XXVIII Meia Maratona dos Bravos: Missão comprida ou cumprida?

Faz hoje dois anos que fui acompanhar o N. na primeira vez que fez a Meia Maratona dos Bravos. Sendo uma das pessoas que muito prezo como amigo, e sendo alguém que muito admiro pela sua tenacidade e perseverança, muito me orgulhou a sua participação, numa expressão daquele sentimento bom que nos invade quando ficamos contentes por alguém. Nessa altura, achava que estaria distante o dia em que faria uma meia maratona. A ideia de correr mais de dois ou três quilómetros seguidos, sem altos e baixos, tinha o seu quê de inverosímil. No fundo, a perpetuação de uma "carreira" desportiva medíocre, à parte uns anos de voleibol com relativo sucesso.

Faz hoje um ano que enfiei na cabeça que faria a Meia Maratona dos Bravos, após ter feito a Caminhada dos Bravos (com alguma dificuldade no final, admita-se, um ano depois). No ano que fiz a caminhada, aprendi a admirar todos que iam passando, uns devorando metros, outros degustando com paciência cada centímetro. Decidi, pelo caminho, que no ano seguinte lá estaria. Sem certezas no que me estava a meter. Continuava, nessa altura, a nunca ter corrido mais de sete quilómetros seguidos.

Dando sentido ao conceito de procrastinação, fui treinando qb. O trabalho não ajuda, admita-se. Mas, sem dúvida, podia ter feito mais. O N., que se foi convertendo no meu mestre, ia dando dicas. Não as ter seguido todas foi o meu pecado. Uma delas, numa frase simples, ficou e fez a diferença: "Se quiseres ganhar resistência, tens que correr mais, nem que seja num ritmo mais baixo". Filipe encaixou e, no Sábado seguinte, passou os dez quilómetros, algures em Outubro, deixando de correr, a partir daí, para a aplicação do telemóvel. Passou a correr para si. Por si.

E, ainda que com défice de treino, as coisas foram acontecendo. Tempos a melhorar, distâncias a aumentar e a auto-eficácia a aumentar. Pelo caminho, ia partilhando no Facebook as corridas e partilhava com toda a gente o meu objectivo: "Em Maio, vou fazer a Meia Maratona!". Vaidade? Não. Criar um compromisso e obrigar-me a não falhar as expectativas que criei. Funcionou.

Em Fevereiro, no Dia dos Namorados, e pela primeira vez, passei a barreira dos vinte quilómetros, num tempo que nunca pensei ser possível. E, diga-se, um orgulho que começava a aparecer, fruto da consciência do trabalho que foi sendo feito.

Aproximou-se o dia. Filipe fica doente, o trabalho aumenta e o treino começou a falhar. O excesso de confiança, outro inimigo, teve uma ou outra vitória, admita-se. "Está a chover... hoje não corro!" Clássico...

Chega o dia. 1 de Maio de 2018. O dia em que procuraria cumprir o compromisso que estabeleci um ano antes.

Aquecimento. Gente a aquecer a um ritmo que nunca atingirei na vida, digo à simpática A., que me acompanha até à meta. Explica-me uma série de procedimentos de preparação de outros participantes. Levar um gel qualquer, pelos vistos, ajuda. Vejo o P. F. com a sua banana e percebo que me esqueci de trazer tal fruto para a partida. Era essa a minha preparação e consegui falhar.

Gente à partida. Muita gente. Coloco-me no final do pelotão, sabendo que esse seria o meu lugar até São Mateus. Como sempre, além do objectivo de terminar, o principal, levava um tempo na mente. Leva-se sempre, mesmo que não se admita. Nem sequer era ambicioso. Simplesmente, melhorar ligeiramente o que tinha feito, quando fiz o percurso da prova no dia 25 de Abril, depois de ter corrido a um ritmo, para mim, fantástico mais dez quilómetros, a 23 de Abril. O N., diligentemente, percebendo a burrice, enviou logo uma sms com recomendações. Seguidas à risca, nomeadamente no evitar correr muito. Ao não correr puto, desde aí, cumpri...

Buzina. Arranca-se, quando ainda estava a preparar o telemóvel com a aplicação que fez o favor de dar os tempos errados ao longo da prova e de aumentar a prova em mais de um quilómetro. Vamos! Ritmo tranquilo. Palavras de apoio que sabem bem de quem devora a estrada, enquanto nós ainda estamos a pôr a mesa.

Enfrentar os primeiros quilómetros, aqueles que mais temia. Ao sair da Serreta, mais sofrimento que esperava, mesmo a um ritmo tranquilo. E dores. Correr com tantas dores, nunca me tinha acontecido. Algures na descida entre a Serreta e as Doze, dores aumentam. Luzes vermelhas por todo o lado. "E se desistes?". Mais à frente, algures pelos sete quilómetros, as luzes vermelhas foram substituídas por um ensurdecedor "Deixa isto! Desiste! Como é que vais aguentar até final com dores?!". Procurar uma posição para o pé mais confortável. "Hei-de chegar, nem que seja a passo". Tento o passo, para recuperar. Mais dores a passo, do que a correr. Siga. Recuperar nas descidas deixou de ser opção. As dores eram maiores e a aplicação lá ia dizendo que o tempo médio por quilómetro deixava muito a desejar.

Correr sozinho tanto tempo, sabendo que ficaremos em último, ou perto disso, e que acabamos de perder a hipótese de cumprir o tempo almejado, é um desafio. Sobretudo mental. Enfrentá-lo é a solução. "Se acabares, já estás de parabéns!". Acedemos ao estímulo, mas, no fundo, as palavras não ressoam como deveriam, proporcionais à bondade de quem as emite.

