O que se aprendeu, hoje, com a Mariana... - XC

Ao nonagésimo episódio desta saga, o pai da Mariana foi apanhado na curva. Não que nunca o tivesse sido. Nunca com esta classe.

Era a Mariana muito pequena, quando o seu pai, pleno de sabe-se-lá-o-quê e inseguro q.b., lhe dizia que sabia tudo. Para provar pedia que fosse feita uma pergunta qualquer, à qual, inevitavelmente, surgia uma resposta inventada que a Princesa aceitava.

A Princesa tem crescido, como fica claro a quem acompanha estes escritos, e o prazo de validade para a suposta omnisciência do seu pai esgotou-se como as últimas areias de uma ampulheta desprovida de sedimentos.

A dada altura, lá terá sido admitido um qualquer desconhecimento à pequena, o que conduziu a que fosse aprendida, e repetida, a frase "ninguém sabe tudo, afinal". O que é verdade, claro.

Um destes dias, a Princesa chegou a casa orgulhosa de uma tarefa escolar que teria no dia seguinte, com o professor J.. Ia declamar um poema de Eugénio de Andrade na Biblioteca da mais bonita cidade açoriana. Não, para tal não é preciso apanhar um barco ou avião para ela lá chegar.


Declamou o poema em plena sala cá de casa. Declamou o poema muito bem. Declamou o poema muito bem ao som do orgulho de dois pais.

No final, depois de terminar e enquanto se encaminhava para as escadas, explicou que as leituras estavam inseridas na comemoração do aniversário do nascimento do poeta.

Pai de Mariana: A sério? Não fazia ideia que amanhã era o aniversário do Eugénio de Andrade.

Mariana (enquando subia as escadas numa cadência que só ela consegue ter, enquanto o som da sua voz ia ficando mais distante, degrau após degrau): Ninguém sabe tudo e eu sei uma coisa que tu não sabes. Até amanhã!

Hoje aprendeu-se que há alturas em que, mesmo "perdendo", ganhamos imenso e que, quando tal acontece, a parentalidade é feliz e temperada com amor. Obrigado, Princesa.

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