Um olhar pessoal sobre a Violência Doméstica
E aqui fica um texto que me foi pedido, e que será publicado, a breve trecho, numa publicação regional, sobre a violência doméstica.
O pedido foi realizar um texto que retratasse um olhar pessoal sobre o fenómeno. Sendo algo pessoal, reforcei o texto com algumas fotos da minha autoria, que acompanham o texto.
O pedido foi realizar um texto que retratasse um olhar pessoal sobre o fenómeno. Sendo algo pessoal, reforcei o texto com algumas fotos da minha autoria, que acompanham o texto.
Aceitar o desafio de abordar a temática da violência
doméstica, e da igualdade de género, assemelha-se ao acto de vislumbrar um
mosaico ou um vitral. É possível admirar uma parte, formular uma visão sobre um
dos seus pormenores, mas a real compreensão da sua dimensão e do seu
significado depende, directamente, da forma como aceitamos que o todo é bem
mais do que a soma das partes e que só se encontra a sua verdadeira plenitude
na atenção e compreensão de todas as suas vicissitudes. Não o fazer, conduz, de
forma inapelável, a visões parcelares, pré-concebidas, redutoras e infelizes
que colocam em causa objectivos, modelos de entendimento e, até, os alicerces
das políticas da igualdade de género.
Este texto, humilde olhar pessoal, respeitará esta
leitura multifacetada, pelo que abordará diversos prismas dos fenómenos,
partindo de diversas experiências de trabalho psicoterapêutico com actores de
contextos de violência doméstica, no âmbito do meu percurso como Psicólogo Clínico,
com recurso a pedaços de discursos que ouvi, autênticas ilustrações vivas.
“Até muito tarde na minha vida pensei que todos os
homens eram assim como o meu marido… era aquilo que via em casa com os meus
pais...” (L.)
“Todos me batiam lá em casa. Começava no marido e
acabava nos filhos…” (F.)
As crianças pertencentes a agregados marcados pela
violência doméstica são actores de um enredo que não escolheram. Num momento
crucial do seu desenvolvimento presenciam, muitas vezes de forma sistemática,
cenas de violência, imprevisibilidade e descontrolo, co-existindo com contextos
patológicos e atentatórios do seu desenvolvimento, que colidem com a
consolidação dos seus alicerces, aqueles em que radica a solidez do nosso
crescimento e da definição da nossa personalidade e, por conseguinte, da forma
como nos relacionamos connosco, com os outros e com o mundo.
Comummente é confundido o silêncio das crianças,
mormente daquelas mais pequenas, com uma passividade em relação àquilo que as
rodeia, naquilo que redunda, muitas vezes, num processo de legitimação de
cenários de violência. A percepção de precocidade do desenvolvimento dos
actores inocentes do filme da violência doméstica confunde-se com uma suposta
invulnerabilidade, que colide de forma estrondosa, e perversa, com aquilo que
constitui a realidade. A título de exemplo, a agressividade nas crianças em
idade escolar, segundo alguns investigadores, pode ter a sua origem na forma
como situações de violência entre os pais foram testemunhadas pelas mesmas nas
idades anteriores aos três anos. Quanto mais comportamentos violentos foram
testemunhados, maior o número de situações de agressividade acabam por surgir.
As crianças vêem e, mais tarde, fazem. As crianças aprendem. A fazer, a ser. E
aprendem consoante os seus modelos, principalmente com aqueles que se
constituem como figuras de referência. Questionar-se-ão como pode alguém que
violenta, que agride, que magoa, manter o seu estatuto referencial e,
consequentemente, modelar. Em tempos tão precoces, vale mais um farol
desregulado e confuso, do que a escuridão da ausência de pontos de referência. Face
a estes pontos, o desenvolvimento de intervenções precoces, mesmo antes das
primeiras manifestações comportamentalmente preocupantes, assume um carácter
fulcral, potenciando a resiliência e os factores de protecção, sublimando os
factores de risco associados e, muitas vezes, latentes e invisíveis.
“A culpa é minha, de certeza…” (L.)
“Eu quando começo a ficar ciumento, deixo de pensar e
perco o controlo…” (J. C.)
Os cenários de violência doméstica conduzem à
constatação do aumento das prevalências de perturbações de saúde mental nos actores
que neles residem, levando ao surgimento e consolidação de fenómenos
psicopatológicos de grande relevância e invalidação.
Constatam-se prevalências acrescidas relacionadas com
a depressão, a Perturbação de Stress Pós-Traumático, os comportamentos
suicidas, as perturbações do sono, as perturbações do comportamento alimentar,
as perturbações do foro psicótico e os problemas de relacionamento social e
interpessoal. As vítimas possuem um risco seis vezes acrescido de abuso de
substâncias psicoactivas.
Atente-se, igualmente, na forma como podemos
constatar uma lógica de causalidade bidirecional. A existência de um
funcionamento psicopatológico, com problemáticas ao nível da Saúde Mental, pode
colocar a vítima numa posição de maior vulnerabilidade para cenários
posteriores de violência doméstica; por outro lado, a vivência de cenários de
violência doméstica constitui um factor que compromete a Saúde Mental e
potencia os fenómenos psicopatológicos. A título de exemplo, a relação das
perturbações de humor, mormente a depressão com a violência doméstica. As
vítimas apresentam taxas de depressão superiores à população não envolvida,
enquanto as pessoas deprimidas estão mais sujeitas a serem envolvidas em
quadros de violência.