Passa por mim, o Senhor Pamplona, um jovem e um exemplo. Poucas foram as pessoas que, estando a ver a prova, não foram presenteadas por ele com uma palavra ou uma graça. "Estava há que tempos a ver se o apanhava". Respondo "a partir de agora, sou é que nunca mais o apanho!". Como se sabia, tal foi o que aconteceu.

"Desiste!" Lá ia aparecendo o pensamento, naquilo que o J. M., num belo texto que li algures pelo Facebook, chamou de Gasparzinho. Dores misturadas com a frustração de não conseguir, de forma alguma, cumprir o tempo que queria e, no fundo, estar condenado a um desempenho medíocre. "Hei-de chegar! (pleno de determinação) Será que sou o último? (pleno de cagufo)". Ninguém gosta de chegar em último, admita-se. E, garanto, eu, que nunca passei de penúltimo nas provas de corrida que entrei. Sabemos ao que vamos, mas...

Pelas Cinco Ribeiras, ali pela Tasca do Dinis, cheiro a galinha frita. Misto de fome e de arrependimento por toda a galinha frita e afins que não recusei nos últimos meses. Oito quilos a mais em relação ao tinha definido. Já falei de excesso de confiança, certo?

Na descida em São Bartolomeu, paragem técnica. Tentar ajeitar a sapatilha para suportar as dores. Misto de frustração e arrependimento por não ter comprado sapatilhas melhores. As dicas do N. nunca falham.

Siga. A nossa dimensão mental é extraordinária, quando queremos. A superação é uma capacidade que, por vezes, nos esquecemos que temos. Siga. Está quase. (Porra, nunca mais chega a placa dos 17,5 km...).

A senhora brasileira da aplicação vai dando nota das misérias. Frustração misturada com irritação. Logo hoje, tinha que correr com dores! Siga, Filipe. Está quase. Está o caraças!, responde a mesma pessoa alta e de barba.

Chanoca. Negrito. Nova paragem técnica. Ajeitar a sapatilha e ver se dói menos. Ao fundo, as subidas finais de São Mateus. À frente, há quem já não corra, só caminhe. Assomo de Homem de Neanderthal: "Nem penses que vais subir para a Igreja a passo, ouviste?!". Resposta de homem crescido: "Vou, vou. Mereço isso." Boa escolha.

Placa dos 20 km. Que se lixem as dores. Orgulho em não ter desistido. Vamos buscar os tipos da frente. Já está. Primeira paragem de autocarro à direita passada, ao pé do Bravio. Já vejo a segunda lá ao fundo. Vejo, à entrada do campo, a Célia e a Mariana, que corre para me acompanhar. "Força, pai!". Que se lixem as dores físicas. Entram as dores de alma. "Que vergonha para a tua filha chegares quase em último".

Entrada no Campo de Jogos. Pessoas a receberem medalhas nos pódios, enquando recebo a melhor medalha que podia haver, aquela que mitiga qualquer dor de alma. "Para mim, é como se tivesses chegado em primeiro", diz a Mariana, enquanto tento acelerar até final. Desaparecem as dores de alma. O N. bate palmas. Espero não o ter desiludido.



Meta à vista. Acelero, qual caracol hiperactivo. Terminou. Dói-me tudo. Digo uma asneira. Aparece quem me coloque uma medalha de participação. Dão-me os parabéns que sinto que não mereço, pela miséria de tempo que fiz e por não ter conseguido atingir os meus objectivos. Cumprimento o senhor que consegui ultrapassar que chega algum tempo depois de mim. Foi, sem saber, um companheiro durante vinte quilómetros, até o passar.


Tiro a sapatilha, após coxear. Olho para o pé inchado, massajo-o e ouço as palavras de estímulo da Célia. E dou por mim a pensar qual é o objectivo desta coisa de correr, pelo menos para mim (mas desconfio que não serei o único). Não é pelo pódio. Esse é só para para alguns e nunca será para mim. Um tipo que começa a correr a sério, em Outubro do ano passado, não pode almejar pódios ou marcas. É pela superação. Pela forma como aprendemos coisas, ao correr, que aplicamos no quotidiano. Mais um quilómetro. Mais rápido. Aguentar as dores. Não desistir quando era isso que seria mais fácil fazer.

Saio do estádio com as duas medalhas ao peito. A de participação e aquela da expressão do orgulho da Mariana, certo que as mereci. Não pela marca, muito menos pela posição que nem sei qual é. Segundo ou terceiro, a contar do fim. Mereci porque me superei, porque não sucumbi ao Gasparzinho durante dois terços da prova e porque cumpri o que tinha prometido. Fiz a minha primeira Meia Maratona e corri mais do que algum dia tinha corrido na vida. Superei-me. Missão muito mais comprida do que esperava. Missão, também, cumprida.

Até para o ano.

Comentários

Revejo me em cada uma das suas palavras. Fiquei com os dedos dos pés a sangrar. Só vi quando cheguei a casa. Mas a alegria de ter conseguido terminar não tem descrição. Um abraço!
Marlene disse…
Parabéns, primeiro desafio, proposto por si, superado. Começou a correr e acabou a correr. O tempo que interessa, cada um tem o seu tempo para tudo, o seu hoje foi esse. Eu ficou-me pela caminhada e olhe que tez no dores na mesma, por todo o lado, Bjs
Sandra Pavão disse…
Claro que estás de parabéns, e quem tos desejou foi sentido! És um exemplo para todos aqueles que um dia pensaram em fazer a prova, mas que logo a seguir disseram “impossível, não sou capaz” (tipo eu)! Estar ali a ver-vos chegar deu-me esperança e entusiasmo para um dia tentar. Talvez no próximo ano eu seja um “Filipe” ��.
Anónimo disse…
Parabéns. No fim somos uma coletânea de memórias e criou aqui uma muito boa.

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