Avós, beijinhos e abracinhos: um olhar sobre a Santíssima Trindade dos últimos dias
Como sou um rapaz grato, agradeço ao Daniel Cardoso, o cidadão que colocou uma Santa Trindade constituída por abraços, beijinhos e avós na ordem do dia e um país inteiro
Se é certo que a personagem é abominável (uma espécie de tudólogo com opinião, supostamente, avalizada em tudo), se é evidente que a sua declaração obedeceu à sua agenda ideológica (a lógica da "ruptura com o passado" tem muito que se lhe diga...), se é óbvio que há lacunas na sua argumentação, também é correcto reconhecer que há uma lógica subjacente ao conteúdo daquilo que defendeu, ainda que a forma não a tenha acompanhado. Até lhe reconheço que domina bem a sua comunicação, essa sim a sua área de especialização, dado que conseguiu gerir aquilo que disse para obter exactamente o efeito pretendido. E, no fundo, a turba que o atacou acabou por ajudá-lo a tal.
Interessa-me pouco qual a orientação sexual do senhor, se tem o cabelo parecido com aquele que eu tinha há vinte anos, se pratica o poliamor (apesar de, aqui, poder haver alguma discussão legítima sobre as eventuais relações perversas de poder que se estabelecem) ou se é politraumatizado. Interessa-me pouco se é sádico ou masoquista, se fui obrigado a ver-lhe várias vezes, sem que o quisesse, os seus mamilos no meu feed do Facebook, se pinta o cabelo ou se dá aulas seja em que universidade privada for (onde, espero, leccione aquilo que sabe). Diz muito mais das pessoas que o desqualificaram de forma instantânea, do que do próprio, a forma como o senhor foi exposto publicamente e alvo de todo um conjunto de insultos e desqualificações. A economia de pensamento da turba é bem mais perversa que o pensamento bem burilado para a provocar.
É este, também, um dos pontos mais relevantes desta história. A superficialidade. De parte a parte mas, acima de tudo, a superficialidade das opiniões e a forma como, na espuma dos dias, se perde o essencial, na procura de expiar a raiva e frustração na polémica do momento, com base numa frase e num entendimento acrítico da mesma. Outro ponto que me interessa é a tendência automática para o pensamento dicotómico, que se vislumbra neste tipo de polémicas que "incendeiam as redes sociais", que significa tanto uma economia de pensamento, como um entendimento redutor de algo. Que não vislumbra as diferentes tonalidades de cinzento, no continuum entre o preto e o branco. Quer a superficialidade, quer o pensamento dicotómico, estupidificam e retiram o foco daquilo que é importante. Ganha-se em soundbytes e número de likes aquilo que se perde na discussão a sério das questões. E esta é demasiado importante para não ser pensada e para ser prostituída pela piada fácil ou pelo insulto polarizador de atenção.
O exemplo dos avós utilizado pelo Daniel Cardoso não foi escolhido de forma inocente e é uma péssima forma de atacar um tema muito relevante. Até porque, mais do que pensarmos em avós, temos que pensar em pessoas significativas para a criança. Há avós que pouco importam e amigos da família que são pilares afectivos, por exemplo. O verbo escolhido ("obrigar") presta-se a um entendimento dicotómico. As duas coisas, na linha do meu raciocínio, reduziram o pavio à polémica e estilhaçaram o conteúdo. Porque obrigar miúdos a fazer coisas todos fazemos enquanto pais. A forma como o fazemos e o número de coisas a que os obrigamos, essa é outra questão.
É pacífico dizer que é facil que os pais obriguem os miúdos a demasiadas coisas, sem darem por isso. Calma. Vamos ligar o cinzento, entre o branco da "educação à antiga" e o preto da "educação progressista". Os pais, vezes demais, roubam espaço de autonomia aos miúdos e passam mensagem subliminares que ficam. A questão do respeito pelo corpo insere-se, como tantas outras, naquilo que digo. A forma como educamos para os afectos, para as emoções e para a expressão de afecto e carinho é uma das tarefas fundamentais do exercício da parentalidade.
Podemos, enquanto pais, forçar, de forma coerciva e violenta, os miúdos a tocar em estranhos ou pessoas familiares? Claro que não. Devemos ensinar-lhes, desde cedo, a respeitar os seus limites corporais, e a reflectir na forma como, enquanto pais, por vezes, os podemos banalizar. Como, por vezes, enquanto pais, podemos, de forma inadvertida, faltar ao respeito dos nossos miúdos. Os limites daquilo que é aceitável, no contacto e no corpo, têm que ser, como tantos outros, ensinados. Naquilo que é patente e naquilo que é subliminar. Ensinar os limites do corpo é uma tarefa que se inicia quando se inicia a parentalidade.
Há que educar os miúdos e sensibilizá-los para o afecto junto daqueles de que gostamos, no sentido que a mesma aconteça pela vontade própria da criança, num contexto afectivo. E lidar, tranquilamente, quando tal não acontece. E ensinar que, nas expressões de afecto, se faz uma separação da relação de confiança que existe entre as crianças e os adultos. Quer, contudo, isso dizer que devemos andar a distribuir fruta ou a arregalar os olhos para que os miúdos distribuam beijinhos? Nem vou responder.