E quem agride? E quem, pelas suas acções, cerceia a
liberdade de outros? Começa a inverter-se, inclusivamente com iniciativas
bastante válidas nos Açores, o olhar maniqueísta sobre o agressor, vislumbrando
nele a emergência de um funcionamento, muitas vezes, psicopatológico,
alicerçado em modelos relacionais disfuncionais, que justifica uma atenção
interventiva, que previna futuras relações abusivas, cuja probabilidade é
altíssima.
Intervir e diagnosticar precocemente assume um
carácter extremamente importante, no sentido de actuar quer a priori, quer a posteriori, diminuindo os efeitos dos cenários de violência, bem
como a probabilidade de envolvimento em (novas) relações abusivas. Tratar a
perturbação e sublimar a vulnerabilidade são objectivos que deverão estar,
sempre, de mãos dadas. Estarão todos os profissionais (de saúde, da intervenção
social, da educação,…) preparados para se constituírem como actores de detecção
e intervenção, além dos seus (pre)conceitos? Ficam dúvidas. Estudos apontam
para que um terço das senhoras que procuram recorrentemente o Sistema Nacional
de Saúde estejam envolvidas em contextos de violência, sem que sejam
questionadas pelos profissionais de saúde. Por outro lado, há evidências que as
respostas disponibilizadas aos cenários de violência variam em função do género
de quem as solicita.
“Os meus pais são como a água e o azeite… juntam-se,
separam-se, juntam-se, separam-se…” (B.)
Nesta frase da B., na simplicidade de uma criança de
oito anos, radica um dos aspectos mais marcantes da violência doméstica: o seu
carácter cíclico, numa sucessão típica de sequelas relacionais de gravidade e
consequências crescentes, entre os estados de tensão, de agressão e de
reconciliação, em que se entrecruza a vulnerabilidade, a culpa, o sofrimento, o
medo, a vergonha e o controlo. Os estudos disponíveis reforçam a ideia de uma
lógica de espiral crescente, em que, uma vez (re)iniciada a relação, os
contextos de violência tendem a continuar, aumentando a frequência e gravidade
das situações problemáticas e, por conseguinte, as consequências para todos os
envolvidos.
Este ciclo sentimental vicioso e negativo, naquilo
que constitui um dos maiores desafios para quem trabalha com vítimas e
agressores, conduz, recorrentemente, a padrões relacionais confirmatórios, em
que as pessoas, mesmo quando (re)iniciam novas relações, tendem a privilegiar
parceiros abusivos, o que conduz, inevitavelmente, à consolidação de uma visão
de si cada vez mais negativa e mais dependente do outro, tornando quase um
exercício de loucura o acto do abandono da relação. “Se fico só, nunca mais
ninguém me pega…”
“………………………………………………………….”
Neste ponto, não encontrei uma citação que se
enquadrasse naquilo que pretendo explanar. Nunca encontrei um homem que, em
contexto de consulta, assumisse, de forma expressa e aberta, o seu envolvimento
em cenários de violência doméstica no papel de vítima. Mas eles existem. Em
Portugal, aproximadamente, um quinto das queixas são realizadas por homens,
numa tendência que tem crescido. Começa a fazer-se o caminho da denúncia, à
semelhança do que aconteceu com as mulheres, há umas décadas atrás. Há,
reconheçamos, uma feminização do fenómeno da violência doméstica e um carácter
invisível da violência contra os homens, naquilo que conduz a uma falta de
reconhecimento social, institucional e político da violência contra homens. “Cada
vez mais os homens choram, longe de tudo e de todos”, li há algumas semanas num
jornal diário. A sociedade e as organizações interventivas não estão preparadas
para receber vítimas masculinas, havendo, e apesar dos crescentes apelos, uma inexistência
de respostas dirigidas às vítimas masculinas, bem como ausência de
sensibilização para as situações de violência com vítimas no masculino, junto
de quem intervém junto das mesmas. No caminho árduo e feliz nos trilhos da
igualdade de género, esta questão obriga a um repensar de ideias e conceitos. Poderemos
estar perante uma contradição e um efeito colateral do muito que se tem
avançado na investigação e intervenção na violência doméstica. Não tenho dúvida
que sim. Entre o preto e o branco, entre o estereótipo e a desvalorização, terá
que se encontrar um cinzento.
Outro ponto que desafia a estanquicidade dos
estereótipos onde radicam muitas das leituras, modelos e políticas relacionadas
com a violência doméstica é a questão das relações homossexuais e dos processos
de violência que decorrem nas mesmas. Os poucos estudos existentes sublinham
que os índices de violência conjugal que ocorrem nas relações homossexuais são
equivalentes àqueles que acontecem nas relações heterossexuais, algo que colide
com a heteronormatividade associada à violência doméstica, algo que coloca as
vítimas numa posição de grande fragilidade, numa espécie de “duplo armário”
como referem os investigadores. Há que olhar para a violência doméstica como um
crime sem sexo, sem marcador social, sem idade e sem um molde estanque e
rígido, sob pena de se alicerçar o entendimento numa perigosa dicotomia e de as
políticas de igualdade de género se negarem a si mesmas.
“Preciso de saber se vale a pena ter esperança, se é
possível ser feliz… sem isso não consigo aguentar!” (L.)
(Ajudar a) Olhar, sempre, para cima é um direito e
uma obrigação, mesmo quando o obstáculo é, aparentemente, intransponível e
quando necessitamos de ajuda para o ultrapassar.






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