domingo, 7 de janeiro de 2018

O que se aprendeu, hoje, com a Mariana... - LXXXIX

Que o Bob Dylan tem toda a razão quando diz que os tempos estão a mudar, numa canção que a virtuosa Nina Simone recriou com brilhantismo, uns anos depois.

Que o prazo de validade para acharmos graça a algumas coisas é curto e que a contagem decrescente já começou.

Que é muito ternurenta a forma como rapazes e raparigas de oito anos podem ter uma amizade verdadeira, sublimando as diferenças entre os géneros. Que nunca percam essa capacidade que tantos adultos já esqueceram, perdidos em si mesmos, amordaçados pelos estereótipos.

Que, ao contrário do que proclamam os profetas da desgraça da parentalidade dos dias de hoje, é possível sentirmos orgulho das nossas crianças e das outras que, com elas convivendo, nos deixam, ainda que de forma diferente, orgulhosos também.

Ontem foi dia do M., amigo de sempre da Mariana, vir cá a casa. Numa combinação bem urdida pelos dois, daquelas que os pais vão sabendo aos pouquinhos, a reboque do receio de um sonoro "não!" trair as expectativas criadas e alimentadas pelos petizes, combinou-se que o M., além de jantar connosco, dormiria cá em casa, para dar tempo a que se realizasse a contento todo o rol de coisas que haviam pensado para o tempo em conjunto. Não. Aos oito anos de idade não há noção que o tempo não chega para tudo.

Pelo caminho,  iniciou-se a realização comunitária das pizzas para o jantar, num chão da cozinha que empalideceu, tal a quantidade de farinha que foi voando entre a banca e os pequenos chefes e entre os pequenos chefes.



Pais da Mariana - Podemos comer na mesinha da sala... vocês põem a mesa enquanto nós orientamos o resto das pizzas.

Obedientes os M.&M. foram reunindo os utensílios para pôr a mesa, plenos da autonomia que, sadiamente, têm.

Uns minutos sem vir à sala, e, eis senão quando, está posta uma mesa para dois. Dois pratos, dois copos, dois talheres e dois guardanapos, com o sumo já colocado em cada copo.

Pais de Mariana (num ingénuo uníssono, enquanto levavam as pizzas que cada pequeno fez para si para a sala) - Faltam mais dois pratos...

M&M - (troca de olhares e longo silêncio)

Pai de Mariana (a adivinhar a resposta, ao mesmo tempo que lhe achava piada e se sentia confundido por ela) - Então a mesa é só para vocês jantarem?

Mariana (em modo cara de pau) - Hmmm... Sim.

M. (em modo cara de pau) - (Longo aceno afirmativo).

Passam uns segundos, aqueles que os pais necessitam para digerir a surpresa e as situações em que são desarmados por aqueles que têm quase trinta anos a menos.

Pai de Mariana (em modo saída airosa, com base numa qualquer piada forçada, algo que faz vezes demais) - Querem que ponha uma vela acesa, não?

M. - Não... espera pode ser!

Mariana - Era fixe.

Pai de Mariana recolhe à cozinha. E por lá ficou. Seguro da amizade daqueles dois e de que o M. é um miúdo fixe. E que daqui a uns anos está condenado a uma úlcera nervosa. E, sim. Ficou pela cozinha a jantar.

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