A memória do jogo da bola

Um campo de terra inclinado, quatro canas,  arrancadas a um dos terrenos ao lado, a servir de balizas desalinhadas uma da outra, uma vinha e uma estrada que serviam de linhas laterais e uma taça feita com um pau e metade de um garrafão de lixívia virado ao contrário, nele encaixado. O garrafão, muitas vezes, era achado na ribeira, onde se procuravam os berlindes esquecidos, fornecidos como brindes e que as senhoras nem sempre levavam.

Miúdos que se juntavam, em número variável e nem sempre par, que jogavam mesmo quando a câmara de ar, que ia saindo por um sulco, rebentava, finalmente, dando um fim ao luxo da "bola de couro". Às vezes, a bola era roubada no pinhal, atrás de umas das balizas do clube da terra. Quando a bola era oficial, tudo saía melhor. Quando se jogava de chuteiras ou com luvas, havia um extra de motivação. E estilo.

O talento variava de petiz para petiz. A quem tinha menos, sobrava o esforço e a alegria fugaz quando as coisas saiam bem. Um golo era um monumento. Uma defesa bem conseguida, uma obra de arte. A quem tinha talento, sobravam as simulações, os remates a um canto imaginário da baliza e os sonhos do futebol dos grandes. 

Discutiam-se faltas. Se era golo nas bolas altas, dada a ausência de barra (ainda que, a dada altura, tenha surgido uma baliza de madeira, com paus pregados). Nunca havia discussão sobre o que acontecia, quando se sucediam três cantos. Era penálti,

Na baliza uns eram o Silvino, outro o Tó Luís. Na frente uns eram o Rui Águas, outro o Latapy. Todos ganhavam, mesmo quando perdiam. A noite chegava e o jogo continuava, iluminado pelo sonho. O apito final era a enésima chamada dos pais para tomar banho e jantar.

No dia seguinte, o mais cedo possível, fazia-se tudo outra vez, a seguir à catequese e depois do almoço de família. Sem custo, com gosto.




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