Quem esquece as datas lembradas?

Há dias lembraram-se de mim para ser entrevistado num programa de rádio, no Rádio Clube de Angra. Na conversa simpática que decorreu, em que o entrevistado talvez tenha divagado mais do que se pretendia, a dado momento, falou-se do estranho poder das datas lembradas e do poder dos números redondos. Aquelas datas que se agigantam no calendário, que ganham vida própria para além da espuma dos dias, que se vão fazendo ouvir, num sussurro, até ao dia em que chegam, em que nos batem à porta, com estrondo e sem qualquer vestígio de sensibilidade. As datas lembradas não são dadas à subtileza, ainda que se façam anunciar.

As datas lembradas também comemoram os seus próprios aniversários, exponenciando aquilo que conseguem provocar. Aí revestem-se de super poderes de armas de destruição massiva. Daquelas que, consoante o uso, podem contribuir para o nosso bem ou para as nossas dores de alma, aquelas que habitualmente ninguém vê, além dos filtros que usamos no dia-a-dia. O Instagram só materializou aquilo que sempre fizemos com mestria e acrescentou mais opções, além daquelas às quais nos agarramos.

As superação das nossas perdas está, normalmente, nos cumes da cordilheira das datas lembradas. Lá em cima, à vista por entre o nevoeiro, usando de perícia, e malícia, num jogo de escondidas, cujas regras nem sempre aprendemos a conhecer e que nunca são explicadas. Aparecem, e desaparecem. Por vezes, atingimo-las. Por vezes, continuamos a tentar. Como diz uma daquelas frases que pulula pelas redes sociais, umas vezes ganhamos, outras vezes aprendemos.


Perder dói. Molda. Condiciona. Fere.

As datas lembradas, ainda para mais quando comemoram o seu aniversário e os seus marcos de existência, ainda que doam, humanizam. Confrontam-nos connosco, demonstrando os limites dos filtros. Daqueles que temos ou que tivemos que montar. Fazem-se ouvir, nos seus sussurros, no pensamento, nas entranhas, nos sonhos, na irritabilidade que não conseguimos justificar, nos sinais físicos que não entendemos porque aparecem. Na incompreensão daqueles que estão à nossa volta com o comportamento que se altera.

A nossa mente, ao contrário do que dizia o outro idiota, não nos mente. Sabe mesmo a verdade histórica quando nós preferíamos que ela esquecesse, ainda que, em muitas alturas, se baralhe na cronologia. Confunde o passado com o presente. Diga-se que esquecer nunca é o caminho. Cicatrizar a ferida não se consegue com escapatórias, nem com pensos rápidos.

As datas lembradas passam. Acalma o turbilhão. Normaliza o corpo. Recomeça a escalada para chegar ao cume, caso ainda não o tenhamos feito. Recomeça o jogo das escondidas, caso ainda não tenhamos solucionado o enigma. Admirar a cicatriz ou reconhecer e tratar a ferida. Os únicos caminhos.

(Foto captada na Chanoca, São Mateus da Calheta, aqui há atrasado algures em 2008).

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