quarta-feira, 25 de abril de 2018

25 de Abril (sempre) na data marcada...

25 de Abril. Cravos na lapela. Cravos no púlpito. Cravos na mão, cravos na rua. A horas certas, como dizia o José Mário Branco. Assembleia da República engalanada. As datas lembradas são assim. Impõem-se à memória, ganhando vida própria. Precisamos de esquemas automáticos para organizarmos a informação. Automatizamos lembranças, tornando-as menos conscientes ainda que mais presentes. A memória tem limites. Nós temos limites. A liberdade, não os pode ter.

Lembramos a data, pouco lembramos a liberdade. A conquista. O avanço. A saída das trevas. 25 de Abril sempre. Diz-se nesta data lembrada.

Ouço na rádio, enquanto corro hoje, os discursos na Assembleia da República, na sessão comemorativa. Ouço na rádio as palmas que ecoam pelo hemiciclo. Ouço na TSF a jornalista que descreve o que vê, na casa da democracia, "alguns deputados batem palmas, outros olham à volta a perceber se devem bater palmas". 25 de Abril sempre, pela enésima vez, logo a seguir. A realidade é madrasta às utopias. Cravos impecavelmente na lapela, no púlpito. Fala-se de transparência. De dignidade. De continuar (?) as conquistas de Abril. Daquilo que, sabemos todos, até eles, pouco se pratica.

Diz o povo, aquele que sabe o significado de Abril, que é mais fácil falar, do que fazer. Tem razão. Nos dias normais, mas também nas datas lembradas. Ouço a segunda figura do Estado, assertivamente, vociferar contra qualquer ofensa a quem nos representa. Ouço palmas. Maiores que aquelas que ouvi nos discursos. Ouço gente eticamente irrepreensível, e que se afirma moralmente impoluta, uns das ilhas, outros dos arrabaldes da capital, outros de Lisboa (onde moram quase todos), proclamar valores. Hoje valores de determinado tipo, amanhã de outro.

Fico triste, conjugando dores de alma com as dores nas pernas que sinto, ao passar por Santa Bárbara vindo da Serreta. Lembro Salgueiro Maia. Lembro Melo Antunes. Lembro Zeca. Lembro José Mário Branco. Lembro os Capitães de Abril. Já poucos lembram o que devia ser lembrado, além da dita data lembrada. 25 de Abril sempre? Não, perdoem. 25 de Abril pouco. 25 de Abril (sempre) na data marcada. Que o fosse sempre. Que o seja sempre. Que o façamos sempre.

Hoje, entre a descrição das selfies ridículas na Assembleia e de uma grandolada desafinada (em que nem sequer todos sabiam a letra...), cantada só por alguns, pouco houve 25 de Abril. E, caraças, como o cravo é bonito. Todos os dias. Na mão, no coração, na memória. Na lapela e no púlpito, estou farto. Calculo que não seja o único.

Bom feriado e que, quem como eu tem filhos, ganhe um pouco do dia a ensinar Abril. Aí sim, o feriado fará sentido.

25 de Abril só na data marcada? Nunca mais.


Imagem retirada de http://ardemares.blogspot.pt/2012/02/e-se-eles-tivessem-quebrado-o-vidro.html

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