Dirão alguns que a família pode ser uma escola de opressão, de aprendizagem de relações opressivas e abusivas que se perpetuarão no futuro. E que as manifestações de afecto podem ser uma antecâmara do abuso futuro. Direi que tal é verdade, felizmente, numa minoria de situações, cabendo aos pais uma atitude fundamental de protecção e de priorização da criança, além de atenção permanente a sinais de alerta. E que, no limite, a proibição de beijinhos e abraços não previne, por si só, o que quer que seja,
E, no fundo, o desafio é encontrar um equilíbrio, o tal cinzento, educando e sensibilizando para o afecto, e para as suas manifestações, o respeito por si e pelos outros, enquanto se aprendem que existem limites e que o corpo e a sua esfera íntima não são acessíveis a qualquer pessoa. Querer transformar esta equação com múltiplas variáveis, numa equação linear pode ser tentador mas é errado. O branco e o preto são tentadores, são facilmente identificáveis, mas induzem erros e leituras demasiado parcelares.
A quase totalidade dos pais, hoje em dia, têm como valor, e como objectivo, o desejo de ser bons pais. A grande maioria, ainda que não assuma, também quer, e precisa, ser considerado como tal, pela sociedade. E isso, sem dúvida, pode levar a que possam haver faltas de respeito pelos miúdos, induzidas pelos pais, como forma de evitar a exposição ao olhar do outro e à avaliação do seu modelo parental. O que devia sempre prevalecer é o interesse e salvaguarda dos miúdos. Nesta questão, como noutras, nem sempre isso acontece. E, no fundo, mais do que interessar se a criança está a ser mal-educada, interessa ter em conta o contexto e procurar perceber o que pode significar uma recusa ou uma mudança de comportamento da criança, procurando compreender, de forma tranquila e empática, sem ligar o abusómetro de forma pavloviana. E perceber que a aprendizagem da linguagem do afecto, progressiva e que permite criar segurança e confiança, é mais importante que a percepção social da consensualidade da qualidade parental. Que, no fundo, e como percebemos por toda esta história, é um objectivo inatingível. Logo, estúpido.
Dirão alguns, como tenho lido, que a grande maioria dos abusos sexuais acontecem no seio da família. Inteiramente verdade. Aumenta a obrigação dos pais de estarem atentos à sua acção e à influência dos outros junto dos seus miúdos. Não implica que haja uma polícia dos beijinhos e que os pais abdiquem da sua função de educação e supervisão.
Como disse no início, gostei de ter dúvidas com toda esta história. Sei, por experiência pessoal e profissional, que os pais têm muitas dúvidas. Fiquei extasiado, nas reacções e comentários que funcionou como combustível para o incêndio de redes sociais que atrás referi, com a quantidade de gente e pais cheios de certezas. Cheios de si e dos seus dogmas. No caso dos pais, tenho mais medo daqueles sem dúvidas, do que dos pais que têm a humildade de duvidar, de perceber que a parentalidade é uma constante pergunta aberta, em vez de um tranquilo teste americano, com perguntas de escolha múltipla, de resposta fechada. Eu, no meu exercício da parentalidade, tenho dúvidas com mais regularidade do que a minha regulação emocional gostaria. A Mariana merece-me isso, todos os dias.
Aprendamos com tudo o que se escreve sobre parentalidade, com os conteúdos da parentalidade positiva (que, pelo que li por aí, por vezes é pervertida numa demissão dos pais em relação a uma série de papéis fundamentais inerentes a uma parentalidade feliz), com, porque não dizê-lo, muito do que se escreveu sobre esta questão que justificou este testamento (aqui fica um agradecimento a quem chegou aqui!).
E, como atrás disse, continuemos, enquanto pais, a escrever esta resposta aberta da parentalidade, sem escrever ao calhas como eu fazia quando não sabia a resposta para ver se acertava lá pelo meio. Se não soubermos, perguntamos a quem saiba mais do que nós, a alguém em quem confiemos ou aos nossos miúdos (a Mariana ajudou, em parte, a escrever este testamento). Ficar pela resposta fechada, confiando na sorte para acertar, é demasiado tentador mas demasiado perigoso. Como já disse, ser pai é conviver com dúvidas. Lidar com isso deve ser natural, tranquilo, sem medo de não termos todas as respostas. Não as temos, imediatamente. Podemos construí-las, devemos procurá-las. Por vezes, há que surfar a onda dos cinzentos para lá chegar. Se custa, sim. Se é mais fácil desqualificar quem nos faz pensar, ficar refém do conforto dos nossos pilotos automáticos e ter medo de mudar? Claro que é. Mas os miúdos merecem mais. Muito mais.
Comentários
Devo dizer, Filipe, que toda esta história me fez lembrar de uma das maiores aprendizagens sobre o valor da vida ou sobre a relação com a morte que tive na minha infância. Quando fui "obrigada" a dar um beijo de despedida à minha avó. Não me perguntaram se o queria fazer, nem tão pouco me arrastaram para o fazer. Era algo "natural" ou "cultural", se assim o quisermos dizer, mas tenho perfeita noção que foi a primeira vez que tive noção que o mais valioso não é perene.