Carta Aberta ao Cidadão Éderzito António Macedo Lopes
Caro Senhor Éderzito,
Antes de mais, esclareço que lhe escrevo na condição de adepto e sócio da Académica de Coimbra e que, para mim, mais do que um emblema desportivo, a Académica é uma escola de valores e de ideais, cuja singularidade e valor é, para mim e para todas as pessoas de bem, completamente inquestionável.
Feito este intróito, à laia de declaração prévia de interesses, dirigir-lhe-ei algumas palavras, depois de uns dias, ou melhor dizendo de umas semanas, de uma estranha permanência do senhor na mente dos académicos, face às razões pela qual a mesma aconteceu. Esclareço a utilização do adjectivo estranho, para que se perceba o seu alcance… Sempre nos habituámos a admirar o senhor como um exemplo de querer em campo, de abnegação, de alguma qualidade futebolística e como um exemplo de superação de dificuldades na sua esfera pessoal e desenvolvimental, atendendo ao percurso sobejamente conhecido ao longo da sua vida, em que o curto tempo cronológico foi inversamente proporcional às dificuldades que enfrentou. Nunca nos chocou que utilizasse a braçadeira de capitão de equipa, apesar da sua tenra idade, face a tudo o que referi, aspecto reforçado pelo facto de, na nossa crença de adeptos, confiarmos nas suas declarações de amor à Académica, de acreditarmos no significado da exteriorização dos seus actos e de lhe reconhecermos valor futebolístico mas, fundamentalmente, valor humano.
Muito nos orgulhou, num movimento amplamente elogiado, que tenha homenageado o Dr. José Barros, aquando da marcação de um golo… Foram inúmeros os comentário elogiosos, naquilo que todos entendemos como mais um movimento de quem percebe a realidade onde está inserido, atingindo que a Académica não é só uma mera colectividade desportiva, como diria Manuel Machado.
Eis senão quando, chegados ao tradicionalmente efervescente mercado futebolístico de Janeiro, nos começamos a confrontar com inúmeras notícias, rumores e manchetes sobre o senhor, cuja natureza e expressão, inapelavelmente, envolvem a Académica. Confusões, indefinições, muito dinheiro à mistura (quiçá demais para um jovem de 24 anos?...), encontros e desencontros, fugas de encontros e silêncios incompreensíveis. E em todas as notícias, em todos os jornais, em todas as peças televisivas, sempre o bom nome e emblema da Académica presentes, facto que a todos os académicos de bem custou imenso.
Ninguém critica a sua intenção de melhorar de vida, melhorando salário e perspectivas desportivas. Aliás ninguém criticou o seu colega Sissoko, quando este saiu da Académica há umas semanas atrás. Aliás a forma como saiu, acautelando os interesses do clube que o formou, mereceram elogios de todos os quadrantes. E, penso que falo por outros, quando digo que desejamos todo o sucesso do mundo ao Sissoko na sua vida desportiva e pessoal.
Aquilo que criticamos é o facto de o seu descuido, egocentrismo e, porventura, ganância envolver a Académica, clube que o projectou para o mundo do futebol, depois de uma carreira absolutamente secundária. Aquilo que lhe apontamos é uma enorme falta de reconhecimento pelo clube e uma gritante ausência de respeito pelo mesmo e pelos seus adeptos e sócios. Aquilo que constatamos é que, pela sua reiterada conduta, o senhor abdicou da possibilidade de ser um exemplo para outros miúdos, nomeadamente para aqueles que, tal como o senhor, têm, tiveram mais desafios ao longo da sua vida e menos oportunidades de desenvolvimento de uma escala de valores positiva. Atenção, senhor Éderzito, falo de valores humanos e não financeiros… não quero que se confunda, mais uma vez.
Por fim, deixo-lhe uma pequena curiosidade. Sempre achei piada ao facto do seu nome próprio ser um diminutivo, divertindo-me a pensar como que alguém com um nome tão “pequeno” poderia vir a ser um ponta de lança atemorizador. Hoje temo vir a constatar, dentro em pouco, que tal pequenez no nome encontra eco na pequenez do seu valor enquanto homem.
Cumprimentos,
Filipe Fernandes
(sócio número 1006 da AAC/OAF)
Comentários
li e estou globalmente de acordo com o teor da sua "Carta Aberta" supra. Está mesmo num português escorreito, educado, civilizado, mas temo que não consiga "entregar a carta a Garcia". Tenho mesmo a certeza de que o cidadão Ederzito, a quem fundamentalmente se destina a sua missiva, não seja devidamente assimilada por este. Quem desaparece ou abandona uma reunião com a qual tinha concordado, e cujo teor e desenrolar estava já mais do que entendido e previsto por todos os interessados, não tem cultura nem, principalmente, postura para entender aquilo que é a mensagem principal das suas linhas. Mas elogia-se a sua boa intenção. Melhores cumprimentos. FCDomingues