O que se aprendeu, hoje, com a Mariana... - C (take II)
Que os pais também se enganam a fazer contas fáceis.
Que na revisão das cem histórias para a compilação que anda a realizar, o pai da Mariana se enganou e faltava uma história.
Que há males que vêm por bem. É uma oportunidade para contar mais uma história*.
No fim-de-semana fomos a uma festa de anos de pequena C.. Aos quatro anos, as festas são sempre um acontecimento. A casa cheia de pequenos e graúdos, um jardim com um ajuntamento de sapatos dos pequenos descalços e os pais da C. em modo de multi-tasking, naquela sadia mistura de emoções de quem tem a casa cheia de pequenos pela primeira vez. Cá por casa, sabemos o que isso é, como se percebe aqui.
Pequenos que se vão embora contrariados, casa que se vai esvaziando. Ficam os grandes e os seus filhos. Conversa-se com pessoas porreiras que não conhecíamos ou com quem se tinha um conhecimento superficial. Agradável final de tarde, com São Jorge e o Pico ao fundo.
Pelo caminho, entre as conversas dos grandes, os pequenos foram ficando. Enquanto uns simulavam cirurgias e consultas médicas, outros pintavam. A Mariana ficava com os grandes, entretida com um dos cães da B. e do T., que aproveitavam o seu merecido descanso dos guerreiros.
Por entre os grandes, aparece uma pequena, uns cinco anos. Idade em que os medos são mais reais do que deveriam ser e em que as emoções estão em alicerce. Nem sempre os adultos percebem isso. Os grandes nem sempre são grandes em tudo. Procurava a mãe e perguntou onde ela estava.
Um dos grandes, quiçá o maior que estava presente, entendeu que era uma boa altura para brincar com a criança. Ao jeito dos grandes, confundindo alicerces com pilares. Sem maldade, sublinhe-se.
Grande, quiçá o maior dos grandes (enquanto sorria, brincando com a criança) - "A tua mãe foi embora... deixou-te cá...sim... a tua mãe deixou-te atrás!"
Acto contínuo, num movimento em câmara lenta, numa espécie de super slow-motion emocional, a pequena começa a petrificar, a expressão facial a alterar e lágrimas grossas a cair. Sem uma palavra. O grande, quiçá o maior do grandes, teve uma reacção em espelho, aquelas que temos quando percebemos que a nossa intenção não teve paralelo na consequência daquilo que fizemos.
À volta, os grandes preocuparam-se e procuraram confortar a pequena. A Mariana e a sua mãe foram com a pequena procurar a mãe, dando o único conforto que a poderia tirar da congestão emocional em que estava. Acalmou, abraçada à mãe. Final feliz.
Regressando ao convívio dos grandes, e enquanto o maior dos grandes se procurava explicar aos outros grandes, que ouviam em silêncio, enquanto gritavam a plenos pulmões na sua comunicação não-verbal, salientando que "era só uma brincadeira", surge uma pequena defensora, de nome Mariana, que sadiamente vai aprendendo aquilo que é a empatia, o instinto de protecção e a importância de estar atenta aos mais novos.
Mariana (enquanto circulava para o seu lugar no círculo dos grandes): "Brincadeira sem graça!"
Todos os grandes, incluindo o maior dos grandes: (Longo silêncio)
Mariana (naquela postura assertiva de quem não dá ponto sem nó) "E era bom que não se repetisse mais vezes!".
Todos os grandes: (Longo silêncio - take II).
Algum tempo depois, alguém diz, penso que a N.: "Ela disse aquilo que toda a gente pensou!".
Num tempo de filtros, no discurso, nas fotos, nas aparências, aprendeu-se que há crianças, do alto do seu metro e quarenta, que conseguem dar lições aos grandes.
Que os adultos se esquecem vezes demais do que é ser criança.
Que a ideia que as crianças estão centradas nos seus umbigos, é uma treta.
Que há valores que vão passando, felizmente.
Que está ali uma criança a fazer-se uma bela pessoa.
Que orgulha quem a educa.
Que a assertividade e a empatia não têm idade.
* Com uma palavra especial para todos os que me pediram para escrever mais histórias.

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