O que se aprendeu, hoje, com a Mariana... - XCVIII

Que as palavras que ofendem os adultos podem ser bastante elogiosas quando ditas pela boca de quem tem oito anos.

Que os adultos conseguem ser uns chatos, que se tornam ainda mais quando não percebem que precisam de deixar de ser chatos, nem que seja por um bocadinho.

Que, na parentalidade, a criatividade e o pensamento rápido são sempre bons recursos que o bulício do quotidiano e a quadratura da mente adulta nem sempre permitem que apareça.

Que há momentos em que ficamos orgulhosos dos pais que estamos a conseguir ser, mesmo conscientes de erros que cometemos e de dias em que a tal quadratura mental é mais forte que nós.

Um destes dias, a Princesa, a propósito do Dia do Pai, teve que fazer prendas para o seu progenitor, naquele momento anual espectacular em que recebemos coisas feitas para nós que não são compradas, nem feitas num qualquer país oriental. Na prenda da escola, foi pedido à Princesa que retratasse o pai em seis adjectivos, um por cada letra do seu nome. Psilipe tem sete letras, pelo que foi com base na palavra que retrata um amigo dos cavalos, Filipe.

Entre feliz, inteligente, lindo, e outra que agora não me ocorre,  lá apareceu Pateta e Infantil.




Inicialmente, o pai da Mariana achou esquisito. Um segundo depois gostou daquilo que leu. E gostou ainda mais quando lhe foi explicado as razões da escolha das palavras, percebendo que há coisas que a Princesa valoriza muito em si e que o singularizam perante outros pais que a Mariana conhece.

Uns dias depois, fechou-se mais um círculo da parentalidade. Aos oito anos da Princesa começam a surgir uns assomos irascíveis de individualidade que se transfiguram numa dificuldade em lidar com a crítica e com as brincadeiras que, como se compreenderá, nem sempre agradam aos seus pais.

O seu pai brincou com ela, durante a manhã, sem que a Princesa tenha achado particular piada, gerando uma reacção que não agradou a ninguém. Nada do outro mundo mas aquele tipo de reacções que, quando começam a aparecer, convém cortar pela raíz.

Pai da Mariana (num lampejo de perspicácia e com uma calma olímpica) - Muito bem, Mariana. A partir de agora vou ser um pai sério (começa a montar a maior cara de poker da história da parentalidade) e vou lidar contigo como um pai sério.

Mariana (do alto da consciência da sua suposta auto-suficiência e da , apesar de tudo, desejável desejo de contrapor) - Por mim, tudo bem.

Acabam os preparativos de início de dia, sai-se de casa, entra-se no carro e inicia-se o curto trajecto até à escola (sim, quem vive na Terceira pode viver a dois minutos da escola dos pequenos e cinco do trabalho). O pai, que tem o condão de conseguir ser pateta e infantil, continua sério, com um tom de voz que justificaria um lugar na Olimpo da formalidade.

Mariana - Pai, volta a ser tu.

Pai da Mariana - Nem pensar. Eu sou um pai sério.

Mariana - Pai, volta a brincar. Não sejas assim. Eu tenho mais cuidado com aquilo que digo.

E lá voltou o pai da Mariana à sua normalidade. Quer-se acreditar que a mensagem passou de uma forma melhor do que passaria com menos criatividade. Quer-se acreditar que, qual foice, se cortou o mal pela raíz.

E, sim, é bem melhor condimentar a parentalidade com alguma patetice, permitindo que os papéis possam oscilar, sem receios que isso mine a nossa autoridade.

Se a estratégia foi repetida? Sim. Se tem funcionado? Oh yeah!

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