terça-feira, 27 de março de 2018

O que se aprendeu, hoje, com a Mariana... - XCV

Diz a sabedoria popular que a vida dá muitas voltas, legitimando a tendência do ser para voltar aonde já esteve, sejam esses lugares, físicos ou interiores, bons ou maus, num movimento circular que se vai fazendo sem que, na maioria das vezes, nos apercebamos.

Na parentalidade, estes círculos, maiores ou menores, também existem.  Na parentalidade é, igualmente, fácil, e enganador, criar uma cisão entre os papéis de pai e de filho. Entre o tempo em que nos sentimos filhos e o tempo em que somos pais. Entre o tempo em que os nossos pais fizeram o melhor que souberam, mesmo nos dias em que os levávamos ao limite da paciência, e o tempo em que esgravatamos o terreno da parentalidade, nos dias em que até a melhor das princesas nos conduz ao beco escuro da frustração.

A realidade, contudo, obriga-nos a preencher o requerimento da acumulação de funções e perceber que somos e fomos filhos e que somos pais. Como os nossos pais foram e são.

Ser um pai (relativamente) jovem, numa geração impregnada dos valores da parentalidade e sendo alquimista da alma, conduz, por vezes, a uma espécie de novo-riquismo parental em que nos refugiamos, assumindo que a nossa forma de sermos pais está muito longe daquela que foi protagonizada pela geração anterior.

O círculo fecha-se, com estrondo e com um sorriso, quando proferimos uma daquelas frases que sempre dissemos que não iria fazer parte do nosso arsenal parental.

Um destes dias, enquanto se dava o salutar beijinho de boa noite (e antes de dizer ao ouvido o segredo que lhe é dito ao ouvido todas as noites...), a Princesa discorria sobre os seus direitos, a propósito da indumentária:

Princesa: Eu tenho o direito de ser eu a escolher a minha roupa, sempre!

Pai de Mariana: Sim, mas há alturas em que os pais têm uma palavra a dizer. Se não for assim, andavas todos os dias de fato de treino...

Princesa: Mas porque é que os pais podem mandar em mim?

Pai de Mariana (carregando o último segmento de um círculo que estava há oito anos, três meses e quinze dias à espera de ser fechado, bem como o aparelho de solda para o colocar e o capacete de protecção correspondente): Quando fores mãe, vais perceber...



Pai de Mariana (em pensamento, enquanto admirava a perfeição do círculo que acabava de fechar, estrondosamente): Filipe, tu não acabaste de dizer isto?!

Foi o beijinho mais divertido de sempre, dado enquanto saiu uma gargalhada que a Princesa não terá percebido.

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