator não chegou lá. Passaram uns segundos e a Mariana inicia mais um ciclo de respostas ao interrogatório.

Mariana: Não estou a conseguir... estava a ver se ele adivinhava o avô, o teu pai.

Hoje aprendeu-se que, aos oito anos, a polivalência tem mais significado que numa tarde, algures em 1996, em que um albanês andou perdido num rectângulo verde.

Aprendeu-se que a Mariana, no conceito de polivalência, ganha por pontos ao André Almeida, que joga em todo o lado, sem jogar em lado nenhum.

Que o Akinator não adivinha as pessoas realmente importantes. As suas bases de dados não chegaram ao avô da Mariana.


* Que, como a Mariana, tem dominado a polivalência de uma forma magistral na profusão e variedade de iniciativas.

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