As Lajes do desencanto (ou o desencanto de um terceirense adoptado com o que tem visto nos últimos tempos)
No próximo
cinco de Outubro a minha saga açoriana cumprirá o seu décimo aniversário. O
que, na arrogância pueril do controlo sobre o que não é passível de controlo,
seria uma espécie de “toca e foge” insular de um par de anos, transformou-se
numa relação umbilical com uma ilha, com um arquipélago. Sou terceirense, e
defendo esta terra como se de Coimbra se tratasse. Desde muito cedo construí
uma relação de amor com Angra do Heroísmo, fascina-me o nascer do Sol no
Piquinho, chateia-me Ponta Delgada, mas admiro tudo o que sobra de São Miguel, vejo nas fajãs de São Jorge uma metáfora belíssima e apaixonante, quero ter uma casa nas Flores para a reforma e morar um mês seguido no Corvo
antes de morrer (que me perdoem o cliché).
Sinto-me açoriano, com “e” ou “i”,
consoante os gostos ou a tendência para a singularidade ortográfica. Quero
sê-lo, apesar de tudo, mais tempo. Sinto que o serei, mesmo se a brisa do
destino me afaste do Atlântico. Criei raízes aqui, crio uma terceirense feliz
todos os dias (que gosta menos de Coimbra do que deveria, para espanto e
desgosto da família conimbricense e dos seus pais) que já foi marchante no São João e que, amanhã, sairá
num bailinho pelo Norte da Ilha, com um orgulho indirectamente proporcional ao seu tamanho.
Dez
anos depois, há coisas que, por estas terras de bruma, que insisto em não
conseguir entender, que insisto em não ser capaz de lidar. Muito daquilo que
leio, que vejo e que interpreto da tão propalada, quanto enviesada, questão da
Base das Lajes coloca sal na ferida da divergência, da divisão estéril entre
ilhas e do auto-flagelo açoriano do umbiguismo territorial, acentuando a
derrota da utopia da harmonia regional. (E o que poderiam ser os Açores, se a
tivessem…)
Há dias, na Casa da Académica de Lisboa, procurava explicar aos meus
apaniguados académicos o impacto no concelho da Praia da Vitória, na Ilha
Terceira e nos Açores do terramoto sócio-económico que se avizinha, a pessoas a
quem, tal como eu antes de ter a sorte de ser terceirense, os Açores nunca
foram ensinados. O desconhecimento era grande, algo que, apesar de tudo, se
compreende, mas a preocupação empática manifestou-se. Alegrou-me, por ser uma
manifestação genuína, além da estreiteza dos estereótipo anacrónico e foleiro
(confrontar, por favor, a edição do Prós e Contras realizada sobre os Açores,
há uns meses, no canal público de televisão).
Leio muitos jornais, serei dos poucos continentais que faz do Diário
Insular, do Açoriano Oriental, da RDP Açores e da RTP Açores um hábito diário
(ainda que com uma complacente paciência da Célia), percorro com afinco grupos
açorianos pelos meandros do Compêndio das Faces. Muito do que leio aflige-me,
atinge-me no patamar da incompreensão, na minha costela enxertada açoriana. O
preconceito que brota de algumas palavras, o narcisimo que constato noutras, o
egocentrismo insular que radica noutras tantas ou o indecente cavalgar da onda mediática de alguns, insulta a minha alma terceirense e a minha raíz açoriana.
Há uns tempos, num programa de rádio com a simpática Eduarda Borba, foi-me perguntado, enquanto aprendiz de feiticeiro* continental, se acharia que a vivência insular dos açorianos lhes moldava a personalidade, se haveria alguma característica distintiva. Frisei a resiliência, a força motriz da reconstrução, da sublimação de dificuldades e desafios.
A estreiteza das percepções, o irromper de velhas querelas mantidas em lume
brando e a limitação evidente da memória
entristece e fere o ideal da resiliência. Onde fica a memória da vivência regional, do contributo regional,
para o desaparecimento das empresas do cabo submarino no Faial, dos ingleses de
Santa Maria, para a decadência da cultura fluorescente da laranja em São Miguel
ou para a saída dos franceses da Ilha das Flores, por exemplo, para os
imprevistos trágicos da natureza um pouco por todas as ilhas que testam a fibra
de um arquipélago que deveria olhar com orgulho para as suas cicatrizes. Que
não as deveria transformar em feridas. Que não pode correr o risco de infecção,
da amputação que decorre da clivagem. Que não pode canibalizar a solidariedade,
a união, a comunidade arquipelágica e que se condena a ser uma caricatura de si
mesma, enquanto não o conseguir. A Terceira irá continuar, reinventar-se-á (mais uma vez), doe a quem doer. Como era bom se os Açores, como um todo, também o fizessem.
Até amanhã, Terceira. Até sempre, Açores.
* Vulgo, psicólogo clínico.
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